Por Paulo Figueiredo
Mensagens do celular de Daniel Vorcaro expõem um contrato de R$ 1,2 milhão ligado ao jornalista, adiantamentos de dinheiro e a atuação de Walfrido Warde para colocar sua influência a serviço dos interesses do dono do Master
Outrora conhecido por suas críticas devastadoras ao PT, autor de O país dos petralhas e de sua continuação, Reinaldo Azevedo atravessou o espectro político até se tornar uma das vozes mais hostis ao bolsonarismo e mais enfáticas na defesa de autoridades envolvidas nas controvérsias do caso Master.
A transformação do antigo colunista da Veja, depois do UOL e hoje no Metrópoles costuma ser discutida como uma história de convicções. Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro permitem acrescentar à atuação recente do jornalista uma dimensão menos filosófica: um contrato milionário, cobranças de patrocínio e a expectativa explícita de que seu prestígio fosse empregado em favor do banqueiro.
Para entender essa fase de Reinaldo e o papel de seus interesses financeiros, é necessário conhecer um personagem: Walfrido Warde, seu sócio no programa de entrevistas Reconversa.
Advogado do Banco Master e de Vorcaro, Warde presidia o Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa, o IREE, e circulava entre empresários, ministros e dirigentes do governo Lula.
Em junho de 2023, aparecia como o segundo maior doador privado do diretório nacional do PT naquele momento, com R$ 400 mil, segundo levantamento da Gazeta do Povo baseado em dados da Justiça Eleitoral. Antes da reunião de Vorcaro com Lula, em dezembro de 2024, orientou o banqueiro sobre o que dizer e depois prometeu um retorno sobre a conversa. O parceiro de bancada de Reinaldo era também um operador de acesso ao poder.
Nos diálogos, Warde funcionava como uma espécie de cafetão das opiniões e da influência de Reinaldo junto à opinião pública: cuidava do dinheiro, apresentava a utilidade do jornalista ao banqueiro, encaminhava avaliações reservadas sobre o noticiário e prometia agenciar uma campanha. A reputação era o ativo que oferecia ao cliente. O microfone permitia exibi-lo; o WhatsApp, negociar sua utilidade.
Durante os acertos documentados de 2023 a 2025, Reinaldo era colunista do UOL, um dos maiores portais de notícias do país, e comentarista da BandNews. A plataforma que tornava sua voz valiosa para o público também a tornava interessante para Vorcaro.
Em uma única parte do chat de Warde, correspondente a outubro de 2023–setembro de 2024, o nome Reinaldo aparece 58 vezes, distribuído por 36 mensagens, incluindo títulos e descrições de links. Sua presença na conversa do advogado com o banqueiro era recorrente.
A contabilidade aparece de forma particularmente clara em 21 de janeiro de 2025. Às 16h53, Warde enviou a Vorcaro um print de conversa com Fabiano Zettel, encarregado de tratar de pagamentos do banqueiro. Uma mensagem encaminhada cobrava notas relacionadas ao “banco super”.
“Última nota emitida foi em novembro, a oitava de doze, e não foi paga”, dizia o texto.
O valor vinha em seguida: “Seriam 12 de 100 mil a partir de março/24. Pagaram 7 até agora”.
No mesmo print, a identificação do objeto da cobrança era inequívoca:
“Esse é aquele contrato do Reinaldo Azevedo”.
Doze parcelas de R$ 100 mil somam R$ 1,2 milhão. A mensagem relatava sete parcelas pagas, equivalentes a R$ 700 mil, e uma oitava nota em aberto. Depois de encaminhar a imagem, Warde pediu ao banqueiro: “Me ajuda com isso por favor”.

A ponte comercial vinha sendo construída havia mais de um ano. Em 7 de dezembro de 2023, Warde encaminhou a Vorcaro o contato de Fauze Kanbour e o identificou como diretor comercial da Band. Perguntou: “Passo pro Fabiano?”. Vorcaro respondeu: “Sim”. O advogado organizava o caminho até o operador dos pagamentos.

