Leio por aí que o sacrossanto e infalível homem que nos rege, o excelso senhor Presidente, deu aquilo que os antigos chamavam de gaffe quando proclamou, urbi et orbi e do alto de sua sabedoria, que “botou uma mulher bonita para lidar com o Congresso”.
A mulher em questão é d. Gleisi Hoffmann, nova ministra das Relações Institucionais, mas não foi só por isso – digo, pelo machismo, pelo sexismo da frase – que a coisa caiu mal.
É que a fala sugere que o Congresso, esse coletivo místico, se deixará engazopar pelos dotes físicos da nova ministra.
Que as, digamos assim, qualidades estéticas da ministra terão, por si sós, o condão de azeitar as tais “relações institucionais” entre o Parlamento e ele, Presidente e dono dos nossos cambiantes e cambaleantes destinos.
Essas relações, conste, têm sido acidentadas: variam entre a secura e a frieza, e, quando nelas há calor, é o da discórdia, não o do amor.
E este é, afinal, o governo do amor. Ou de coisa similar, com sabor parecido.
Nessa fala, admitamos, o semideus se saiu mal.
Machismo e sexismo à parte (deslizes perdoáveis num homem que transborda qualidades mais ou menos como o rio Tietê transborda nas chuvas), injustiça maior não pode haver, nem para com o Congresso, nem para com a ministra.
Primeiro porque o Congresso está cheio de mulheres, várias delas refratárias aos encantos físicos da ministra (alguns dos homens, aliás, também) e à espera de dons mais, como direi, objetivos.
Segundo porque a ministra, elle même, tem outros atributos, outras capacidades mais decisivas para o bom desempenho do seu múnus, do seu mister ministerial.
Sua beleza não empana o brilho da sua competência.
Por isso é que nem de longe duvidamos da capacidade da ministra quando o assunto é a facilitação de relações.
No caso, as institucionais. Não: se o discurso do santo homem não foi dos melhores, a escolha entretanto foi certeira.
Inclusive a ministra já está ganhando o merecido reconhecimento. Nada mais justo. Faz tempo que se sabe: a ministra entende do riscado.
Vi também que o supracitado Semideus do Executivo anda chateado com o setor avícola (ou será ovícola?) nacional.
Com o setor exatamente não: com uma pessoa desse setor. Uma pessoa não identificada. Uma pessoa misteriosa. Uma pessoa com a identidade a apurar.
Antes, detalhemos os porquês. O preço do ovo subiu.
Não sei se o amigo, talvez ainda atordoado com o preço do café, se deu conta. Mas subiu.
Subiu a ponto do Grande Motorneiro perceber, ele que não compra ovo nenhum – manda a assessoria buscar.
O ovo, no caso, é o da galinha. Tipo do ovo que nosso Bem Nutrido Líder não consome muito, preferindo os de ema (que apanham para ele no jardim de casa) e de pata.
Por sinal, eu nunca comi ovo de ema, mas quem manja do riscado diz que é ovo fundamental para as performances, governamental e outras, do nosso Bem-Amado, do nosso Odoricão de Garanhuns.
Não duvido.
Dos de pata, pouco é preciso dizer. Suas propriedades são sabidas, cultuadas, festejadas.
Se o amigo duvida, confira no site do Instituto Ovos Brasil. Tá tudo lá.
Mas vá logo, antes que o Governo apareça com alguma Ovobrás e torne o Instituto obsoleto.
E é aí que entra a pessoa misteriosa: nosso Magnífico Condutor quer saber quem foi esse cidadão desconhecido que foi lá e chutou o preço dos ovos de galinha para cima.
Quem foi o avícola, ou o ovícula, que mexeu com os nossos ovos.
Sua Majestade o classificou como “ladrão” e “pilantra”.
Sinceramente, nem sei como qualificar um camarada que, sozinho, sem companhia nem ajuda, mexeu com os ovos presidenciais e com os do país inteiro.
Só digo que ladrão e pilantra é pouco. Seja você quem for: tire a mão dos nossos ovos.
Ninguém aguenta mais tanto apuro, tanto aperto. Tenha dó.
Por Orlando Tosetto Jr. é escritor