Merval Pereira diz que há dois Supremos: um que defendeu a democracia contra um governo autoritário e outro que, agora, ameaça a democracia. Sei que o colunista do Globo, imortal da ABL, é um fã incondicional da Lava Jato — um dos poucos dentro da emissora — e que odeia Jair Bolsonaro por motivos clássicos, como a nomeação de Augusto Aras, a briga com Sergio Moro e a forma atabalhoada com que sua gestão lidou com o Supremo.
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Duvido, porém, que Merval, um homem muito bem informado, concorde realmente com o que ele próprio escreveu. No fundo, o jornalista, que conversa com generais, sabe que Bolsonaro nunca representou uma ameaça real à democracia. O jornalista, claro, foi obrigado a ceder ao interesse dos donos da emissora que resolveram endossar a narrativa fantasiosa do golpismo, ao custo de vidas de milhares de pessoas comuns sem qualquer histórico de crime.
Todos sabemos, pelo menos desde 2019, que só existe um Supremo: aquele que tem como decano Gilmar Mendes, o mesmo que mandou Dias Toffoli abrir o inquérito das fake news e entregá-lo a Alexandre de Moraes, e que agora pretende usá-lo para constranger Romeu Zema. Um inquérito medieval usado para censurar quem publica o que desagrada, calar quem fala o que não convém, prender quem ousa denunciar ilícitos de nossos ministros.
Já dava para saber, Merval, desde que Marcelo Odebrecht explicou quem era o “amigo do amigo do meu pai”. Mas foi preciso chegarmos a Daniel Vorcaro, quase sete anos depois e depois de dezenas de bilhões desviados, para que você e sua emissora compreendessem que a democracia nunca foi ameaçada por quem xingava ministros na Avenida Paulista, mas por aqueles que fechavam contratos sigilosos com o Master, viajavam em seus jatinhos e curtiam festinhas privadas regadas a whisky e suicinhas.
Agora, você e sua emissora estão alertas e também assustados, eu sei. Afinal, em poucos dias, o mesmo decano deste Supremo medieval mandou incluir o ex-governador de Minas Gerais no inquérito das fake news por uma sátira de internet; mandou o PGR, Paulo Gonet, abrir um inquérito para cassar o senador sergipano Alessandro Vieira por abuso de poder, e ainda fez ameaças veladas à própria rede Globo, que, vejam só, teve sua concessão renovada justamente por aquele a quem acusam de ser golpista.
Vale dizer que Zema é um sujeito bastante pacato, longe do perfil histriônico de Bolsonaro. Assim também é Vieira, um isentão de primeira, que chegou a comemorar a eleição de Lula! E a Globo, bom, a Globo era até pouco tempo a principal aliada de Gilmar, Moraes e Toffoli na narrativa fantasiosa de um golpe financiado com 500 reais de pequenos comerciantes e executado por velhinhas com bíblias na mão. Gente que assiste a novela e telejornal, trancafiadas como homicidas, traficantes e estupradores.
Eu sei que é difícil escrever “Erramos”. Mas admitir o erro, neste caso, é virar a mesa. É esvaziar esse discursinho mentiroso de defesa da democracia. Essa gente não é democrata porcaria nenhuma, nunca foi! São tiranos covardes que usam o Supremo em defesa própria, que censuram quem publica o que desagrada, calam quem fala o que não convém, prendem que ousa denunciar ilícitos. Gilmar disse que gosta de ser desafiado, que se diverte com isso. E ele continua rindo da nossa cara, intocável.