A solicitação chegou ao outro lado. Na manhã seguinte, 8 de dezembro, Zettel escreveu diretamente a Vorcaro: “Patrocínio Walfrido está pedindo pra eu fazer contato. É pra fazer?”. A negociação deixava registro nos dois chats: Warde oferecia o contato comercial ao banqueiro; o operador procurava autorização para atender ao pedido do advogado.
Oito dias depois, cobrou a providência que faltava. Num áudio de dezesseis segundos, enviado em 15 de dezembro às 16h40min58s, tratou expressamente do negócio de Reinaldo. A transcrição automática do arquivo, com seus erros de reconhecimento, registra:

“outra coisa querido o fabiano zétel não ligou lá pro cara da bande no caso do reinaldo como é que faz voce ainda tá tá de pé aquele negócio lá do reinaldo prque eu falei pra ele ele etá aguardanoos cara estão aguardando da ligação do fabiano que não ligou pra ele”
Às 16h43, Vorcaro confirmou: “Ta de pe”.
Warde: “Como faz?”.
Warde: “Fabiano não me atende”.
Warde: “E não liga pro cara da Band”.
O advogado falava com Reinaldo, tratava com o banco, procurava o operador e tentava fazer a ligação comercial acontecer.

No dia 23 daquele mês, apresentou a Vorcaro sua explicação para ter assumido o custo do Reconversa, antes patrocinado pelo Google. Segundo a transcrição automática de um áudio enviado às 20h44, Warde atribuía a saída do patrocinador ao posicionamento favorável do programa ao PL das Fake News. Afirmava que, depois disso, passara a pagar pela produção.
A explicação política para o fim do patrocínio era de Warde. O que ela documenta, na conversa com Vorcaro, é a maneira como o advogado apresentava sua responsabilidade financeira pelo projeto. O parceiro de entrevistas era também quem dizia bancar sua continuidade. Quando o dinheiro faltava, era ao banqueiro que recorria.

Em 12 de fevereiro de 2025, Warde encaminhou notas e um áudio no qual dizia ter adiantado recursos para o programa porque o pagamento estava atrasado havia quatro meses. A transcrição automática preserva a insistência na importância que o Reconversa tinha para o destinatário: “quão importante esse programa pra você”. Se o banqueiro assistisse, entenderia, explicava o advogado.
A frase estabelece o ponto de vista da cobrança. Warde justificava o gasto pela utilidade do programa para Vorcaro. O público podia acompanhar uma conversa sobre economia, Justiça ou democracia. Na apresentação ao financiador, o argumento comercial era outro: aquilo lhe servia.

Às 13h09 do mesmo dia, depois de mandar um comprovante, Warde enviou outro áudio. A transcrição registra: “eu paguei o patrocínio lá com meu dinheiro”. E, sobre o ressarcimento: “depois eu emito uma nota pra você”.

Na manhã seguinte, encaminhou uma mensagem segundo a qual o Banco Master confirmara o recebimento das notas, ainda pendentes de aprovação. Escreveu então: “Adiantei Belluzzo e Reinaldo”. Belluzzo é Luiz Gonzaga Belluzzo, professor emérito da Unicamp, economista-chefe do IREE e histórico conselheiro econômico informal de Lula, de quem foi consultor pessoal de economia. O conselheiro do presidente e o jornalista apareciam juntos na cobrança ao banqueiro. A mensagem terminava com o já familiar “Me ajuda por favor”.
O próprio Belluzzo confirmou à Veja ter recebido dinheiro de Warde, atribuindo o pagamento à realização de debates no IREE. O instituto, o advogado e o banqueiro voltavam a aparecer no mesmo circuito de remuneração de vozes influentes.

