Defesa de Vorcaro diz que BRB conhecia origem de carteiras

Daniel Vorcaro ao ser fichado após prisão

A defesa de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, afirma que o Banco de Brasília (BRB) conhecia a origem das carteiras de crédito adquiridas da instituição desde abril de 2025 e, mesmo assim, continuou realizando operações. Em contestação apresentada à Justiça nesta quinta-feira (22), os advogados negam que o banqueiro tenha causado prejuízo ao banco público e sustentam que os ativos questionados foram substituídos por outros de valor superior. As informações são do portal Uol.

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A manifestação responde à ação em que o BRB cobra indenização do Master, de Vorcaro e de outros envolvidos pelas carteiras de crédito originadas pela empresa Tirreno que não teriam sido substituídas. O banco público estima perdas de pelo menos R$ 2,6 bilhões, mas ainda não divulgou o valor definitivo do prejuízo atribuído às operações.

Segundo a defesa, o BRB recebeu informações sobre a Tirreno no fim de abril de 2025, durante uma visita à sede do Master. Os advogados também citam um documento enviado pelo banco ao Banco Central (BC), no qual a substituição das carteiras teria sido descrita como uma operação de “impacto patrimonial nulo”. O ofício foi assinado por Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, posteriormente afastado do cargo.

A contestação afirma que o banco público continuou comprando carteiras do Master até outubro de 2025, apesar dos problemas identificados na documentação. Os advogados também dizem que Vorcaro não assinou os contratos nem participou das decisões sobre as compras ou os aumentos de capital do BRB. Para a defesa, as operações ocorreram por decisão dos responsáveis pela instituição compradora.

Um dos episódios citados envolve uma aquisição de aproximadamente R$ 750 milhões, concluída em 5 de maio de 2025. A transação foi negociada entre Vorcaro e Costa, mesmo com pendências nos documentos que deveriam comprovar a existência dos empréstimos.

Em mensagens reproduzidas na contestação, Costa inicialmente condicionou a compra à apresentação dos comprovantes dos créditos. “Garanti que consigo fazer R$ 750 mm na segunda, se recebermos os lastros”, escreveu o então presidente do BRB, em referência à documentação necessária para sustentar a operação.

Na manhã da compra, Costa voltou a questionar Vorcaro sobre a existência dos contratos. O banqueiro respondeu que sim, mas que faltava uma cláusula de mandato, documento que autorizaria o Master a emitir títulos de crédito em nome dos devedores.

Segundo a investigação da Polícia Federal (PF), o contrato com essa cláusula teria sido produzido em maio de 2025 e retrodatado para dezembro de 2024. A defesa, por sua vez, sustenta que a aquisição ocorreu por decisão do próprio BRB. Conforme a contestação, a diretoria do banco podia aprovar operações de até R$ 750 milhões sem submetê-las ao conselho de administração.

No fim daquele dia, Costa foi informado de que parte dos documentos ainda não havia sido entregue. Mesmo assim, autorizou o pagamento. “Confio em você”, escreveu o então presidente do BRB a Vorcaro. Após a liquidação da compra, o banqueiro respondeu: “Essa de hoje você salvou a vida literalmente”.

As conversas também revelam divergências sobre a natureza das carteiras. Em 22 de maio, depois de receber uma lista de pendências, Vorcaro afirmou que havia tentado explicar desde o início que os ativos eram “de certa forma alugadas” e que seriam recomprados após a aprovação da aquisição do Master pelo BRB.

“O macro do negócio pra mim sempre foi alugar carteira, segurar recurso em conta e depois zerar na data aprovação”, escreveu o banqueiro. O Banco Central, porém, rejeitou em setembro de 2025 a compra do Master pelo banco público.

Costa respondeu que o problema não era apenas o uso temporário das carteiras, mas a falta de clareza sobre os riscos e o efeito financeiro dos prêmios pagos pelos créditos. O prêmio corresponde à diferença entre o valor contábil dos ativos e o preço desembolsado na aquisição.

De acordo com um ofício do BRB ao BC citado pela defesa, o banco pagou R$ 5,49 bilhões em prêmios sobre R$ 7,28 bilhões em carteiras que posteriormente precisaram ser substituídas. A contestação usa esses números para argumentar que a operação não provocou o prejuízo alegado pelo banco público.

A origem dos créditos está no centro da investigação da Operação Compliance Zero. A PF apura suspeitas de irregularidades nas carteiras atribuídas à Tirreno, empresa que, segundo os investigadores, teria sido utilizada como fachada para dar aparência de legitimidade aos ativos comercializados pelo Master.

Além de contestar a cobrança, os advogados afirmam que o próprio BRB teria vendido mais de R$ 1,5 bilhão em créditos problemáticos a empresas ligadas a Vorcaro e a seus sócios entre 2024 e 2025, principalmente por meio da Navarra S.A. Segundo a defesa, os prejuízos relacionados a esses ativos foram absorvidos pelo banqueiro, o que faria do Master também um credor do banco público.

A contestação não informa o valor que Vorcaro e o Master pretendem cobrar em ações próprias. Os advogados pedem ainda que eventuais recursos recuperados pelo BRB em uma ação contra ex-administradores sejam descontados de uma possível condenação relacionada às carteiras de crédito.

Em agosto, os acionistas do BRB aprovaram uma ação contra antigos gestores da instituição pelos mesmos fatos. Procurado sobre os argumentos apresentados pela defesa de Vorcaro, o banco não se manifestou até a publicação da reportagem original do UOL.

Vorcaro já havia negado irregularidades em depoimento à Polícia Federal na semana anterior. Na ocasião, classificou como “narrativa fantasiosa” a suspeita de fraude nas operações entre o Master e o BRB.



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