O avanço chinês sobre minerais críticos do Brasil

Entre 2023 e 2025, o capital chinês virou o principal comprador de ativos minerais no Brasil. Deixou de ser participação minoritária ou contrato de fornecimento e passou a comprar minas em operação, quase sempre em minerais críticos e quase sempre por meio de estatais.

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Os números do Conselho Empresarial Brasil-China dão a dimensão do movimento: o investimento chinês no país chegou a US$ 6,1 bilhões em 2025, o maior desde 2017, e a mineração, que sempre foi coadjuvante, saltou de US$ 557 milhões em 2024 para US$ 1,76 bilhão.

A operação que marcou o período foi a compra, pela CMOC, das minas de ouro da Equinox por cerca de US$ 1 bilhão.

Uma marca desta onda é o peso das estatais. Ao contrário do que costuma ocorrer com investidores privados ocidentais, a maioria dos compradores chineses é controlada pelo Estado, de forma direta ou indireta — pelo governo central (via SASAC) ou por governos provinciais.

É esse ponto que tira a conversa do campo comercial e a leva para o geopolítico, e é também o
principal argumento do marco legal que tramita no Congresso.

Entre os ativos já em produção ou em vias de fechar, a maioria está em mãos estatais ou de grupos com participação do Estado. Do ponto de vista do interesse nacional, o que pesa não é só a origem do capital, mas o quanto o comprador está a serviço de uma política de suprimentos.

Este artigo sintetiza os dados de quatro frentes analisadas pela Cross Analytics: o retrato das aquisições recentes com uma linha do tempo de todas as transações; o detalhamento dos requerimentos por empresa, com área, mineral e fase; o levantamento dos passivos dessas empresas na dívida ativa da ANM (CFEM, multas e autuações), com valor, natureza e data de cada débito; e uma leitura das áreas em que esses títulos esbarram em questões socioambientais.

Os pontos que mais importam:

  • Oito grupos chineses têm presença relevante: CMOC, CBMM (minoritário), Baiyin, CNMC, MMG/China Minmetals, SAM/Honbridge, BYD e Zijin. Juntos, cobrem nióbio, fosfato, ouro, cobre, estanho, tântalo, níquel, ferro, lítio e terras raras.
  • Cinco desses grupos já operam ou controlam ativos em produção. A maioria dos compradores é estatal, o que move a discussão do plano comercial para o geopolítico.
  • No cruzamento com a base de dívida ativa da ANM, três empresas ligadas a capital chinês aparecem entre os cem maiores devedores, somando cerca de R$ 82,1 milhões em créditos inscritos, todos de CFEM apurada em fiscalização. Duas delas são ativos que passam a controle chinês por aquisições ainda em curso, de modo que a dívida acompanha o negócio.
  • O projeto de ferro do grupo Honbridge (Bloco 8, em Minas Gerais) é o caso socioambiental mais sensível: reprovado pelo Ibama em 2016, alvo de ações do Ministério Público e travado em licenciamento há anos.

CMOC Group (ex-China Molybdenum)

Braço local da CMOC Group (ex-China Molybdenum), listada em Xangai e Hong Kong, chegou em 2016 comprando os ativos de nióbio e fosfato da Anglo por US$ 1,7 bilhão. Batizou o projeto de Niobras a operação de nióbio e retomou a marca Copebras no fosfato.

É a segunda maior produtora de nióbio do mundo e a segunda de fertilizantes fosfatados do Brasil, com receita acima de R$ 4,9 bilhões em 2024. Opera a mina Boa Vista (nióbio, Catalão/GO) e a Fazenda Chapadão (fosfato, Ouvidor/GO), mais os complexos químicos de Catalão e Cubatão (SP). Em dezembro de 2025 fechou a compra das operações de ouro da Equinox por US$ 1,015 bilhão — Aurizona (MA), Riacho dos Machados (MG) e o Complexo Bahia (Santa Luz e Fazenda Brasileiro).

O controle é híbrido: comando privado (Cathay Fortune, de Yu Yong) e participação estatal de peso (Luoyang Mining, de Henan).

CBMM — participação minoritária no nióbio

A CBMM (Araxá/MG) é brasileira, da família Moreira Salles, e responde sozinha por mais de 80% do nióbio do mundo. Desde 2011, um consórcio chinês tem 15% do capital, comprado por US$ 1,95 bilhão e reunindo CITIC, Baosteel (hoje Baowu), Taiyuan e, conforme parte das fontes, Anshan e Shougang.

É participação sem controle, mas de valor estratégico claro: garante às siderúrgicas chinesas acesso ao insumo. O retorno público a Minas Gerais vem sobretudo da parceria com a Codemig, que ficou com R$ 1,73 bilhão de participação nos lucros em 2024.

