A pandemia de Covid-19 estremeceu a confiança do público em instituições científicas e cientistas. Às vezes com razão — não me canso do exemplo da carta aberta de profissionais médicos a favor da aglomeração só para protestos de esquerda —, às vezes com exagero, como certamente é o caso da lamentável moda de duvidar de todas as vacinas.
Alguns se entregam ao cinismo ou ao niilismo a respeito do assunto: se não podemos confiar nem nos cientistas mais, está tudo perdido e cabe a nós assistir ao colapso da civilização.
Não foi esta a resposta dos cientistas sociais George J. Borjas — economista de Harvard de origem cubana — e Nate Breznau, alemão especialista em educação de adultos. O que eles pensaram foi diferente: o comportamento dos cientistas é um dado do mundo que é plenamente suscetível a ser estudado cientificamente. Então, estudemos. Eles chamam essa pesquisa de “metaciência”, ou seja, a ciência além da ciência.
Borjas e Breznau escolheram um tema de pesquisa politicamente saliente: a imigração afeta o apoio do público a programas de bem-estar social do governo? Então, eles deram os mesmos dados a respeito da pergunta para 158 cientistas diferentes, distribuídos em 71 equipes.
Crenças políticas dos cientistas influenciam suas descobertas de formas sutis, mas determinantes
Para descobrir o viés político dos cientistas participantes, os autores perguntaram individualmente se pensavam que as leis de imigração deveriam ficar mais rígidas ou ser relaxadas.
Todas as 71 equipes tomaram decisões diferentes quanto aos métodos de análise de dados. Nenhuma fez sua pesquisa de uma forma idêntica a outra.
Borjas e Breznau descrevem assim seus resultados, publicados em 1º de janeiro na revista Science Advances: “Equipes de pesquisa que manifestaram fortes sentimentos pró-imigração tiveram maior probabilidade de obter estimativas positivas de parâmetros, sugerindo que a imigração aumenta o apoio público a programas sociais”.
Enquanto isso, as equipes com viés político anti-imigração se mostraram mais propensas a encontrar resultados negativos e que sugerem que a imigração reduz a coesão social.
Os autores do estudo demonstraram que dois terços da diferença podem ser atribuídos a cinco decisões específicas que as equipes tomaram ao desenhar as suas análises. A escolha de métodos, portanto, “fornece o mecanismo pelo qual a ideologia entra no processo de produção de descobertas de pesquisa”, eles afirmam.
Em entrevista ao site PsyPost, Borjas disse que sua preocupação principal ao projetar o estudo foi a crise da replicação na ciência, um problema notado especialmente a partir de meados da década de 2010, quando a repetição de estudos não produzia os mesmos resultados dos originais.
“Considere, por exemplo, quando Daryl Bem encontrou ‘evidências’ de percepção extrassensorial (ESP). Pessoalmente, ele acreditava em ESP. Isso não parece ser uma coincidência”, comentou Borjas. “Até hoje, todos os esforços de replicar seus experimentos falharam”.
Inicialmente, Breznau achou que a observação de Borjas de que os resultados poderiam estar correlacionados com as crenças dos cientistas era só uma coincidência. Bastava aumentar o rigor dos testes. Para sua surpresa, o resultado se manteve.
Os dados usados são robustos, têm origem no Programa Internacional de Pesquisa Social (ISSP) e foram coletados em vários países entre 1985 e 2016.
A boa notícia, imagino, é que se a pesquisa for sobre um tema pouco politizado, como a capacidade de regeneração da planária, o efeito da influência do viés político deve desaparecer. Mas o leitor se surpreenderia com a quantidade de temas aparentemente inócuos que viram objeto de disputa política entre “gangues” rivais de cientistas. Observei num congresso de entomologia em York alguns quase avançarem sobre os outros quando estavam debatendo se um grupo de oito genes afeta a virulência da bactéria Wolbachia, um parasita reprodutivo dos insetos.
Falando com as paredes: o custo de não se entregar de corpo e alma à tribo
Em 18 de maio de 2019, publiquei no YouTube uma crítica de 35 minutos a um divulgador científico pelo que eu considerava erros que ele cometeu por viés político. Talvez os leitores desta coluna não saibam, mas no começo da década passada eu era mais conhecido como divulgador de ciência.
Minha crítica, que era uma resposta a palavras duras que o youtuber havia direcionado contra outro alerta que fiz sobre viés político entre os divulgadores, foi feita com cuidado e talvez até carinho, pois eu considerava o youtuber um amigo. Avisei-o em particular que a crítica estava no ar, e esperei resposta.
Ele prometeu assistir à crítica. Estou esperando até hoje. Infelizmente, no meio do caminho o divulgador sofreu um acidente vascular cerebral. Antes, reiterei a crítica a ele e a toda a comunidade da divulgação científica no Brasil em um artigo detalhado.
Estou contando essa história porque tomei uma decisão ao formular minha crítica que acredito que foi muito acertada: não neguei que eu, também, tenho meus vieses políticos. Não me comportei como se eu fosse um robô de racionalidade, isento de cometer erros da mesma natureza daqueles que eu me preocupava em corrigir.
É neste ponto que está uma das questões mais importantes, seja dentro ou fora da ciência, para lidar com a diversidade de pensamento. Sim, há uma verdade objetiva a ser alcançada, na maioria dos problemas que nos assolam. Mas não existe uma saída para a polarização fora da conversa franca, sem aquele clima de provocação mútua e “fla-flu” (ou, pelo menos, a provocação precisa ser espirituosa e benigna). Nem sem o esforço ativo de exercer a virtude da humildade, que passa pelo reconhecimento de que eu, também, sou falível.
Os filósofos têm nome para isso: falibilismo. Sem isso, não há ciência. Como sabiamente formulou o filósofo Epicuro de Samos bem antes de existir ciência, a boa análise requer a consideração de uma multiplicidade de hipóteses.
Não deve ser coincidência que Epicuro era um filósofo pouco afeito ao fanatismo religioso (ele achava que os deuses existem, mas ficam nos espaços entre os mundos, sem interesse ou interferência na vida humana), aconselhava seus seguidores com veemência contra o ativismo político, e dava uma enorme importância à amizade e à discordância franca e construtiva entre amigos, que ele e muitos outros pensadores de Atenas chamavam de parrhesia.
Depois de perderem a confiança de uma importante parte do público, os cientistas têm que seguir o exemplo de Borjas e Breznau: mostrar que a ciência é sobretudo um empreendimento humano e, como tal, falível e sujeito à influência dos nossos vieses.
Quanto mais houver uma insistência em posar como profeta e exigir ser seguido, ou em usar sua proximidade com autoridades para forçar seu ponto de vista sobre o resto da população (mais uma vez, lembremo-nos da pandemia aqui), pior será o resultado, e não precisamos de métodos científicos para prever o que vai acontecer neste caso. Poucos grupos sociais têm tanta universalidade na repugnância dos outros quanto as elites arrogantes.