Juiz federal solta réus apontados como peças centrais de esquema bilionário do PCC

A Justiça Federal do Paraná determinou no fim de maio a soltura de dois réus da Operação Tank apontados pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF) como peças centrais de uma estrutura bilionária de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis ligada ao PCC. A informação é da Revista Piauí.

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A 1ª beneficiada foi Miriam Favero Lopes, descrita como principal operadora financeira do esquema. Ela é mulher de Daniel Dias Lopes, condenado por associação para o tráfico de drogas e apontado como elo entre o dinheiro do PCC e o mercado de combustíveis no Paraná.

A prisão preventiva dela havia sido decretada em agosto de 2025. Miriam permaneceu foragida por quase 9 meses e só se apresentou à PF em 18 de maio de 2026. No dia seguinte, obteve liberdade mediante fiança.

Miriam também é apontada como principal operadora financeira, controlando a ML8 Serviços de Apoio Administrativo, usada para transferências milionárias sem lastro documental para o PC.

Segundo a investigação, os pagamentos eram organizados por um núcleo com funções divididas entre operadores financeiros, planilhas e controle de empresas de fachada. Grupos de WhatsApp tinham nomes como “DIVISÃO DE LUCROS”, “RETIRADAS BETO” e “RETIRADAS JUMBO”.

Poucos dias depois, a Justiça autorizou também a soltura, sob fiança, de Rafael Bronzatti Belon, dono e presidente da Tycoon Technology, responsável pela Zeit Bank, apontada pela investigação como banco paralelo usado para circular recursos de postos, distribuidoras e empresas ligadas ao grupo. O pai dele, Ítalo Belon, também é réu.

Belon pagou R$ 1,621 milhão. Miriam, R$ 810,5 mil. Ambos deixaram a prisão com tornozeleira eletrônica e proibição de contato com testemunhas e investigados.

As decisões foram assinadas pelo juiz federal Marcus Holz, da 14ª Vara Federal de Curitiba. Ele entendeu que as prisões preventivas já não eram necessárias porque provas haviam sido colhidas, buscas cumpridas e bens bloqueados.

O MPF diverge da decisão. Para o órgão, as solturas colocam em risco a ordem pública e econômica. Os réus são acusados de operar uma rede que movimenta recursos por empresas, laranjas, contas-bolsão e intermediários.

As fianças somam R$ 2,43 milhões, valor considerado residual diante da dimensão do caso. A Receita Federal estima que a organização investigada na Operação Tank movimentou mais de R$ 20 bilhões. Só a Tycoon teria movimentado R$ 3,49 bilhões em 24 contas em nove instituições.

Segundo fonte ouvida pela Piauí, a decisão “pode ter uma dimensão internacional, pois ocorre em meio a tratativas com os Estados Unidos para tentar bloquear bens ligados aos Belon” e, “em tese, a classificação do PCC como organização terrorista poderia facilitar a atuação de autoridades americanas, como a DEA, nessa frente”.

A acusação central não se limita ao setor de combustíveis. Segundo o trecho citado pela Piauí, trata-se de megaestrutura empresarial voltada à lavagem de dinheiro: “Uma estrutura empresarial que, segundo os investigadores, servia para lavar dinheiro atribuído ao PCC e reinseri-lo no sistema financeiro formal. A própria decisão judicial original que mandou prender o grupo foi taxativa: descreveu essa engrenagem como um “complexo esquema de lavagem de dinheiro movimentando ‘centenas de milhões, se não bilhões de reais’, cravando o vínculo direto com empresas e com o modus operandi da facção paulista””.

Daniel Dias Lopes, marido de Miriam, foi preso em 2014 na Operação Ferrari transportando cerca de uma tonelada de teofilina anidra, usada na adulteração de cocaína, e condenado por associação para o tráfico. Ele declarou não ter patrimônio. No entanto, após progressão de regime e cumprimento de pena, passou a ostentar imóveis, veículos e três Porsches, segundo a PF.

Nos autos da Tank, aparece como elo entre o mercado ilegal e o setor de combustíveis. Segundo a denúncia:
“Primeiro atuou na Quimifix, empresa de produtos automotivos usada na adulteração de combustíveis e na movimentação de recursos sem origem lícita comprovada”

“Depois, passou à Duvale Distribuidora de Petróleo e Álcool, que estava inativa havia anos, e começou a apresentar movimentação milionária, depósitos fracionados em espécie e comunicações ao Coaf por suspeita de lavagem de dinheiro”. A PF aponta Daniel como controlador de fato da Duvale.

Outro documento citado nas investigações é um dossiê de 36 páginas localizado em quebras de sigilo e nuvens digitais. Segundo a Piauí: “O vínculo com o PCC aparece em diferentes níveis”, de acordo com a Piauí: “A investigação encontrou, nas quebras de sigilo telemático (que abrange dados e comunicações em dispositivos eletrônicos, como celulares), um documento de 36 páginas chamado “Dossiê Combustíveis rota do crime””.

“Não se trata da denúncia formal do MPF, mas de um dossiê anônimo incorporado aos autos e posteriormente confrontado com dados bancários, depoimentos e diligências”.

O material teria sido localizado na nuvem de Rafael Renard Gineste e circulado em mensagens entre investigados. Em outro trecho, o dossiê “descrevia justamente a lógica econômica de um esquema de lavagem de dinheiro do PCC no setor de combustíveis de Curitiba”:

“Segundo ele, a facção aportava dinheiro do tráfico internacional em postos e distribuidoras e as operadoras devolviam 95% dos valores já branqueados. A margem de 5% ficava com o grupo que lavava o dinheiro, para ser então reinvestida em combustíveis adulterados e em fraudes nas bombas””.



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