No chat de Zettel, as pendências apareciam pelo outro lado — e o nome Reinaldo surgia antes das cobranças de 2025. Em 6 de maio de 2024, às 7h51, o operador enviou a Vorcaro uma lista de pagamentos. Entre os itens, escreveu: “Sicário, Ramalho, Escotesguy, 247, Reinaldo”. A mensagem também mencionava impostos e despesas de empresas. Terminava com uma pergunta: “Posso ir mandando um pouquinho todo dia?”.

Em fevereiro de 2025, a cobrança reapareceu de forma expressa como patrocínio. No dia 12, Zettel levou ao banqueiro uma lista de pendências que incluía parcelas relacionadas a Walfrido.

No dia 14, às 9h03, voltou a perguntar sobre as “Parcelas patrocínio Warde”. Um minuto depois, Vorcaro deu a autorização: “Patrocinio warde ok”.
Esse circuito tinha funções bem distribuídas. Warde adiantava e cobrava. Zettel pedia autorização. Vorcaro liberava. Reinaldo aparecia tanto no contrato identificado no print quanto no relato dos adiantamentos. A independência do comentarista vinha acompanhada de uma dependência financeira que seu parceiro tratava por WhatsApp com o homem sobre cujos interesses o jornalista também opinava.

O retorno que Warde oferecia ao banqueiro já havia recebido uma descrição muito mais franca do que a linguagem habitual de um projeto de entrevistas. A preparação de uma dessas participações também passava pelo WhatsApp de Vorcaro. Em 14 de maio de 2024, às 21h06, o advogado enviou um áudio de dezoito segundos. A transcrição automática registra o pedido: “passa o telefone do paulo gala por favor”. Warde recorria ao dono do Master para obter o contato do economista-chefe da instituição.
Uma semana depois, em 21 de maio, enviou uma imagem do estúdio do Reconversa e anunciou: “Olha quem veio hoje no Reconversa!”. Na manhã seguinte, apresentou ao banqueiro sua avaliação do resultado:

“Foi uma baita entrevista”.
“O cara é um gigante”.
“Bela propaganda pro banco”.

Nos dias seguintes, encaminhou a divulgação da participação de Paulo Gala, então economista-chefe do Master. Em 28 de maio, mandou o link do episódio 53: Gala explicava a Reinaldo e Warde por que a economia estava no rumo e oferecia uma dica ao espectador.
O conteúdo público confirma a presença do economista e o enquadramento da entrevista. Gala defendia uma visão otimista do país, a necessidade de sofisticar a produção e os rumos da política industrial do governo Lula. O banco recebia a exposição de seu principal economista num programa apresentado por um jornalista de grande alcance e pelo advogado da instituição. Para Vorcaro, Warde resumia o resultado como propaganda.

A conversa daquela manhã prosseguiu com outro relato de atuação junto à imprensa. Segundos depois de escrever “Bela propaganda pro banco”, Warde informou: “Ontem almocei com o pessoal do Valor”. Acrescentou: “Muita maledicência sobre vc”. E apresentou o serviço que dizia ter prestado: “Desfiz tudo”.
Vorcaro quis saber com quem o advogado havia conversado. Warde identificou a jornalista Monica Scaramuzzo e explicou: “Ela é muito minha amiga. Fez perguntas sem saber que eu sou seu advogado”.
Na versão que oferecia ao cliente, a amizade lhe permitira defender o banqueiro numa conversa em que sua condição de advogado não era conhecida pela interlocutora. O relato não demonstra que alguma reportagem tenha sido alterada. Documenta, porém, como Warde apresentava sua circulação na imprensa ao homem que defendia: o programa rendia propaganda; o almoço, uma oportunidade de combater informações desfavoráveis.
A descrição oficial identificava o cargo do entrevistado no Master. Não apresentava o circuito de financiamento do próprio programa que aparece nas mensagens. O espectador sabia para quem o economista trabalhava; o dinheiro que sustentava o projeto dos entrevistadores continuava fora daquela apresentação.

