Zema – Não conheço o modelo dele em detalhes, mas o que eu estou propondo é o tratamento adequado para essas pessoas e levá-las para esses centros de recuperação que existem, mas que elas se negam a ir.
BBC News Brasil – O senhor já deu também diversas declarações associando o Bolsa Família à escassez de mão de obra das empresas, embora os dados do Caged mostrem que, no ano passado, 75% dos empregos com carteira criados no Brasil foram ocupados por beneficiários do programa. O senhor pretende mudar o programa, caso venha a ser eleito?
Zema – Pretendo aperfeiçoá-lo, sim. Na minha opinião, quem recebe o Bolsa Família deveria continuar recebendo o Bolsa Família quando consegue um emprego, até para ele ver que no emprego ele vai aprender, ele está se qualificando, ele está se desenvolvendo.
BBC News Brasil – Mas isso já acontece hoje. Com a regra de transição do Bolsa Família, isso já está acontecendo [Nota da redação: introduzida em 2023, a chamada regra de proteção permite que famílias que elevem sua renda até R$ 706 por pessoa continuem a receber metade do benefício por até 12 meses].
Zema – Eu não sei exatamente. Não sei se você tem os detalhes, mas eu acho que durante um ano ele tinha de continuar recebendo o Bolsa Família, até para ele ter um incentivo.
BBC News Brasil – Esse é o desenho atual do programa…
Zema – É um ano? Continua recebendo 100%?
BBC News Brasil – Depende da mudança de renda. Se passar do nível de renda, ele pode ser excluído, mas tem essa cláusula, sim. Isso já está acontecendo no modelo atual.
Zema – Eu quero deixar claro o seguinte: o que eu quero é que nós tenhamos um processo de desmame do Bolsa Família, bem feito. Não tenho detalhes do modelo hoje, mas muita gente fala: ‘Eu não vou [trabalhar], porque estou trocando o certo pelo incerto’.
Então, acho que nós temos de criar incentivos para que quem está no Bolsa Família trabalhe e continue recebendo o Bolsa Família por um bom tempo. Que esse desmame seja longo, porque o que está acontecendo aqui no Brasil é que não existe mais desmame e tem gente que está recebendo o Bolsa Família há 20, há 25 anos, desde o início do programa. Então ele tem mostrado que é um programa que não resolve efetivamente.
BBC News Brasil – Mas 1 milhão de pessoas já saíram do Bolsa Família no período recente [apenas no mês de julho], isso é um dado oficial do governo. As pessoas estão saindo do programa.
Zema – Mas quantos ainda recebem Bolsa Família no Brasil? 20 milhões? [Eram 19,6 milhões de famílias em julho, segundo dados do governo]
BBC News Brasil – Sim, mas as pessoas estão saindo. E a regra de transição que o senhor está propondo já existe. Então, para mim, não está claro qual é o problema do senhor com [o programa].
Zema – Então, acho que nós temos de aperfeiçoá-lo, porque o que existe hoje, e eu também quero te lembrar, é o seguinte: toda semana eu estou no interior de Minas.
Eu sou gestor, chão de fábrica. Não fico lá no meu gabinete, trancado, não. Eu vou na rua para ver o que está acontecendo. Não sei se você costuma ir.
E eu chego lá na rua, no interior de Minas Gerais, converso com o produtor rural, converso com o comerciante, e eles me falam: ‘Tem um punhado de gente aqui na minha cidade que recebe o Bolsa Família, vem aqui, quer trabalhar, mas não quer emprego formal, que emprego informal, sem registro.’
Aí o comerciante, a indústria não quer porque não está cumprindo a legislação. Então, há, em muitos casos, essa questão de haver uma resistência por parte do beneficiário em aceitar um emprego formal, porque ele vai estar perdendo alguma coisa, ou agora, ou no futuro. Então isso, para mim, sinaliza que o programa precisa ser aperfeiçoado.
BBC News Brasil – Mas o senhor não acredita que isso pode ser fruto de um preconceito que se tem com os beneficiários do Bolsa Família e que talvez essa dificuldade de contratar esteja mais ligada ao pleno emprego que a gente tem atualmente?
Zema – Então, hoje nós temos praticamente uma situação de pleno emprego. Agora, se você anunciar, ‘eu estou com vagas’, se for formal, muitas pessoas não querem. Se for informal, elas querem. O que é estranho, porque o emprego formal é que dá mais garantias, que dá mais acesso a aposentadoria, Fundo de Garantia, etc.
Então está muito claro: ou a população está ignorante e não sabe que o programa tem esse benefício que você está falando, ou então nós precisamos mudar essa forma do desmame, que não está adequada, porque muitas pessoas hoje simplesmente não aceitam trabalhar formalmente.
Então nós temos que levantar. Talvez é alguma coisa que eu ignore, que eu não estou sabendo, mas indo ao chão de fábrica, o que eu tenho nesse momento de informação é isso.
BBC News Brasil – O senhor declarou um patrimônio de quase R$ 130 milhões em 2022 e, portanto, deve ser um dos afetados pelo aumento da taxação dos mais ricos com a reforma do Imposto de Renda. Como avalia essa reforma?
