Quase três meses após a abertura do inquérito sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro (PL), a Polícia Federal (PF) ainda não apontou nos documentos analisados registro de atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em benefício do banqueiro Daniel Vorcaro ou do Banco Master. A documentação também não indica uso de recursos públicos na produção.
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O Portal Claudio Dantas teve acesso aos autos do Inquérito 5.070, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro André Mendonça. Os registros examinados pela PF descrevem transferências internacionais realizadas por canais bancários oficiais e associadas documentalmente ao financiamento do longa-metragem.
A investigação foi aberta em julho para apurar possíveis crimes de evasão de divisas, organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção ativa no contexto do financiamento do filme, inicialmente chamado Capitão do Povo. Segundo a apuração, Vorcaro teria se comprometido a investir US$ 24 milhões no projeto. Desse total, cerca de US$ 12,3 milhões teriam sido remetidos em 2025.
Remessas passaram por bancos e foram declaradas
Em despacho de 15 de outubro, a PF contabilizou sete remessas realizadas entre fevereiro e setembro de 2025, que somaram US$ 12.333.335. As operações foram feitas por contratos de câmbio nos bancos BS2 e Topázio, com comprovantes SWIFT, e tiveram como destino uma conta do Havengate Development Fund LP no JPMorgan Chase, nos Estados Unidos.
Com o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o montante corresponde a aproximadamente R$ 71,1 milhões.
A própria Polícia Federal registrou que, em análise preliminar, os documentos confirmam a quantidade de transferências, os valores, as instituições envolvidas e o destinatário final. Segundo o despacho, os montantes também coincidem com o que havia sido declarado pelo colaborador da investigação.
O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, responsável pelas remessas, afirmou em depoimento prestado em 1º de outubro que todas as operações cambiais foram registradas e informadas ao Banco Central por meio da Declaração de Capitais Brasileiros no Exterior (DCBE).
Documentos vinculam valores à produção do filme
A destinação cinematográfica aparece em uma carta-acordo da Calixsan Capital Management, gestora do fundo. O documento estabelece o cronograma dos US$ 24 milhões e justifica a urgência dos repasses com a expressão “because time is of the essence to the production of the film”, ou seja, porque o tempo era essencial para a produção do filme.
A PF apontou que o cronograma e os valores previstos no documento coincidem com o contrato de financiamento encontrado no celular de Vorcaro. A autoridade policial, contudo, identificou pontos que ainda precisam ser esclarecidos sobre o conhecimento do colaborador a respeito da finalidade dos recursos.
As filmagens ocorreram em São Paulo. De acordo com o contrato de locação analisado pela polícia, as gravações no Hospital Indianópolis foram realizadas entre 21 e 31 de outubro e entre 14 e 28 de novembro de 2025.
A investigação também identificou a entrada de US$ 2,8 milhões, equivalentes a cerca de R$ 14,8 milhões, na Go Up Entertainment Ltda., produtora brasileira do grupo. Os recursos foram enviados por uma empresa norte-americana ligada à mesma estrutura, por meio de 20 contratos de câmbio.
No despacho, a PF destacou que 14 dessas operações, no total de US$ 2,019 milhões, ocorreram entre 14 de outubro e 26 de novembro de 2025, período coincidente com as filmagens no hospital. A produtora apresentou ainda um laudo de perícia contábil privada sobre os custos da obra.
Ancine não identificou recursos públicos
Em resposta à consulta da Polícia Federal, em 27 de agosto, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) informou não haver registros de pedidos, autorizações de captação, recebimento ou utilização de incentivos fiscais, mecanismos de fomento, recursos públicos federais ou outros benefícios relacionados a Dark Horse ou Capitão do Povo.
A informação foi incorporada pela PF aos despachos de 10 de setembro e 15 de outubro. Neste último, a autoridade policial reiterou a ausência de registros de captação de recursos públicos ou de incentivos fiscais federais para o projeto.
Inquérito não aponta atuação de Flávio
Embora a investigação também apure possível corrupção ativa, os documentos analisados pelo Portal não registram ato de ofício, contrapartida ou atuação parlamentar de Flávio em favor de Vorcaro ou do Banco Master.
O despacho mais recente pede a prorrogação do inquérito por mais 90 dias. Até o momento, o empresário Freixo foi o único ouvido, e o documento não prevê depoimentos do senador ou do banqueiro.
A ausência desses elementos nos registros examinados não encerra a investigação nem representa conclusão definitiva sobre todos os fatos apurados.
PF aponta questões ainda pendentes
No despacho de 15 de outubro, a Polícia Federal ressalvou que, apesar da documentação reunida, existem divergências que exigem aprofundamento.
Uma delas diz respeito à carta-acordo que associa expressamente os recursos à produção cinematográfica. Para a PF, o documento está “em aparente contradição” com a declaração de Freixo de que desconhecia a destinação dos valores.
A autoridade policial também observou que somente a primeira página da carta foi apresentada. O inquérito segue aberto para esclarecer essas inconsistências e aprofundar a análise das operações financeiras.