Gala voltaria ao programa em fevereiro de 2025, no episódio 79. Na madrugada do dia 4, Warde encaminhou a Vorcaro a divulgação da nova entrevista, sobre o futuro da economia e o pessimismo dos mercados. O economista-chefe do Master ganhava uma segunda participação no programa; o dono do banco recebia novamente a divulgação pelas mãos de seu advogado.
Havia também uma prestação reservada de análise sobre o impacto do noticiário. O contexto em que ela chegava ao banqueiro ajuda a compreender seu valor.

Na noite de 12 de julho de 2024, Warde e Vorcaro discutiam como reagir à cobertura sobre o Master. Às 21h11, o advogado propôs: “É preciso organizar ofensiva”. Em seguida, indicou o instrumento: “Tem que botar posts no X”. Queria apresentar as notícias como parte de uma articulação de adversários econômicos e políticos. Perguntou ao banqueiro: “Vc não tem uns influencers pra postar isso?”.

Vorcaro demonstrou preocupação com a identificação do patrocinador da reação: “Sim mas hj fica telegrafado qie fui eu”. Preferia esperar: “Tem que esperar baixar poeira”. A preocupação seguinte era ainda mais concreta. Às 21h15, escreveu: “Vc tem nocao que se a globo apontar canhão pra mim o banco quebra em dois tres dias”. O complemento veio oito segundos depois: “Se for pra tv ja era”.
Para o dono do Master, a repercussão de uma notícia podia ter consequências sobre a sobrevivência do banco. Era nesse ambiente de cálculo de exposição, temor da televisão e discussão de uma ofensiva nas redes que Warde fazia chegar uma avaliação atribuída a Reinaldo. Às 22h03 daquela noite, encaminhou a Vorcaro um áudio de catorze segundos. A transcrição automática reproduzida no arquivo diz:

“e devem taputos à vida porque nenhum dos dois assuntos pegou nem o do do master e nem essa história da jota beesce as redes não estão nen aí”
Às 22h03min31s, Warde identificou o autor da mensagem para o banqueiro:
“Ouça o Reinaldo”.
Às 22h04min18s, acrescentou:
“Não manda pra ninguém”.

Na manhã seguinte, deixou a avaliação por escrito: “Avaliação de Reinaldo é que teve nenhuma repercussão”.
O resumo dispensava os ruídos da transcrição. Warde levava ao banqueiro uma avaliação atribuída a Reinaldo sobre a repercussão de notícias envolvendo o Master e a JBS. O comentário informava que os assuntos não haviam mobilizado as redes. Saber se uma notícia negativa alcançara o público ou morrera no caminho era informação útil à administração da reputação de Vorcaro.
O jornalista aparecia, por intermédio do parceiro, na função de analista do dano produzido pela imprensa. De dia, falava à opinião pública; naquela mensagem, sua avaliação sobre o comportamento dessa opinião chegava ao banqueiro. Warde cuidava tanto do encaminhamento quanto da discrição: o recado deveria ser ouvido e guardado.
Em março de 2025, Vorcaro quis ir além da avaliação de danos. Precisava que uma voz respeitada comprasse sua briga.

O BRB anunciara, no dia 28, uma operação para adquirir 58% do capital total do Master, ainda dependente de aprovações regulatórias.

No domingo, 30 de março, o banqueiro explicou a Warde o que faria diferença na disputa: “um jornalista renomado comprar a briga”. E completou: “E falar a favor”.
Queria “terceiros embaixadores do negocio”. Encaminhou uma mensagem sobre a proximidade de Warde com Reinaldo Azevedo. Às 15h18, passou ao nome e à missão:

Vorcaro: “Reinaldo entrar tomando partido”.
Vorcaro: “Seria otimo”.
Warde: “Vou falar com ele”.
Vorcaro: “Precisamos alguem que va alem dos fatos e compre a briga”.
Vorcaro: “E mostre que pra todo mercado e bom”.
Warde: “Deixa comigo”.
Vorcaro: “Que todas fake news so servem aos grandes e ao establishment”.
Vorcaro: “Combina algo com ele”.
Vorcaro: “Pra ele fazer uma campanha agressiva”.
Vorcaro: “Ele é respeitado”.
Vorcaro: “E estara a favor da verdade”.
Warde: “Claro”.
Na verdade, naquela conversa, já tinha interessado, lado e instruções de campanha. Vorcaro queria que o prestígio de Reinaldo desse autoridade a uma defesa definida de antemão. Seu sócio e agente dava ao banqueiro a garantia de que cuidaria de articular a “campanha agressiva” que deveria ir “além dos fatos”: “Deixa comigo”. Depois, diante da insistência: “Claro”.


