Pesquisa Datafolha mostra que 41% dos que pediram empréstimo a familiares e amigos estão em falta com pagamento. Inadimplência declarada com cartão de crédito parcelado, empréstimo bancário e carnê de loja supera 25%.
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Dois em cada três brasileiros dizem ter dívidas financeiras, como empréstimos, segundo pesquisa. Os dados também mostram que um a cada cinco brasileiros (21%) diz estar com dívidas financeiras atrasadas.
Entre quem pegou dinheiro emprestado de amigos e familiares, 41% estão devendo. A inadimplência no cartão de crédito parcelado foi citada por 29% de quem tem essa dívida. Empréstimos em banco somam 26%. Carnês de lojas, 25%.
Dos entrevistados, 27% disseram que utilizam o crédito rotativo com diferentes graus de frequência. O rotativo é acionado automaticamente quando se paga apenas o valor mínimo da fatura do cartão, parcelando o restante com juros. Os que afirmam fazer isso com alta frequência somam 5%. Os que usam o rotativo às vezes ou raramente são 22%.
O rotativo é a linha mais cara do mercado, com juros mensais de 14,9% em média, segundo dados do Banco Central. A cobrança de juro anual é limitada a 100%. Desde 2024, está em vigor a norma que limita a dívida no cartão de crédito ao dobro do montante original.
“A inclusão financeira dos últimos anos e o aumento dos juros bancários acabaram elevando muito o comprometimento de renda e a própria inadimplência”, afirma Isabela Tavares, economista da Tendências Consultoria.
O levantamento investigou ainda a inadimplência em contas de consumo e serviços. Entre os ouvidos, 28% afirmam que estão em atraso com elas. Os tipos de contas em atraso mais citados são telefone/celular/internet (12% dos inadimplentes), IPTU, IPVA e carnê-leão (12%), luz (11%) e água (9%).
O tema do endividamento entrou na campanha eleitoral deste ano. O governo Lula tem feito anúncios de medidas sobre o assunto, incluindo programa de renegociação de dívidas e saques extraordinários do FGTS.
O Datafolha entrevistou 2.002 pessoas de 16 anos ou mais em 117 municípios do Brasil nos dias 8 e 9 de abril. A margem de erro é de dois pontos percentuais para cima e para baixo, dentro do nível de confiança de 95%.
A pesquisa também mostra que os brasileiros se sentem apertados financeiramente. O Datafolha calculou índice de aperto financeiro ao pedir para os entrevistados apontarem oito tipos de restrição no orçamento nos últimos meses.
Dependendo da quantidade de tipos de contenção de gastos, os ouvidos foram classificados em diferentes índices: severa (sete ou oito itens com restrições), apertada (cinco ou seis), moderada (dois, três ou quatro itens) e isentos ou leves (nenhum ou um item).
A conclusão foi que 27% vivem em situação financeira apertada e 18% em condições severas, somando 45%. Os que se enquadram na categoria moderada representam 36%. Aqueles classificados como isentos ou leves somam 19%.
Para enfrentar essa situação, 64% dos entrevistados disseram que cortaram gastos com lazer. 60% reduziram a quantidade de vezes que comem fora de casa. 60% trocaram marcas por outras mais baratas. 52% reduziram a quantidade de alimentos comprados.
Além disso, 50% afirmam que reduziram o consumo de água, luz e gás. 40% deixaram de pagar alguma conta. 38% deixaram de pagar dívidas. 38% reduziram a compra de remédios.
Quando questionados de forma espontânea sobre o principal problema pessoal hoje, os brasileiros apontam aspectos financeiros. Isso inclui falta de dinheiro/renda, endividamento, custo de vida, salário baixo e previdência, somando 37% dos ouvidos.
Dentro desse conjunto, a resposta mais frequente foi “questões financeiras/falta de dinheiro/renda”, indicada por 27% dos entrevistados. “Endividamento (empréstimos, contas, aluguel)” teve 5%. “Custo de vida/inflação/impostos” teve 2%.
Os demais temas mais citados foram saúde (18%), questões relacionadas ao trabalho (8%) e relacionamentos familiares e pessoais (5%). Falta de tempo e frustração pessoal somam 3%. Problemas sociais do país, 2%. A parcela dos que dizem não ter problemas é de 14%.
De acordo com o Datafolha, 57% dos brasileiros afirmam usar cartão de crédito. Nesse universo, 13% dizem parcelar compras do supermercado no crédito sempre ou frequentemente. 4% o fazem com contas de água e luz.
O hábito de pagar a fatura de um cartão com o limite de outro sempre ou frequentemente foi apontado por 5% dos usuários de cartão. 10% o fazem às vezes.
Tavares, da Tendências, aponta que houve aumento no uso do crédito nos últimos anos. “Mas os juros começaram a subir no mesmo momento. Isso, somado aos preços em alta dos alimentos, fez as pessoas recorrerem mais a modalidades de crédito emergenciais.”
A pesquisa questionou os entrevistados também sobre comportamentos financeiros. 68% concordam que as ofertas de crédito pelo celular ou pela internet facilitam muito o endividamento por impulso. 51% expressaram concordância total com a afirmação de que é difícil viver sem usar o cartão de crédito para fechar as contas do mês.
Segundo Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV e professor da FGV EAESP, a maior oferta de crédito com a abertura do mercado é um dos fatores que explicam o alto endividamento. Os demais incluem o cenário macroeconômico, com taxa básica de juros a 14,75% ao ano e inflação de 4,14% nos últimos 12 meses, e a falta de educação financeira.
Quando o assunto é planejamento financeiro, 44% dos brasileiros afirmam fazer orçamento detalhado e saber tudo que gastam com cada despesa. 32% têm algum tipo de controle mas não sabem todos os gastos. 23% declaram não fazer nenhum tipo de controle de gastos.
A maioria dos entrevistados (66%) disse não ter reserva financeira. Entre os que têm, 12% afirmam que as economias suportam menos de três meses de contas. Outros 10% conseguem se manter por três a seis meses em caso de desemprego ou invalidez apenas com os investimentos.
A pesquisa também perguntou como os brasileiros se sentem em relação à situação financeira do Brasil. Metade (49%) dos ouvidos afirmaram que se sentem mal ou muito mal.