A dívida pública em alta, o custo dos juros, o endividamento das famílias e a falta de previsibilidade regulatória estão entre os desafios que Lula terá de enfrentar no novo mandato. Os indicadores fiscais mostram pressão sobre as contas públicas, enquanto milhões de brasileiros continuam inadimplentes e o governo ainda precisa definir medidas para equilibrar o Orçamento de 2027.
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Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral chegou a R$ 11,1 trilhões, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Banco Central. O indicador subiu 4,2 pontos percentuais no acumulado do ano.
No mesmo período, os juros nominais do setor público somaram R$ 1,182 trilhão em 12 meses, equivalente a 8,86% do PIB. O déficit nominal, que inclui o resultado primário e os juros, alcançou R$ 1,264 trilhão no mesmo intervalo.
A situação exige decisões sobre despesas públicas, regras fiscais e financiamento do governo. O projeto do Orçamento de 2027 prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões, mas a proposta ainda depende da tramitação no Congresso.
1. Dívida pública avança e limita o espaço fiscal
O crescimento da dívida aumenta o peso dos juros nas contas públicas e reduz a margem para financiar outras despesas. Em agosto, a dívida bruta chegou ao maior patamar desde 2021, segundo dados divulgados pelo Banco Central.
No acumulado de 12 meses até agosto, o setor público registrou déficit primário de R$ 82,1 bilhões, equivalente a 0,62% do PIB. O resultado considera receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida.
O Orçamento de 2027 prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões. Para alcançar o resultado, o governo precisará cumprir as metas fiscais e negociar com o Congresso a composição das receitas e despesas.
Entre os pontos em discussão estão a revisão de gastos obrigatórios, a redução de benefícios tributários e possíveis mudanças nas regras de crescimento das despesas com saúde e educação. Como os pisos dessas áreas estão previstos na Constituição, alterações nos critérios exigem emenda constitucional.
2. Juros consomem mais de R$ 1 trilhão
O custo do financiamento público é outro fator de pressão. Em 12 meses até agosto, os juros nominais chegaram a R$ 1,182 trilhão, segundo o Banco Central. O valor corresponde a 8,86% do PIB.
O gasto com juros afeta o resultado nominal das contas públicas e contribui para a evolução da dívida. Em agosto, o déficit nominal do setor público foi de R$ 115,9 bilhões.
A taxa Selic também influencia o custo do crédito para famílias e empresas. Quando os juros permanecem elevados, empréstimos, financiamentos e renegociações podem ficar mais caros, dificultando o pagamento de dívidas e a expansão dos investimentos.
A redução sustentável desse custo depende de fatores como a trajetória da inflação, as decisões de política monetária e a percepção de risco sobre as contas públicas.
3. Milhões de brasileiros enfrentam dívidas em atraso
O endividamento das famílias continua elevado. Em agosto, a Serasa registrou 83,9 milhões de consumidores inadimplentes, o maior número da série histórica da empresa. O total de dívidas em aberto somava R$ 586,4 bilhões, segundo dados divulgados em levantamento referente a julho.
A pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apontou que 81,7% das famílias tinham dívidas a pagar em setembro. A proporção recuou em relação aos 82% registrados em agosto.
A inadimplência também diminuiu na pesquisa da CNC, de 29,9% para 29,6% das famílias entre agosto e setembro. Apesar da queda mensal, o comprometimento da renda com dívidas permaneceu elevado.
O cenário mantém a pressão sobre o orçamento doméstico e o consumo. Para as empresas, crédito caro e atrasos nos pagamentos também dificultam o financiamento das operações e a recuperação financeira.
4. Mudanças regulatórias ampliam a incerteza para empresas
A previsibilidade das regras é outro ponto de atenção para o ambiente de negócios. Decisões que alteram as condições de operação de setores inteiros podem afetar investimentos, receitas tributárias e contratos.
Um dos casos em discussão é a Medida Provisória 1.394/2026, publicada em setembro, que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa no Brasil. A medida também prevê o encerramento das autorizações existentes.
Até a última atualização consultada no sistema do Congresso, a proposta aguardava a instalação da comissão mista responsável pela análise. O prazo inicial para deliberação termina em 23 de novembro de 2026, e a medida poderá entrar em regime de urgência a partir de 9 de novembro.
A proibição também tem implicações fiscais. O próprio texto da medida prevê redução de receitas tributárias e de taxas de fiscalização durante a transição. A continuidade da regra dependerá da deliberação do Congresso.
Orçamento e reformas ficam na agenda de 2027
Além dos indicadores econômicos, o governo terá de negociar medidas fiscais e administrativas com o Congresso. O projeto do Orçamento de 2027 ainda está em tramitação, e a definição das despesas dependerá das discussões sobre receitas, benefícios tributários e cumprimento das metas fiscais.
A PEC da Segurança Pública também aguarda votação no Senado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), retirou a proposta da pauta em 15 de outubro diante da falta de acordo sobre emendas, entre elas as que tratam da redução da maioridade penal. Até a última informação consultada, não havia nova data para a votação.
A proposta está relacionada à promessa de Lula de criar um Ministério da Segurança Pública, separando a coordenação das políticas da área das demais atribuições do Ministério da Justiça.
As decisões sobre o ajuste fiscal, o Orçamento e as regras regulatórias terão impacto sobre a condução econômica do novo mandato. A evolução da dívida, o custo dos juros e a capacidade de famílias e empresas de pagar suas obrigações continuarão entre os principais indicadores a acompanhar.
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