O banqueiro forneceu até o material. Às 15h20, encaminhou um texto completo de opinião, com o título “Aquisição do Banco Master fortalece o BRB e estimula a concorrência no setor financeiro”. A transação era apresentada como vantajosa, e as críticas, como desinformação. O envio vinha acompanhado da explicação: “Alguns pontos tecnicos pra dar subsidio”.
O lado a tomar, a intensidade da campanha e os argumentos partiam de Vorcaro. Warde oferecia acesso ao jornalista. Semanas antes, cobrava o dinheiro do programa; agora, comprometia-se a conversar sobre uma campanha em favor do negócio do financiador. A relação comercial e a tentativa de mobilização editorial percorriam o mesmo canal.
Essa utilidade também ajuda a entender o envio sistemático de entrevistas com autoridades. O Reconversa oferecia ao público uma conversa com gente importante. Warde apresentava essa produção a um banqueiro interessado em cultivar relações com gente importante. Nos arquivos examinados, há 98 mensagens distintas do advogado com links que mencionam Reinaldo ou o programa: episódios, chamadas, cortes e textos enviados em 2023, 2024 e 2025.

O material enviado não se limitava ao programa que os dois apresentavam juntos. Em 4 de fevereiro de 2024, Warde encaminhou uma publicação de Guilherme Beraldo sobre o desempenho de O É da Coisa. A prévia celebrava: “A Band News TV está comemorando os índices de audiência do programa”.
O banqueiro recebia também notícias sobre o alcance de Reinaldo fora do Reconversa. Isso acrescenta uma peça à vitrine que Warde mantinha diante de Vorcaro: além das entrevistas, chegavam os indicadores de exposição de seu parceiro.




Em março de 2023, encaminhou a entrevista de Gilmar Mendes. Em agosto, a de Fernando Haddad, com discussão sobre juros e cartão parcelado. Em outubro, mandou participações de Rui Costa e Celso Amorim.





Em 2024, vieram Alexandre Padilha, Randolfe Rodrigues, Fabiano Silva dos Santos, presidente dos Correios, Márcio Macêdo e Luciana Santos. O WhatsApp do banqueiro recebia uma amostra regular do alcance político da dupla.
Havia também conteúdo de Reinaldo sobre a atuação profissional do próprio parceiro. Em 15 de agosto de 2024, Warde encaminhou duas vezes a Vorcaro uma publicação do jornalista sobre a ação do PSOL contra as emendas parlamentares impositivas.

O texto identificava os escritórios responsáveis: “A Ação Direta de Inconstitucionalidade foi movida pelo PSOL por intermédio de Warde Advogados e Cittadino & Associados”. Ao apresentar as condições impostas por Flávio Dino para a liberação dos recursos, Reinaldo acrescentava: “ou melhor: pela Constituição”.

Na mesma manhã, Warde celebrou com o banqueiro: “Viu o que conseguimos ontem”.

Depois, explicou: “Eu fiz a ação e consegui a liminar ontem”.

Em 21 de agosto, encaminhou outra coluna de Reinaldo sobre o assunto, intitulada “Freio na esbórnia; acordo pode pôr fim a emenda impositiva no modo original”. Warde atuava no processo, Reinaldo lhe dava destaque público e o advogado levava essa repercussão a Vorcaro. As mensagens não estabelecem um interesse específico do Master naquela ação, mas mostram que a circulação de conteúdo entre o jornalista, seu parceiro e o banqueiro também abrangia as iniciativas do escritório.

