Uma operação financeira envolvendo o banco Digimais, instituição ligada ao fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, levou à transferência de uma carteira de financiamentos de veículos marcada por elevado nível de problemas judiciais e inadimplência.
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Entre os contratos repassados estaria inclusive o caso de um automóvel posteriormente identificado como roubado, cuja compra acabou anulada pela Justiça. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
A transação envolveu a empresa Hatikvah Participações, do empresário e pastor Tiago Gouvêa, e movimentou cerca de R$ 255 milhões, segundo documentos obtidos pela imprensa. Como parte do acordo, a empresa assumiu os direitos relacionados aos financiamentos e, em contrapartida, cedeu participação em um fundo de investimento que posteriormente passou a ter o Digimais como principal cotista.
A operação se insere em um contexto mais amplo de movimentações envolvendo ativos considerados de maior risco dentro do banco. Nos últimos anos, a instituição realizou transferências de carteiras financeiras para fundos ligados à própria estrutura do grupo, em operações que, segundo relatos já divulgados, levantaram questionamentos sobre transparência e dificultaram análises independentes de auditoria.
As carteiras de financiamentos de veículos aparecem entre os principais ativos envolvidos nesse tipo de transação. Em alguns casos, os índices de inadimplência teriam alcançado níveis considerados críticos pelo mercado. Além dos atrasos nos pagamentos, parte dos contratos passou a enfrentar disputas judiciais relacionadas a problemas nos veículos comercializados.
Um dos episódios envolve o técnico de segurança Rafael Cascardi, morador do ABC paulista. Após adquirir um carro financiado pelo Digimais, ele foi abordado pela polícia e descobriu que o automóvel apresentava irregularidades: utilizava placas correspondentes a outro veículo, enquanto chassi e motor pertenciam a um carro com registro de furto. A Justiça posteriormente reconheceu a rescisão do contrato.
Outro caso citado é o do fotógrafo Rodrigo Menezes Martins, que acionou a Justiça após adquirir um automóvel que apresentou sucessivos defeitos mecânicos. Posteriormente, ele afirmou ter descoberto a existência de um rastreador oculto instalado no veículo e obteve indenização por danos morais.
Nos dois processos, a disputa judicial passou a ser conduzida pela Hatikvah Participações após a transferência da carteira. Com isso, a empresa assumiu também a responsabilidade pelos créditos e pelos litígios associados aos contratos.
Segundo Tiago Gouvêa, a negociação previa ainda investimentos do Digimais em uma operação baseada em crédito consignado vinculado a empreendimentos imobiliários. O empresário afirmou, porém, que parte dos recursos prometidos — estimados em cerca de R$ 30 milhões — não teria sido liberada, o que teria comprometido o projeto e causado prejuízos.
Documentos citados na apuração apontam que o Digimais ampliou sua participação no fundo relacionado à operação, chegando posteriormente a deter quase a totalidade das cotas. O banco, entretanto, não se manifestou sobre o caso.