O império empresarial bilionário da elite secreta de Cuba. Integrada às Forças Armadas, holding Gaesa gerencia cerca de 40% do PIB. Empresa constrói hotéis de luxo em contraste com extrema escassez e apagões, segundo reportagem da BBC.
✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp
Enquanto Cuba enfrenta escassez e apagões, um conglomerado empresarial vinculado às Forças Armadas do país administra secretamente bilhões de dólares.
A Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S. A.) não tem website, nem endereço de correio eletrônico institucional conhecido, nem canais oficiais de contato. Ela não publica balanços, nem aparece no orçamento estatal.
A Assembleia Nacional do Poder Popular e a Controladoria Geral da República de Cuba não podem auditar suas contas. A empresa embolsa praticamente cada dólar recebido pelos negócios mais rentáveis do regime cubano: turismo, remessas financeiras, comércio exterior e missões médicas no estrangeiro.
A holding pertence às FAR (Forças Armadas Revolucionárias de Cuba), mas também não está sob seu controle.
Em 2024, ela possuía bens no valor de pelo menos US$ 17,9 bilhões, incluindo mais de US$ 14,4 bilhões em contas bancárias, segundo documentos vazados para o jornal americano Miami Herald. A BBC não conseguiu verificar estes dados de forma independente.
Esta fortuna é maior que as reservas internacionais de países como o Equador, o Paraguai ou a República Dominicana. Isso ilustra a magnitude do império econômico representado pela Gaesa.
Tudo isso contrasta com a situação econômica de Cuba, um país com queda acumulada de 15% do PIB nos últimos cinco anos e insolvente frente aos seus diversos credores internacionais.
Quase nove a cada 10 cubanos vivem em condições de extrema pobreza ou “sobrevivência”, segundo estimou em 2025 o Observatório Cubano dos Direitos Humanos. Neste ano, a crise no país se intensificou com apagões de várias horas por dia e com a escassez ainda maior de alimentos, combustíveis e medicamentos.
Nos últimos meses, o governo do presidente americano Donald Trump intensificou as sanções contra a ilha, com bloqueio do fornecimento de petróleo, que agravou os problemas de energia e abastecimento.
A Gaesa nasceu na década de 1990. Era mecanismo criado dentro das FAR para administrar empresas que operavam com divisas em plena crise econômica, após a queda da União Soviética.
Seu objetivo inicial era gerar recursos para as próprias Forças Armadas por meio de negócios vinculados ao turismo, comércio exterior e outros setores que captavam dólares. Com o tempo, a estrutura se transformou em império financeiro.
A deterioração da saúde de Fidel Castro levou à ascensão ao poder do seu irmão Raúl, interinamente em 2006 e formalmente em 2008. Desde então, o conglomerado começou a se expandir e absorver empresas estatais estratégicas, entre elas a Cimex.
“Ao se apropriar da Cimex, a Gaesa adquiriu toda a sua rede de empresas, dentro e fora de Cuba: corporações localizadas em paraísos fiscais como o Panamá, comércios varejistas em moeda local e em dólares, postos de gasolina, negócios imobiliários, exportação, importação, atacadistas…”, explica Emilio Morales, presidente da consultoria Havana Consulting Group.
A holding foi englobando outras empresas, como as do setor turístico Gaviota e Habaguanex, parte da operadora de internet Etecsa e a gestão do porto comercial de Mariel. Assumiu também o controle do BFI (Banco Financeiro Internacional), que opera as transações de Cuba com o exterior.
Na prática, a holding monopolizou quase todos os negócios que atraem dólares: turismo, comércio, telecomunicações, bancos, remessas financeiras, logística e construção.
No papel, Cuba funciona em sistema socialista, no qual a economia é monopólio do Estado. Mas a Gaesa não presta contas à Assembleia Nacional e mantém seus balanços em sigilo.
“Seus balanços são secretos, a imprensa cubana não a menciona e ela trabalha em total obscuridade”, explica à BBC o economista Pavel Vidal. “E, na verdade, também não paga impostos e não aparece nos orçamentos do Estado, já que tem um orçamento independente. É uma economia dentro de outra”, define ele.
Em julho de 2024, a então controladora-geral de Cuba, Gladys Bejerano, foi exonerada após 14 anos no cargo. Ela havia admitido em entrevista à agência EFE que o Estado não teria jurisdição para auditar a Gaesa.
Três anos antes, em 2021, o então ministro das Forças Armadas de Cuba, Leopoldo Cintra Frías, foi suspenso, segundo fontes, pouco depois de tentar promover investigação interna sobre a holding ligada à sua pasta.
