O que levou PF e CPMI a quebrarem os sigilos de Lulinha

O Careca do INSS foi detido em setembro, apontado como principal operador do esquema do INSS

A CPMI do INSS aprovou ontem (26), em votação simbólica e em bloco, um pacote de requerimentos que atinge diretamente o entorno do Palácio do Planalto. Entre as medidas autorizadas, destaca-se o pedido do relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), para a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República.

A votação foi marcada por confusão. Parlamentares da base tentaram retirar o requerimento da pauta, mas não conseguiram. Após o anúncio do resultado, houve bate-boca e empurra-empurra no plenário da comissão.

A decisão da CPMI ocorre após o ministro André Mendonça autorizar, em janeiro, a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha a pedido da Polícia Federal. O inquérito tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal.

Lulinha (“o filho do rapaz”) e o Careca do INSS

Entre os elementos citados estão diálogos interceptados entre investigados. Em uma conversa, o operador Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, teria indicado que um repasse de R$ 300 mil seria destinado a “o filho do rapaz”.

O nome de Fábio Luís não aparece de forma explícita na mensagem. A PF, no entanto, registrou a suspeita de que a referência pudesse ser a ele.

Os autos também mencionam cinco pagamentos de R$ 300 mil, totalizando R$ 1,5 milhão, feitos pela empresa Brasília Consultoria Empresarial S/A à RL Consultoria e Intermediações Ltda., ligada à empresária Roberta Luchsinger, apontada como amiga de Lulinha.

Segundo o requerimento, os serviços declarados como consultoria foram considerados incompatíveis com a atividade da contratante, o que levou os investigadores a aprofundar a análise sobre a natureza das operações.

Careca do INSS na CPMI. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil.

Em decisão anterior, o ministro André Mendonça registrou que a PF localizou conversa entre Roberta e o Careca do INSS após cumprimento de busca e apreensão.

Na troca de mensagens, Roberta afirma: “acharam um envelope com o nome do nosso amigo no dia da busca e apreensão”. O Careca respondeu: “Putz”.

Em seguida, ela escreveu: “Antônio, some com esses telefones. Joga fora”.

Além das mensagens, um ex-funcionário do operador prestou depoimento à PF e afirmou que ele mencionava pagamentos destinados a Lulinha.

Segundo o relato da testemunha, os valores não estariam ligados diretamente às fraudes no INSS, mas a suposta atuação de lobby para que empresa ligada ao grupo, voltada ao comércio de canabidiol, obtivesse espaço no Ministério da Saúde. Não há registro de contrato firmado.

Roberta Luchsinger e Lulinha na foto. Foto: Reprodução
Roberta Luchsinger e Lulinha na foto. Foto: Reprodução

Roberta foi alvo de busca e apreensão na Operação Sem Desconto.

Viagens e proximidade de Lulinha

Documentos anexados à investigação indicam que Lulinha e o Careca do INSS estiveram em Lisboa, em novembro de 2024. Registros apontam emissão de passagens sob o mesmo código de reserva, com assentos de primeira classe.

Esses elementos foram incluídos nos requerimentos aprovados pela CPMI como parte da fundamentação para a quebra de sigilos.

Suspeita de “sócio oculto” em negócios de cannabis

O requerimento aprovado pela CPMI menciona a hipótese de que Fábio Luís Lula da Silva teria atuado como “sócio oculto” em empreendimentos ligados ao mercado de cannabis medicinal.

Segundo o relator, deputado Alfredo Gaspar, há indícios de que esses negócios possam ter sido financiados com recursos de origem investigada no esquema de descontos indevidos do INSS. O pedido de quebra de sigilo busca verificar eventual conexão financeira entre os valores sob apuração e essas empresas.

A Polícia Federal informou ao Supremo Tribunal Federal que o nome de Fábio Luís surgiu em mensagens, documentos apreendidos e depoimentos colhidos no âmbito da Operação Sem Desconto.

