Mentiras e contradições do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master, ampliam o constrangimento público de autoridades que defenderam o magistrado em meio às suspeitas de corrupção.
Documentos, mensagens e, mais recentemente, um vídeo que desmentiu uma negativa categórica do ministro escancaram inconsistências em suas explicações e dificultam a defesa de sua conduta, sustentada nos últimos meses por colegas como Gilmar Mendes e Flávio Dino, além do procurador-geral da República Paulo Gonet e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O exemplo mais recente e emblemático veio no domingo (20), quando o jornal O Globo divulgou o vídeo mostrando Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jatinho ligado a Vorcaro no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. As imagens, registradas em agosto de 2025, mostram o casal deixando uma aeronave pertencente a uma empresa associada ao banqueiro. A gravação confirmou uma informação que havia vindo a público meses antes e que havia sido categoricamente negada pelo ministro.
Em nota divulgada após as primeiras reportagens sobre as viagens no avião de Vorcaro, em abril, o gabinete de Moraes havia afirmado que as informações eram falsas. “O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel”, declarou.
Depois da divulgação do vídeo, o escritório Barci de Moraes confirmou que o ministro acompanhou a esposa em determinados voos da Prime Aviation, empresa ligada a Vorcaro. Os deslocamentos, segundo o escritório, foram realizados sem a presença do banqueiro. As negativas de Moraes não foram justificadas.
Após a divulgação do relatório da Polícia Federal, no início de setembro, outra negativa categórica de Moraes ficou praticamente insustentável: a de que as mensagens enviadas por Vorcaro às vésperas de sua prisão não eram destinadas a ele.
Em março, quando parte das conversas veio a público, o ministro havia negado ser o destinatário das mensagens, apresentando uma suposta análise técnica para isso. O relatório divulgado em setembro, porém, foi muito além dos prints inicialmente conhecidos e tornou a antiga justificativa constrangedora. A PF reconstruiu as comunicações a partir do cruzamento de milhares de registros de atividades do celular de Vorcaro, incluindo horários de criação de anotações, capturas de tela e envio de mensagens de visualização única pelo WhatsApp.
Os investigadores identificaram um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA” e reuniram mensagens nas quais Vorcaro pedia ajuda para conter medidas da Polícia Federal e da PGR, consultava o interlocutor sobre a possibilidade de deixar o país e, no dia de sua prisão, perguntava se ele havia conseguido obter informações ou bloquear alguma providência. Embora as respostas de Moraes não tenham sido recuperadas e o ministro continue contestando as conclusões da PF, o conjunto de rastros digitais identificado pelos investigadores tornou muito mais difícil sustentar a versão de que Moraes não tenha mentido.
A tentativa de Moraes e do escritório de sua esposa de apresentar a relação comercial com Vorcaro como um negócio restrito à atividade profissional de Viviane Barci também foi desmentida pelo relatório recente da PF. Os investigadores descobriram que o próprio ministro havia participado da elaboração do contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master.
Os metadados de duas versões da minuta o identificam como responsável pelas últimas alterações, uma delas feita depois que Vorcaro devolveu o documento revisado. Só após essa revelação o escritório reconheceu que o magistrado havia sido consultado, alegando que sua participação se limitou à verificação de eventuais impedimentos legais à contratação. Moraes sempre atribuiu o negócio exclusivamente à atividade profissional de sua família. Em sua defesa apresentado por escrito ao STF em 15 de setembro, ele não esclareceu as edições do contrato registradas em seu nome.
Novas revelações aumentam desgaste de quem defende Moraes
A nova revelação sobre a viagem de avião de Moraes, só cinco dias após a sessão do STF que bloqueou temporariamente a investigação contra ele, deu contornos mais constrangedores à defesa pública que alguns de seus colegas lhe prestaram na semana passada e nos últimos meses.
Flávio Dino fez uma defesa enfática do colega, confrontando Fachin no plenário, acusando sua condução do caso de abrir uma “avenida de autoritarismo” e defendendo que as suspeitas contra Moraes fossem examinadas juntamente com acusações contra André Mendonça. Ao final, pediu vista, impedindo uma decisão sobre a abertura da investigação contra Moraes. Gilmar Mendes, por sua vez, concentrou seus ataques em Mendonça, relator do caso Master, atribuindo motivação eleitoral à investigação e chamando o colega de “pixuleco” e “boneco eleitoral”.
Não é a primeira vez recente que Gilmar sai em defesa de Moraes de forma enfática. Em abril, quando a CPI do Crime Organizado propôs o indiciamento de Moraes e outras autoridades por suspeitas relacionadas ao Master, o decano classificou a iniciativa como uma “proposta tacanha” e um “erro histórico”.
O procurador-geral Paulo Gonet também acumula manifestações pró-Moraes que envelheceram mal. Em dezembro de 2025, arquivou uma representação contra Moraes e Viviane Barci, alegando “absoluta ausência de lastro probatório mínimo” para as acusações então apresentadas. Em 1º de setembro, diante do relatório com novas mensagens atribuídas a comunicações entre Moraes e Vorcaro, pediu sua anulação sob o argumento de que Mendonça havia determinado uma investigação contra outro ministro sem a autorização necessária.
No Palácio do Planalto, o constrangimento com a situação de Moraes já se tornou uma preocupação eleitoral. Lula, único entre seus principais defensores do alto escalão do poder a depender diretamente do voto popular, tenta se distanciar do ministro, com quem estreita laços desde 2022. Segundo alguns veículos de comunicação, integrantes de sua campanha temem que a proximidade contamine a candidatura à reeleição e passaram a defender uma tentativa de desvinculação.
A busca por distanciamento, porém, esbarra no histórico de elogios do próprio Lula ao ministro. O presidente sempre exaltou o papel de Moraes nas eleições de 2022 e nos processos relacionados à suposta tentativa de golpe de Estado. Agora, passa a afirmar genericamente que eventuais irregularidades do ministro precisam ter consequências.
