O último dia em que a conta de fofocas de celebridades Choquei teve um regime normal de postagens no X foi na quarta-feira (15). Desde então, impera na conta, com 9,4 milhões de seguidores, um raro silêncio.
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Naquele dia, o dono da conta, Raphael Sousa Oliveira, foi preso de manhã junto com os funkeiros MC Ryan e Poze do Rodo. Eles são acusados pela Polícia Federal, no contexto da operação Narco Fluxo, de lavarem dinheiro para o narcotráfico.
O engajamento com fofocas era usado como fachada para a movimentação de até R$ 1,6 bilhão em apenas dois anos. A descoberta da lavagem de dinheiro veio na esteira da apreensão de mais de quatro toneladas de cocaína pela Marinha dos EUA num veleiro que viajava de Cabo Verde para as Ilhas Canárias.
Das 21 postagens da conta no dia, 13 foram rotuladas com Notas da Comunidade falando das acusações contra Raphael. Isso não é algo novo. A Choquei é a terceira conta que mais produz notícias falsas em todo o mundo na rede social, segundo um agregador de notas.
No Instagram, a Choquei é ainda maior, com 27,1 milhões de seguidores. A conta pessoal de Raphael tem 1,4 milhão. Essa rede social da Meta, apesar da promessa de Mark Zuckerberg em janeiro de 2025, não tem checagem de fatos da comunidade.
As mentiras da Choquei vão das mais banais, como uma alegação de que a assassina Suzane Von Richtofen participaria do programa A Fazenda, às mais graves, como a fofoca que levou ao suicídio de Jéssica Canedo aos 22 anos — a alegação falsa, de dezembro de 2023, era que ela tinha um caso com o influenciador Whindersson Nunes.
As origens da Choquei
Raphael criou a conta em 2014, quando trabalhava em uma loja da operadora Tim. Os primeiros conteúdos pagos foram propagandas para lojas de Goiânia, ele relatou à Folha Vitória.
Até dezembro de 2021, a Choquei fazia parte da “Banca Digital”, um braço comercial da agência Mynd8, “maior agência de marketing de influência do Brasil”. Em 2022, ano em que Raphel afirmou ter fechado contratos de publicidade com as marcas Spaten, Dove e McDonald’s, a Choquei embarcou na campanha pela eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Na época, seis pessoas faziam parte da equipe.
O método da conta é apostar em velocidade, sensacionalismo, ambiguidade e reciclagem de conteúdo alheio sem dar crédito. É um “copia e cola” sem checagem, ou seja, puro amadorismo, se for tratado como jornalismo. É inegável, contudo, que tenha funcionado. Com a deflagração da Narco Fluxo, o amadorismo negligente resvalou para o crime.
Relação de amor com Lula
No segundo turno das eleições de 2022, a Choquei publicava mais de dez conteúdos políticos por hora. O padrão era sempre o mesmo: pró-Lula, anti-Bolsonaro. A comemoração da vitória de Lula ganhou 1,3 milhão curtidas no Instagram e 286 mil no X, um recorde para a conta.
Raphael Oliveira chegou a ser convidado a subir em um carro de som na Avenida Paulista a convite da futura primeira-dama Janja da Silva, durante a campanha. Só não apareceu porque não estava em São Paulo. Segundo a revista Piauí, Janja também se tornou fonte da Choquei, mandando fotos exclusivas do então candidato.
O deputado André Janones confessou em seu livro “Janonismo Cultural” que produziu fake news para ajudar a campanha de Lula em 2022 e atrapalhar a de Jair Bolsonaro.
Mas não foi Janones quem mais apareceu no WhatsApp. “Durante toda a campanha presidencial, o Choquei apareceu mais que André Janones em menções em grupos de WhatsApp em todos os dias”, disse Luis Fakhouri, diretor da Palver, à Piauí.
Em público, Lula e Choquei interagiram diversas vezes. O político retuíta o conteúdo da conta desde dezembro de 2021 com respostas desconstraídas e emojis carinhosos.
Já no começo do terceiro mandato, em fevereiro de 2023, a Choquei foi convidada para uma reunião de “influenciadores pela democracia” com Lula.
A Choquei chegou a incentivar lulistas a atrapalharem o evento oficial de lançamento da candidatura de Bolsonaro à reeleição. A organização do evento do PL teve que cancelar 40 mil inscrições falsas.
Quando Jéssica Canedo cometeu suicídio, todo esse passado ainda recente foi ignorado e figuras governistas como Janones, Silvio Almeida (então ministro dos Direitos Humanos) e Zeca Dirceu tentaram usar o caso para impulsionar a regulamentação das redes sociais e o PL da Censura.
Relações públicas para bandidos?
A Polícia Federal identificou R$ 270 mil pagos por MC Ryan à Choquei e Raphael por serviços de “publicidade” entre 2024 e 2025, com uma transferência misteriosa adicional de R$ 100 mil. A defesa de Raphael não negou o vínculo.
Essencialmente, segundo os indícios da operação, a Choquei era o braço midiático do grupo de lavagem de dinheiro do tráfico e fazia sua gestão de imagem e promoção digital, divulgando conteúdos favoráveis aos funkeiros e mitigando crises de imagem.
O conteúdo também promovia a ostentação, como mostram várias postagens de 2024.
“MC Ryan mostra como são seus dentes sem lentes e deixa internautas chocados”, publicou a Choquei em 9 de novembro. “VEJA: O lago artificial que MC Ryan SP mandou fazer em sua casa que custou R$ 5 milhões”, publicou em 28 de agosto. “VEJA: MC Ryan SP mostra seu novo carro, uma Cadillac Escalade avaliada em R$ 1.849.000,00”, publicou em 29 de julho. “MC Ryan SP foi o funkeiro mais ouvido do Spotify Brasil em 2024”, divulgou a Choquei em 4 de dezembro.