O tema envolvendo o livro Aparelho Sexual e Cia – Um guia inusitado para crianças descoladas ganhou grande visibilidade em 2018, quando o então candidato à presidência Jair Bolsonaro levou o assunto ao ar durante uma entrevista ao vivo no Jornal Nacional, da TV Globo. Na ocasião, ao ser questionado sobre homofobia e preconceito contra gays, Bolsonaro tentou exibir o livro como exemplo do que chamava de “kit gay” — um suposto material de cunho educacional que teria sido distribuído em escolas e bibliotecas públicas durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff.
Assista o vídeo da Entrevista:

Antes mesmo de figuras como o professor Felipe Feliciano (Felca) popularizarem a discussão sobre erotização infantil em conteúdos escolares, Bolsonaro já denunciava publicamente esse tipo de material. Durante a entrevista, ele alertou os pais: “Você, pai, tire o filho da sala”, ao tentar mostrar uma das páginas do livro. Os apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos o interromperam, explicando que candidatos não poderiam apresentar documentos ou imagens durante a entrevista. Mesmo assim, o breve momento foi suficiente para que a capa do livro fosse identificada.
A obra, escrita por Zep (pseudônimo do suíço Philippe Chappuis) e ilustrada pela francesa Hélène Bruller, foi lançada no Brasil em 2007 pela Companhia das Letras. Publicado em mais de dez idiomas, o livro ultrapassou 1,5 milhão de exemplares vendidos no mundo e é recomendado, segundo o catálogo da editora, para alunos de 11 a 15 anos (do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental).
Logo após a entrevista, Bolsonaro usou as redes sociais para publicar a página que pretendia exibir. A imagem mostra um garoto nu com um buraco entre as pernas para que um dedo possa ser inserido, simulando um pênis. Ao lado, aparece o desenho de uma garota com estrutura semelhante.
Essa não foi a primeira vez que o ex-deputado criticou a obra. Em 2016, Bolsonaro já havia publicado vídeos em suas redes denunciando o conteúdo do livro, afirmando que era uma “coletânea de absurdos” que “estimula precocemente as crianças a se interessarem por sexo” e que se tratava de “uma porta aberta para a pedofilia”. Ele também acusava o governo Dilma de ter comprado milhares de exemplares para distribuição em escolas públicas.
Na ocasião, o Ministério da Educação negou qualquer envolvimento com a obra. O Ministério da Cultura, por sua vez, confirmou a aquisição de 28 exemplares em 2011, dentro do programa Livro Aberto — uma iniciativa de apoio à criação de bibliotecas públicas, sem ligação com instituições de ensino.
Aparelho Sexual e Cia. é dividido em seis capítulos. O primeiro trata de relacionamentos e questões como estar apaixonado ou beijar. O segundo aborda a puberdade e as mudanças corporais. Os capítulos seguintes falam sobre o sexo, com linguagem voltada ao público jovem, respondendo perguntas sobre ereção, orgasmo, anatomia e o ato sexual em si.
Sobre o que é transar, por exemplo, o livro afirma: “Quando você sente atração por uma pessoa, fica a fim de se aproximar cada vez mais dela. Assim, os namorados vão unir seus corpos pelos órgãos genitais. O órgão masculino é que vai penetrar o feminino”.