A politização da vacinação infantil e o desperdício anunciado de recursos públicos

A politização da vacinação infantil e o desperdício anunciado de recursos públicos

Por Marcelo Queiroga, médico cardiologista e ex-ministro da Saúde*

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A pandemia de COVID-19 exigiu respostas rápidas, decisões sob incerteza e, sobretudo, responsabilidade técnica. No entanto, o debate sobre a vacinação infantil no Brasil — especialmente no uso da vacina CoronaVac para crianças de 3 a 5 anos — acabou sendo capturado por uma lógica que pouco dialoga com a boa prática da Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS). O resultado mais recente dessa condução é emblemático: desperdício de recursos públicos, baixa adesão e uma política que ignorou alertas técnicos prévios.

O ponto de partida dessa discussão é a própria base científica disponível à época. O relatório de ATS elaborado por núcleo técnico do Ministério da Saúde, em 2022, já indicava um cenário de incerteza relevante. Embora a CoronaVac apresentasse perfil de segurança aceitável e resposta imunogênica, a qualidade da evidência foi classificada como baixa, com limitações importantes: estudos em andamento, uso de pré-prints, pequeno tamanho amostral e ausência de poder estatístico para detectar desfechos raros, como óbitos. Em outras palavras, tratava-se de uma decisão sob incerteza — o que exige ainda mais rigor na análise de custo-efetividade e impacto orçamentário.

E é justamente nesse ponto que o sinal de alerta foi mais claro. A avaliação econômica do próprio estudo foi desfavorável. A incorporação da vacina para crianças de 3 a 5 anos mostrou-se não custo-efetiva na grande maioria das simulações, sendo viável apenas em cenários de preço extremamente reduzido. Esse dado, isoladamente, já recomendaria cautela na expansão da política pública. Ainda assim, a recomendação foi levada adiante.

O contexto epidemiológico também não favorecia decisões expansionistas. Em 2022, a morbimortalidade por COVID-19 em crianças era significativamente menor do que em adultos, e a tendência já era de queda após a ampla cobertura vacinal da população geral. Além disso, a partir de setembro de 2022, a vacina Comirnaty (Pfizer) passou a abranger crianças de 6 meses a 5 anos, reduzindo ainda mais o espaço potencial para a CoronaVac. Ou seja, tratava-se de uma tecnologia com nicho restrito, evidência limitada e concorrência de alternativas com maior robustez regulatória.

Outro aspecto frequentemente omitido no debate público é o status regulatório da própria CoronaVac. Diferentemente de outros imunizantes, a vacina não obteve registro definitivo na Anvisa para essa indicação específica, permanecendo sob autorização emergencial. Posteriormente, o próprio Instituto Butantan desistiu de pleitear esse registro definitivo, o que reforça a percepção de limitação estratégica e científica do produto no cenário pós-pandêmico.

No plano internacional, a CoronaVac teve uso relevante em países como China, Chile, Turquia, Indonésia e Filipinas, especialmente no início da campanha global. O Chile, em particular, foi frequentemente citado como referência regional, inclusive com estudos observacionais em crianças. No entanto, mesmo nesses contextos, a utilização foi fortemente condicionada ao momento epidemiológico e à disponibilidade de alternativas — não como política permanente ou expansionista.

Diante desse conjunto de evidências, o que se esperaria de uma gestão pública responsável seria prudência, planejamento e alinhamento entre oferta e demanda. No entanto, os fatos mais recentes mostram o oposto. Reportagem da Folha de S.Paulo revela que, sob o governo Lula, a demora na contratação de vacinas CoronaVac em 2023 resultou no desperdício de pelo menos R$ 260 milhões, com cerca de 80% das doses vencendo sem uso. Foram aproximadamente 8 milhões de doses que sequer saíram dos armazéns.

A auditoria do Tribunal de Contas da União foi clara ao apontar que a morosidade na contratação foi o principal fator para a perda dos imunizantes. Mais grave: o próprio Ministério da Saúde já tinha conhecimento da baixa adesão à vacinação infantil naquele momento. Ainda assim, assumiu o risco de adquirir doses com prazo de validade reduzido, sem mecanismos de substituição ou ressarcimento.

Esse episódio sintetiza um problema mais profundo: a substituição da racionalidade técnica por uma narrativa política. A partir de 2023, consolidou-se o discurso de que críticas à vacinação infantil seriam expressão de negacionismo. Essa simplificação empobrece o debate e ignora que políticas públicas em saúde devem ser guiadas por evidência, custo-efetividade e priorização de recursos — não por slogans.

O resultado foi uma política coercitiva na retórica, mas ineficaz na prática. A adesão permaneceu baixa, mesmo com campanhas intensas, enquanto milhões de doses foram descartadas. O desperdício não foi um acidente inevitável; foi a consequência previsível de decisões que ignoraram sinais técnicos claros.

É importante destacar que o próprio TCU classificou o cenário como multicausal, o que inclui fatores como demanda reduzida e incertezas epidemiológicas. No entanto, isso não exime a responsabilidade gerencial. A função do gestor público é justamente antecipar riscos e evitar que eles se materializem em prejuízo ao erário.

Ao final, o caso da CoronaVac para crianças no Brasil não é apenas uma discussão sobre vacinas. É um estudo de caso sobre governança, tomada de decisão e responsabilidade fiscal em saúde pública. O país que construiu um dos maiores programas de imunização do mundo não pode abrir mão de seus pilares: ciência, planejamento e eficiência.

Politizar a saúde é sempre um erro. Mas ignorar evidências técnicas e produzir desperdício bilionário é mais do que um erro — é uma falha de gestão que cobra seu preço em credibilidade, recursos e confiança da população.



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