O ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga publicou uma correspondência científica na revista The Lancet Regional Health – Americas contestando as conclusões interpretativas de um estudo sobre a evolução da expectativa de vida no Brasil durante a pandemia de Covid-19. O texto, assinado também pelos médicos Raphael Câmara e Francisco Cardoso, sustenta que o artigo original atribui ao governo federal uma relação causal que, segundo os autores da resposta, não é respaldada pelo método científico utilizado.
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A manifestação responde ao estudo “Burden of disease and life expectancy decomposition in Brazil and its federated units, 1990–2023”, que analisou dados do Global Burden of Disease (GBD) e relacionou a redução da expectativa de vida durante a pandemia ao chamado “negacionismo científico” e à ausência de coordenação nacional.
“A questão não é política, mas científica”
Na correspondência publicada pela revista, Queiroga afirma que a discussão deve permanecer no campo metodológico e não no debate político.
“A questão não é política, mas científica. Estudos ecológicos são extremamente úteis para descrever padrões populacionais e gerar hipóteses. Contudo, não permitem estabelecer relações de causalidade entre decisões governamentais e desfechos em saúde sem modelagem causal apropriada, definição objetiva da exposição e controle adequado dos fatores de confusão.”
Segundo os autores, o estudo apresenta uma importante análise descritiva sobre a carga de doenças no Brasil, mas ultrapassa os limites inferenciais ao atribuir diretamente os resultados da pandemia à atuação do governo Bolsonaro.
Críticas ao método utilizado
Na avaliação dos médicos, o artigo não apresenta definição operacional para o termo “negacionismo científico” nem utiliza ferramentas metodológicas consideradas necessárias para estabelecer uma relação de causa e efeito, como modelos causais, análises contrafactuais ou estimativas de efeito atribuível.
A correspondência também afirma que fatores relevantes para explicar as diferenças de mortalidade entre estados brasileiros não foram considerados de forma suficiente na interpretação dos resultados.
Entre eles, os autores citam diferenças demográficas, prevalência de doenças crônicas, estrutura hospitalar, circulação de variantes do SARS-CoV-2, capacidade diagnóstica e as distintas estratégias adotadas por governos estaduais e municipais durante a pandemia.
Resposta descentralizada à pandemia
Outro ponto destacado é que o próprio estudo reconhece que o enfrentamento da Covid-19 ocorreu de forma descentralizada no Brasil, com políticas públicas diferentes entre estados e municípios.
Na avaliação dos autores da resposta, essa heterogeneidade dificulta atribuir os resultados nacionais exclusivamente à atuação do governo federal.
Críticas à repercussão na imprensa
Os autores também questionam a repercussão do estudo em veículos de comunicação. Segundo a correspondência, reportagens publicadas após a divulgação do artigo apresentaram como conclusão científica uma interpretação que, na avaliação deles, permanece como hipótese.
“Quando interpretações políticas extrapolam aquilo que os dados permitem afirmar, compromete-se não apenas a qualidade do debate público, mas também a credibilidade da própria ciência.”
Princípio da epidemiologia
Ao final da correspondência, os autores reafirmam que um dos princípios fundamentais da epidemiologia é que associação estatística não implica causalidade.
Segundo o texto, estudos científicos devem respeitar os limites metodológicos de seus desenhos, especialmente quando seus resultados passam a ser utilizados para embasar interpretações sobre políticas públicas e decisões governamentais durante a pandemia.