O caso de Paulo Gonet permite acompanhar um uso concreto desse material. Em 27 de janeiro de 2024, Warde encaminhou a Vorcaro a chamada da entrevista com o procurador-geral da República. Anunciou: “Ele falou sobre TUDO!”.

O episódio 40 foi publicado em 30 de janeiro, com um título sobre a audácia de ser bom e justo. Gonet tratou do Ministério Público, da politização da Justiça, do crime organizado e da corrupção.
Na seleção de falas publicada pelo IREE, disse: “A corrupção destrói perspectivas de vida, impede que o país progrida, cria desigualdades”.

Na manhã seguinte à publicação, Warde encaminhou um convite relacionado a um almoço com o procurador-geral. Escreveu a Vorcaro: “Não consegui ficar pro almoço”. Depois: “Você me representa”. Às 7h52, acrescentou:
“Antes do almoço assiste o Reconversa que fizemos com Gonet”.
A entrevista era recomendada como preparação para o contato com a autoridade. O programa aproximava o espectador do procurador-geral; Warde recomendava ao banqueiro que o assistisse antes de se encontrar com ele.

Gonet voltaria ao noticiário por sua proximidade com Vorcaro. Fotografias registraram os dois à mesma mesa, com charutos e uísque, em Londres, em 2024. Em mensagens de 2025, encaminhadas pelo advogado Ciro Soares e reveladas a partir de relatório da PF, o procurador reagiu a outro convite: “Oba!!!! Tomara que tenha charuto e macalan”. Eram registros de momentos distintos daquela aproximação.

Em setembro de 2026, Reinaldo publicou uma defesa enfática de Gonet. Chamou-o de “um homem reto, de bem”, qualificou a reação à fotografia e à degustação como uma ofensiva de linchadores e sustentou que o critério relevante deveria ser a prática de atos de ofício ligados a crimes. A coluna celebrava a decisão que deixara o procurador à frente do caso Master e recusara a abertura de investigação criminal contra ele.
O leitor recebeu esse atestado de retidão sem receber, no mesmo texto, a contabilidade do programa que o autor fazia com o advogado de Vorcaro. Não foi informado do contrato identificado pelo nome de Reinaldo, dos adiantamentos relatados por Warde nem das cobranças de patrocínio. O homem cuja entrevista o parceiro recomendara ao banqueiro antes de um almoço ganhava agora a defesa pública do jornalista.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também passou pela vitrine. Na noite de 2 de junho de 2025, Warde enviou a Vorcaro a chamada do episódio 95, que iria ao ar no dia seguinte, sobre a fraude do INSS e a PEC da Segurança. O texto promocional o elogiava por ter retirado a PF do noticiário político-policial “de uma maneira virtuosa”: os agentes seriam notícia porque investigavam, e não porque eram investigados.

No dia 3, Warde encaminhou também um corte. O conteúdo apresentado como demonstração de virtude institucional chegava ao banqueiro pelas mãos do mesmo advogado que, meses antes, cobrara dinheiro para o programa. A utilidade do Reconversa para Vorcaro abrangia a exposição do economista do banco e a circulação de entrevistas com o chefe do Ministério Público e o chefe da polícia.
A coleção tinha espaço, ainda, para uma figura que complica a explicação exclusivamente ideológica para aquela rede de relações: Cláudio Castro, então governador do Rio de Janeiro pelo PL.

Em 16 de novembro de 2023, Warde encaminhou a Vorcaro uma divulgação que chamava a entrevista com Castro de “Conversa espetacular”.

No dia 20, mandou outra chamada. O episódio 34 foi ao ar no dia 21.

Na manhã de 22 de novembro, enviou ao banqueiro a íntegra e, seis minutos depois, uma publicação de Reinaldo que anunciava: “O governador do Rio como você nunca viu”.