Zema – Avalio ela como positiva. O Brasil precisa melhorar a sua tributação, torná-la mais progressiva.
Hoje nós temos muito esse processo de pejotização, em que muitas pessoas trabalham como prestadores de serviços por motivo tributário, mas é o equivalente a empregado. Então, acho que nós tínhamos de ter aqui uma “CLT 2” que permitisse alguém fazer essa opção.
Não é acabar com a CLT, não, entendeu. Será que nós não temos gente madura para poder escolher?
Hoje parece que nós estamos beneficiando aqueles que têm condição de constituir uma empresa, que têm condição de discutir um contrato de prestação de serviço com o empregador ou com a empresa. E o mais simples, fica preso na CLT, onde ele é penalizado pelo Imposto de Renda.
Agora, eu sou favorável [à reforma do IR], totalmente. Nós temos de fazer com que aqueles que ganham muito, paguem.
BBC News Brasil – Lá em 2023, o senhor comparou os Estados do Norte e Nordeste a “vaquinhas magras que produzem pouco”, ao falar sobre distorções de arrecadação. E também disse que os Estados do Sul e Sudeste são os que podem contribuir para o país dar certo porque têm mais trabalhadores do que dependentes de auxílio. Como o senhor espera convencer os eleitores do Norte e Nordeste de que o senhor vai governar para eles também?
Zema – O Brasil é um só. Eu abri lojas, várias, umas 40 no sul da Bahia. Gosto muito daquela região lá de Brumado, e não tenho nenhuma restrição ao Nordeste, aos nordestinos.
Agora, é fato aqui no Brasil que nós temos hoje em vários Estados uma política que é perniciosa à população, onde tem tipo um coronelismo. Isso precisa mudar.
Nós precisamos avançar na questão das instituições públicas. E isso tem sido difícil em alguns Estados. Em Minas tem, em algumas cidades lá, essa cultura do político dominar tudo, perseguir alguém que não está dando apoio, isso é muito triste. Isso não é democracia para mim.
Agora, eu sou favorável a ter ajuda àqueles municípios, àqueles Estados que têm uma renda menor, que têm o IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] menor. É preciso fazer uma redistribuição. Isso já acontece no Brasil.
Agora, nós precisamos ter um plano de longo prazo também para que quem recebe ajuda vá melhorando ao longo do tempo e não dependendo eternamente da ajuda.
A Zona Franca de Manaus já existe há mais de 50 anos, e parece que não tem nenhum plano de desmame ali.
BBC News Brasil – O senhor pretende acabar com a Zona Franca de Manaus, então, se se tornar presidente?
Zema – Não. Eu pretendo fazer o desmame. Eu acho que todos os Estados, cidades, têm de ter autonomia. Eu criei meus filhos para terem autonomia. Mas parece que, na política, tem cidade, tem Estado, que quer ficar recebendo verba eternamente. Está errado.
Recebendo subsídio eternamente, inclusive para o setor privado. Todo subsídio deveria ser temporário.
BBC News Brasil – O senhor já deu declarações relativizando a ditadura militar, tem questionado agora publicamente a aplicação da Lei de Defesa do Estado Democrático, já deu declarações de que o [presidente Nayib] Bukele é um exemplo para o senhor – Bukele que agora pode ser reeleito indefinidamente, conforme uma decisão do Congresso de El Salvador. Os eleitores podem estar seguros de que, sob um eventual governo do senhor, a democracia brasileira está segura?
Zema – Eu fui CEO de uma empresa durante 30 anos. Boa parte desse tempo, e nos últimos dez, 15 anos, ela está entre as melhores para se trabalhar no Brasil e entre as dez melhores de Minas Gerais.
Eu acho que eu sei criar um clima de trabalho participativo, um clima de trabalho onde as pessoas são escutadas e eu sei trabalhar em time. Eu sei montar times. Foi o que eu fiz em Minas Gerais.
E quem me conhece sabe que a última coisa que eu sou é autoritário. Agora, eu gosto das coisas certas. Eu gosto de bandido na cadeia, eu gosto de corrupto na cadeia, e isso não está acontecendo no Brasil. Aí eles distorcem, falam que eu quero ser ditador. Nunca fui.
Tem lá 5 mil empregados na empresa que eu era CEO. Vai lá e pergunta como eu era presidente da empresa. Quem me conhece, sabe.
BBC News Brasil – Mas o senhor acredita na democracia como um valor, sendo uma pessoa que já relativizou a ditadura brasileira?
Zema – Plenamente, plenamente. Nós tivemos aqui um regime militar, sim, mas do outro lado tinha terroristas, sequestrando e matando. Acho que estava meio que semelhante a uma guerra naquela época. Eu era criança muito pequena, não vou saber analisar bem, mas que teve um regime militar aqui, teve sim, inegavelmente. Não quero aquilo de volta.
Você falar que eu sou a favor [da ditadura], é uma coisa muito diferente do que eu disse.
Fonte: BBC News