O grupo empresarial foi presidido por anos pelo general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, ex-genro de Raúl Castro. Foi sob seu comando que a Gaesa assumiu o controle das principais empresas estatais.
Após a morte de Rodríguez López-Calleja, em 2022, a presidência passou para a sua vice, a generala-de-brigada Ania Guillermina Lastres.
Identificar os proprietários e diretores da Gaesa não é tarefa fácil. Sua estrutura empresarial é obscura. Não se sabe quem lidera seus órgãos de decisão, não há organograma oficial e parte das empresas operam por meio de redes societárias de difícil rastreamento.
Segundo Emilio Morales, o poder é concentrado em grupo seleto. “Não ultrapassa 15 pessoas”, revela ele. “Não são nomes públicos, são muito herméticos. Eles têm designado a cada empresa um profissional de informática, um contador e um oficial da contrainteligência, para supervisionar toda a parte contábil”.
O presidente da plataforma acadêmica Cuba Século 21, Juan Antonio Blanco, explica que Raúl Castro tentou “evitar que os generais se corrompessem, tendo acesso a grandes valores em dinheiro”. Por isso, “a Gaesa foi reservada para um grupinho de elite da família Castro e os mais próximos”.
A elite do colosso empresarial seria o entorno familiar e militar do general Raúl Castro, hoje com 94 anos. Oficialmente aposentado, ele continua sendo o homem mais poderoso de Cuba, segundo analistas.
O conglomerado mantém contas em segredo e opera fora do escrutínio público. O vazamento de documentos internos publicado em 2024 pelo Miami Herald trouxe números específicos. Os documentos são compostos por 22 balanços financeiros internos de diferentes empresas do grupo.
Segundo eles, em março de 2024 o conglomerado controlava ativos avaliados em pelo menos US$ 17,894 bilhões, incluindo US$ 14,467 bilhões líquidos em contas bancárias. Estes números não incluem a Cimex, maior empresa da holding.
**Com informações da BBC
Os documentos revelaram rentabilidade de mais de US$ 2,1 bilhões de lucros em agosto de 2024 sobre US$ 5,563 bilhões de receita, margem de cerca de 38%.
Especialistas indicam que isso se deve ao fato de a Gaesa explorar todos os setores rentáveis da economia cubana que geram dólares, como turismo e comércio, mas não os deficitários, como agricultura, educação e saúde pública, exceto pelas missões médicas.
Como Cuba restringe a entrada de outras corporações nesses setores, ela trabalha sem enfrentar concorrência. A empresa se beneficia da dualidade de taxas de câmbio. “Sua receita é principalmente em dólares, em divisas, e ela paga salários em pesos cubanos”, explica Vidal.
Seis anos atrás, um dólar valia 24 pesos cubanos. Hoje, no mercado informal, a cotação supera 500 pesos, segundo dados do portal El Toque.
Sobre o paradeiro do patrimônio, Vidal calcula que “provavelmente elas estejam diversificadas: uma parte no BFI, mas também em bancos internacionais e, provavelmente, em paraísos fiscais”.
Cálculos de Pavel Vidal e outros especialistas indicam que as transações da Gaesa podem representar 40% do PIB do país.
Este poder financeiro permitiu à Gaesa manter estratégia de investimentos concentrada em atividades para captar divisas. Nos últimos anos, promoveu expansão dos negócios turísticos, especialmente em Havana, com novos hotéis. Os edifícios contrastam com a deterioração das ruas e construções ao redor.
Enquanto isso, o número de visitantes desabou de 4,7 milhões em 2018 para 1,8 milhão em 2024.
Para Vidal, concentrar recursos no setor turístico faz com que outras áreas estratégicas recebam menos investimentos, o que limita a capacidade do país de reativar setores produtivos que reduzam a escassez de alimentos e modernizar a geração de eletricidade.
“O investimento no turismo foi fortemente desproporcional e se descuidou dos investimentos na agricultura, na rede elétrica e na manutenção das instalações geradoras”, segundo o economista.
Outro exemplo são as missões médicas internacionais. Parte desta receita é canalizada para empresas do conglomerado militar. A Gaesa absorve boa parte das divisas que entram no país.
A Gaesa possui ativos que permitiriam modernizar o setor agropecuário e restaurar o setor de geração de eletricidade da ilha.
Subtítulo curto:
Holding das Forças Armadas controla turismo, remessas e bancos sem prestar contas
Metadescrição (SEO):
Gaesa, holding das Forças Armadas de Cuba, gerencia 40% do PIB e US$ 17,9 bi em ativos. Grupo secreto opera turismo, remessas e bancos em meio a apagões e escassez.