O próprio IREE publicou um resumo do encontro. Castro se declarou aliado de Bolsonaro e grato a ele, defendeu uma pauta liberal e falou de sua relação com o governo Lula. Também apresentou sua versão para a política de segurança e para o combate às milícias. A filiação ao PL e a aliança com Bolsonaro cabiam, naquele caso, numa entrevista promovida como espetacular e oferecida por Warde à atenção de Vorcaro.
O cruzamento com os fatos posteriores dá ao envio uma relevância adicional. Segundo a PF, os aportes do Rioprevidência no Master começaram em outubro de 2023, pouco antes da entrevista. Em 2026, Castro tornou-se alvo de busca na investigação sobre essas aplicações. A polícia apontou mudanças na direção do fundo, proximidade pessoal com Vorcaro e atuação política para viabilizar investimentos bilionários no banco.
Reinaldo, crítico ferrenho de Flávio Bolsonaro, não via obstáculo em promover com entusiasmo uma entrevista com outro aliado de Jair Bolsonaro, justamente o governador cuja relação com o Master viria a ser investigada pela PF.
O contraste cobra uma explicação que o simples mapa ideológico não oferece: a hostilidade ao bolsonarismo comportava a celebração de uma conversa com Castro, que Warde fazia questão de entregar a Vorcaro. À luz das cobranças de patrocínio e das promessas de campanha, o dinheiro e a utilidade para o banqueiro se tornam critérios incontornáveis para examinar aquela seleção de entusiasmos.
As posições públicas de Reinaldo sobre o próprio Master acrescentam outra camada ao quadro. Nas controvérsias examinadas, tornou-se um dos defensores mais enfáticos de posições que interessavam ao banco e de autoridades que gravitavam na rede de relações de Warde e Vorcaro. Seu zelo se estendia da contestação à cobertura sobre o Master à defesa de Moraes e Gonet. A voz que o banqueiro queria ver comprando sua briga aparecia em público combatendo argumentos e suspeitas inconvenientes a essa rede.

Em 24 de dezembro de 2025, no UOL, interrompeu as férias para defender Alexandre de Moraes das acusações envolvendo o banco. Apresentou a cobertura como uma volta dos métodos da Lava Jato e como exigência de que o ministro demonstrasse sua inocência diante de acusações anônimas.

Em 26 de dezembro, defendeu a acareação entre Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor do Banco Central Ailton de Aquino. Contestou a resistência ao procedimento e ironizou o tratamento dado à autoridade monetária como se ela estivesse acima de Deus. Sustentou que era necessário confrontar versões e verificar a fraude usada para fundamentar a liquidação.
O texto não informava a contabilidade do Reconversa. O leitor podia percorrer a argumentação sobre a lei, a imprensa e o Banco Central sem encontrar o contrato de doze parcelas ligado ao nome do autor, os recursos que Warde dizia ter adiantado e a autorização de patrocínio dada por Vorcaro. A relação financeira permanecia fora do enquadramento oferecido ao público.
Meses depois, o dinheiro de Vorcaro aplicado em outro projeto despertaria uma indignação que Reinaldo não acompanhou da exposição de seus próprios vínculos financeiros. Em maio de 2026, quando vieram à tona as cobranças de Flávio Bolsonaro pelo financiamento de Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, o jornalista se lançou sobre a intimidade das mensagens, as parcelas vencidas e o caminho dos recursos.
O mesmo banqueiro que seu sócio procurava para cobrar patrocínio passou a figurar no centro de uma suspeita que ele examinava com entusiasmo — desde que a cobrança estivesse no WhatsApp dos outros.

Na edição de O É da Coisa de 13 de maio, discutiu o caminho do dinheiro, seus destinatários e os intermediários. A transcrição pública registra, por volta de 14min47s, a observação de que patrocínio, em si, não constituía crime, seguida da exigência de apurar como os recursos haviam circulado e mediante qual triangulação.