A autorização para acesso aos dados bancários, fiscais e telemáticos foi concedida pelo ministro André Mendonça em janeiro, antes da deliberação da CPMI.

A delação de servidores do INSS

Dois ex-servidores do alto escalão do INSS estão em processo avançado de delação premiada. O ex-procurador do INSS Virgílio Oliveira Filho e o ex-diretor de Benefícios da autarquia André Fidelis entregaram o Lulinha e detalharam o envolvimento de políticos no esquema, segundo apuração do Metrópoles.

Os dois delatores estão presos desde 13 de novembro. A colaboração ainda não foi homologada pelo STF.

A fuga de Lulinha

Após a CPMI do INSS aprovar a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha, 47 deputados protocolaram representação criminal no Ministério Público Federal pedindo a prisão preventiva do empresário.

No documento, os parlamentares afirmam haver indícios de autoria e materialidade de crimes como corrupção passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Sustentam que a medida cautelar seria necessária para garantir a ordem pública e evitar eventual interferência na investigação.

“A lei precisa valer para todos, sem blindagem política”, declarou a deputada Rosângela Moro. “Não pode existir blindagem institucional para ninguém. Quando há indícios relevantes de ilícitos e risco concreto à ordem pública, a lei deve ser aplicada com o mesmo rigor, independentemente do sobrenome”, acrescentou.

Em janeiro deste ano, Lulinha deixou o Brasil e retornou à Europa em meio ao avanço das investigações.

Lulinha passou semanas no país durante o fim de ano e embarcou novamente para Madri, onde se estabeleceu em meados de 2025. Segundo informações divulgadas à época, ele foi contratado por uma empresa para trabalhar presencialmente na capital espanhola e só retornaria ao Brasil após 2026.

Mesmo personagem, nova cena do crime

Lulinha protagonizou investigações durante os primeiros mandatos do pai. Em 2004, recebeu aporte de R$ 5 milhões da Oi na empresa Gamecorp. O caso foi alvo de apuração na Operação Lava Jato.

Em 2019, o Ministério Público Federal denunciou Lulinha e outras pessoas por suposto recebimento de vantagens indevidas entre 2004 e 2016. Os processos foram posteriormente arquivados.

Empresas ligadas ao empresário também foram alvo de cobrança tributária. A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional se manifestou pela continuidade de processo de cobrança de débitos que superam R$ 10 milhões.

Durante o atual mandato presidencial, Lulinha esteve em ministérios em Brasília e utilizou voos da Força Aérea Brasileira ao retornar a São Paulo. A legislação permite que autoridades destinem assentos vagos a terceiros.

Com a quebra de sigilos autorizada pelo ministro André Mendonça e pela CPMI, a investigação passa a analisar movimentações financeiras, conexões empresariais e eventual fluxo de recursos relacionados aos fatos apurados.

O que a defesa diz

A defesa de Fábio Luís acionou o STF para obter acesso aos autos e confirmar se ele é formalmente investigado. Os advogados classificaram as menções como “fofocas e vilanias”.

Assessor jurídico afirmou à imprensa que a quebra de sigilo é “medida esdrúxula”.

Parlamentares da oposição comemoraram a decisão da CPMI. O senador Sérgio Moro declarou: “A blindagem do Governo Lula sobre seu filho falhou. A CPMI do INSS quebra o sigilo fiscal e bancário do Lulinha e de sua amiga Roberta Luchsinger por suspeita de recebimento de propina do Careca do INSS”.

O roubo do INSS

O caso integra a investigação da Operação Sem Desconto, que apura fraudes em descontos aplicados a aposentados e pensionistas do INSS. A PF cumpriu mandados em vários estados e apreendeu documentos e bens.

Com a quebra de sigilos autorizada pelo STF e pela CPMI, a Polícia Federal fará análise detalhada das movimentações bancárias, origem e destino de transferências e eventual linha do tempo de pagamentos.

Muitos trechos essenciais tramitam sob sigilo, os relatos disponíveis nas matérias vêm de fontes policiais ou de trechos de relatórios não públicos.



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