Foto: site da FAO
A recente retirada do Brasil do Mapa da Fome da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) foi amplamente comemorada pelo governo Lula como um sinal de recuperação social e econômica. Os dados indicam que o país teria reduzido sua taxa de desnutrição severa para menos de 2,5% da população, atendendo ao critério técnico da organização para sair da lista. Programas como o fortalecimento do Bolsa Família e o plano “Brasil Sem Fome” são apontados como responsáveis pelo avanço. No entanto, o anúncio tem gerado desconfiança em círculos diplomáticos e políticos internacionais, sobretudo diante de questões envolvendo a liderança atual da FAO.
O diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, é um engenheiro agrônomo chinês filiado ao Partido Comunista da China. Ele assumiu o comando da organização em 2019, tornando-se o primeiro cidadão chinês a ocupar o posto. Desde então, sua gestão tem sido criticada por diversas nações ocidentais, que alegam haver um esforço crescente para alinhar as pautas da FAO aos interesses estratégicos de Pequim, especialmente no âmbito do projeto “Belt and Road” e de parcerias com conglomerados agrícolas estatais chineses. A atuação de Qu também foi marcada por decisões polêmicas, como o relaxamento de critérios para uso de pesticidas e a priorização de acordos com países considerados aliados políticos da China.
Neste contexto, a divulgação dos dados que favorecem diretamente a imagem do governo Lula — que tem aprofundado relações comerciais e políticas com o regime chinês — levanta suspeitas. Analistas internacionais e opositores brasileiros questionam se os números foram usados como peça de narrativa geopolítica para fortalecer o prestígio de aliados estratégicos da China no cenário latino-americano. A coincidência entre o fortalecimento dos laços Brasil-China e o anúncio da retirada do país do Mapa da Fome não passou despercebida em fóruns diplomáticos, especialmente em Washington, onde cresce a preocupação com a influência chinesa em organismos multilaterais da ONU.
Embora não haja provas de manipulação dos dados, a politização da FAO sob Qu Dongyu já é um tema recorrente em discussões nos bastidores das Nações Unidas. A transparência dos critérios, a independência técnica da agência e o uso de estatísticas como ferramenta de influência geopolítica são pontos que vêm sendo questionados por diplomatas e organizações independentes. O caso do Brasil reacende o debate sobre até que ponto organismos internacionais mantêm sua neutralidade frente ao avanço de regimes autoritários em posições estratégicas, e até onde vai a interseção entre políticas públicas legítimas e interesses globais ocultos.
Por Júnior Melo