No dia seguinte, assinou no Metrópoles o texto “Um espectro ronda a extrema direita: cadê os R$ 61 milhões, Flávio?”. Explorou a contradição entre as declarações do senador e a negativa da produtora sobre o recebimento dos recursos. Ao expor seu critério para o financiamento de uma obra, estabeleceu uma condição: “desde que tudo seja devidamente declarado”.

Na edição daquele dia de O É da Coisa, interrompeu o áudio de Flávio para comentar a familiaridade com Vorcaro. Por volta dos dez minutos, cobrou: “onde está a grana, porra?”. Mais adiante, examinou o contrato, as parcelas atrasadas e o motivo da retomada do contato com o banqueiro. O programa ainda reproduziu uma montagem musical feita com a cobrança de Flávio. A intimidade e a prestação vencida serviam tanto à análise quanto ao escárnio.
Em 25 de maio, a Band publicou outro comentário sobre os gestores do fundo que financiara Dark Horse e sua ida para um paraíso fiscal nos Estados Unidos. Em junho, veiculou um corte no qual Reinaldo confrontava o custo informado para o filme com o montante pedido a Vorcaro. O financiamento alheio rendeu semanas de atenção.
O artigo de 14 de maio não informava o leitor sobre o contrato identificado pelo nome de seu autor, os adiantamentos relatados por Warde ou o patrocínio autorizado por Vorcaro ao parceiro. Nas transcrições públicas das edições de 13 e 14 de maio examinadas nesta reportagem, tampouco há referência a Warde ou ao Reconversa. Reinaldo exigia transparência sobre o financiamento de terceiros enquanto deixava fora do enquadramento o circuito pelo qual ele próprio era financiado.
Há ainda uma diferença na contrapartida apresentada ao investidor. No plano de negócios de Dark Horse encontrado pela PF, a remuneração de Vorcaro era projetada a partir da exploração comercial do filme, com receitas de bilheteria e retorno previsto de 20% sobre o capital aplicado. No caso do Reconversa, a utilidade oferecida ao banqueiro aparece na voz do próprio Warde: “Bela propaganda pro banco”. E o que Vorcaro queria de Reinaldo estava escrito: tomar partido, comprar a briga, fazer uma campanha agressiva.
Para o filme, projetava-se um retorno financeiro. Para a influência de Reinaldo, o banqueiro cobrava um retorno na opinião pública. Warde apresentava a conta e prometia cuidar da mobilização. O arranjo tratava a voz do jornalista como uma boca de aluguel: o prestígio acumulado diante do público era oferecido, nos bastidores, como instrumento de defesa do financiador. Essa era a relação que faltava informar a quem o ouvia distribuir indignação sobre o dinheiro alheio. A hipocrisia estava na transparência que exigia dos outros e não praticava sobre si nos conteúdos examinados.
Ofereci todo o conteúdo desta reportagem ao UOL, ao Metrópoles e a O Globo. Os três veículos demonstraram interesse nas conversas entre Warde e Vorcaro, mas declinaram do material depois que informei que ele implicava diretamente Reinaldo Azevedo. Deixo ao leitor o julgamento da relevância jornalística dos documentos e dos motivos pelos quais grandes redações preferiram recusar a história.
Os diálogos sobre Reinaldo acrescentam um capítulo sombrio às relações prostituídas entre a mídia tradicional, os interesses financeiros e a política de Brasília. Nesta mesma semana, foram expostas as relações de Vorcaro com Fred Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, demitido em 15 de outubro, e com Lilian Tahan, CEO do Metrópoles, a quem o banqueiro enviava pedidos de alteração de reportagens.
Outros veículos já haviam aparecido no circuito de seus interesses. Agora, os documentos permitem ao público conhecer os interesses financeiros que acompanhavam as opiniões de um dos principais nomes do Metrópoles, à época dos acertos colunista do UOL. A confiança do leitor era o patrimônio anunciado; nos bastidores, negociava-se sua utilidade. No Brasil, a corrupção não se encerra nos três Poderes. O quarto também está contaminado.