Baiyin Nonferrous — cobre em Serrote (AL)

Estatal da província de Gansu, a Baiyin assumiu em 2025 o controle da Mineração Vale Verde,
comprando o ativo do fundo Appian por algo entre US$ 420 e 500 milhões. A mina Serrote, em
Craíbas (AL), produz cerca de 20 mil toneladas de cobre por ano em concentrado, com um dos
teores mais altos do país, e ouro como subproduto. Começou em 2020 e já responde por perto
de 4,5% do cobre brasileiro.

CNMC — estanho, tântalo e nióbio em Pitinga (AM)

Em novembro de 2024, a estatal central CNMC comprou 100% da Mineração Taboca, da peruana Minsur, por US$ 340 milhões. A Taboca opera a mina Pitinga, em Presidente Figueiredo (AM), maior produtora de estanho do Brasil, que rende também tântalo, nióbio e, em associação, terras raras (xenotima) e urânio de baixo teor não aproveitado.

O concentrado é refinado em Pirapora do Bom Jesus (SP), de onde sai o estanho Mamoré, registrado na LME.

MMG / China Minmetals — níquel da Anglo (GO)

Em fevereiro de 2025 a Anglo acertou a venda de todo o seu negócio de níquel no Brasil para a MMG, estatal central, por até US$ 500 milhões. Entram no pacote o ferroníquel de Barro Alto e Codemin/Niquelândia (GO), com cerca de 40 mil toneladas de níquel por ano, e os projetos greenfield Jacaré (PA) e Morro Sem Boné (divisa MT/RO), com potencial de níquel grau bateria.

O negócio ainda não fechou: a Comissão Europeia abriu investigação aprofundada em novembro
de 2025 e o prazo foi empurrado para 30 de junho de 2026.

SAM / Honbridge — ferro travado em licenciamento (MG)

A Sul Americana de Metais, da Honbridge (Hong Kong), controla o Projeto Bloco 8, de minério de ferro, em Grão Mogol e Padre Carvalho (Norte de MG). Comprado da Votorantim em 2010, prevê cerca de 27 milhões de toneladas por ano, com um mineroduto de 480 km até Ilhéus (BA).

O projeto está parado há anos: reprovado pelo Ibama em 2016, reestruturado em 2017 e alvo de forte oposição, ainda na fase de Licença Prévia.

5.7 BYD — lítio em pesquisa (MG)

No fim de 2023 a BYD comprou, pela subsidiária BYD Exploração Mineral do Brasil, direitos de lítio de cerca de 852 hectares em Coronel Murta, no Vale do Jequitinhonha, ao lado de áreas da Atlas Lithium.

Por enquanto é pesquisa, sem produção; a jogada encaixa na verticalização da montadora, que já tem fábrica em Camaçari (BA).

Zijin — sondando o Brasil

Um dos maiores grupos minerais da China, já forte na Colômbia (ouro) e na Argentina (lítio), a
Zijin vem sondando ativos de cobre e níquel no Brasil, ainda sem nada consolidado. Depois de
levantar US$ 1,5 bilhão em 2026, é o nome mais provável para a próxima grande transação

MINERAIS CRÍTICOS

Não é coincidência que o dinheiro chinês se concentre nos minerais das listas de criticidade — os insumos que sustentam eletrificação, defesa e alta tecnologia, com oferta concentrada e risco de desabastecimento.

O Brasil ocupa posições de destaque nesse mapa: praticamente monopoliza o nióbio e guarda reservas expressivas de terras raras, lítio, grafita, níquel e estanho.

Na prática, o cenário geopolítico atual é uma imensa janela de oportunidade para o Brasil, mas também um risco. No caso do controle estatal chinês, a tendência é que a produção sirva exclusivamente à demanda interna daquele país.

O apetite chinês reprecifica áreas livres e títulos em minerais críticos, abrindo espaço para
originar e estruturar negócios. Há espaço para antecipar os próximos alvos (cobre, níquel, lítio, terras raras), equilibrar demandas e ligar titulares nacionais a compradores estrangeiros qualificados, diversificando o capital externo.

A escalada das compras chinesas empurrou o país a montar um marco de proteção. O PL 2.780/2024, aprovado pela Câmara em maio de 2026, cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos.

Ligado à Presidência, ele terá a responsabilidade de fazer uma triagem estatal sobre mudanças de controle societário em empresas de minerais críticos, participação estrangeira relevante, acesso de estrangeiros a informação geológica estratégica, contratos internacionais de fornecimento e a alienação de títulos da União.

Sob pressão do setor privado, a versão final trocou a “anuência prévia” ampla por uma etapa de triagem: o Estado continua avaliando operações sensíveis, mas sem veto automático.

No Senado, corre uma proposta paralela que abranda ainda mais o dispositivo. O texto também traz limites à exportação de minério bruto, créditos fiscais para quem processa no país e obrigação de investir em pesquisa e desenvolvimento.

Uma vez regulamentado, é esse conselho que poderá condicionar ou acompanhar operações como o níquel da MMG e as próximas compras da Zijin.



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