A Polícia Federal (PF) reuniu, em novembro de 2025, indícios de que Daniel Vorcaro tinha conhecimento antecipado da investigação sobre o Master antes da deflagração da operação que levou à sua prisão. As informações constam de documentos que tiveram o sigilo retirado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça na noite de ontem (10).
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A investigação tramitava sob sigilo na 10ª Vara Federal de Brasília antes de chegar ao Supremo. Segundo a PF, Vorcaro não apenas sabia da existência do inquérito, como também tinha informações sobre a condução do caso, incluindo a vara responsável, o juiz e integrantes da equipe de investigação.
“Já foram consolidados indícios veementes de que o investigado, Daniel Bueno Vorcaro, soube de maneira antecipada e antes da deflagração não apenas o fato de existir investigação criminal em curso, mas também a vara, o nome do juiz que conduzia o feito, bem como o nome de diversos membros da equipe de investigação”, afirmou a delegada responsável pela apuração.
A declaração consta de um pedido de prorrogação do inquérito apresentado pela PF em novembro de 2025. Para a corporação, o acesso antecipado às informações reforçava a suspeita de que o banqueiro planejava deixar o país antes da operação. “Além da gravidade da situação descrita anteriormente, que corrobora a intenção de fugir do principal investigado nos autos”, registrou a delegada no documento.
A PF também apontou que Vorcaro tinha conhecimento de que uma operação policial seria deflagrada e relacionou esse fato à viagem do banqueiro ao exterior na véspera da ação que o prendeu, “sendo improvável que sua viagem ao exterior, na noite imediatamente anterior à data do cumprimento dos mandados, seja mera coincidência”.
A corporação listou uma série de fatos que, segundo a investigação, sustentam a hipótese de que Vorcaro teve acesso antecipado a informações protegidas por sigilo:
- 21/10/2025: Vorcaro registra, no aplicativo “Notas”, os nomes de representantes da Polícia Federal que participaram de reunião reservada com o Banco Central, indicando acesso antecipado a informações reservadas;
- 16/11/2025: Dois dias antes da operação, o dono do Master registra nova nota questionando eventual proximidade de terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas contra ele. Para a PF, como o inquérito era sigiloso, o registro reforça a suspeita de vazamento de informações;
- 17/11/2025 (manhã): Um dia antes da operação, Vorcaro recebe, às 07h28min, mensagens urgentes de seu advogado, WALFRIDO WARDE. Em seguida, altera seus planos e, às 08h48min, informa que agendaria voo saindo de Congonhas;
- 17/11/2025 (07h41min em diante): O banqueiro conversa com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada. Após as 11h, recebe o link da matéria e o encaminha imediatamente a Warde. O texto menciona a existência de um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília;
- 17/11/2025: Warde protocola petição na 10ª Vara Federal do DF para obter acesso ao conteúdo da investigação e cita expressamente a reportagem como fonte da informação. Durante o dia, advogado e banqueiro continuam tratando do assunto e insistem em contatos com o juiz responsável pelo caso;
- 17/11/2025: Também surgem elementos de que Vorcaro divulgou à imprensa a informação de que o Grupo Fictor teria interesse na aquisição do Banco Master;
- 17/11/2025 (desde 06h34min): Vorcaro mantém contato com servidores do Banco Central, Paulo Sérgio e Belline. Posteriormente, eles consideram “fundamental” que o banqueiro converse com o diretor do BC, Ailton Aquino;
- 17/11/2025 (início da tarde): A reunião é articulada para o mesmo dia. Vorcaro propõe 13h; Paulo Sérgio confirma 13h15min; e Belline envia o link às 13h35min. Depois do encontro, circula reportagem sobre a venda do Banco Master ao Fictor, sem surpresa dos servidores, segundo a PF, o que sugeriria alinhamento prévio;
- Noite de 17/11/2025: Forças policiais interceptam o dono do Master no aeroporto de Guarulhos/SP, quando ele estava prestes a embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes;
- 18/11/2025: A 1ª fase da Operação Compliance Zero é oficialmente deflagrada após decisão judicial favorável aos pedidos da PF.
Para a corporação, a sequência dos acontecimentos indica que Vorcaro, “ciente da futura e iminente atuação policial, se utiliza de servidores do Banco Central que lhe são subalternos (em razão do pagamento de vantagens indevidas) para forçar uma reunião virtual, no dia imediatamente anterior à operação policial”.
A primeira fase da Operação Compliance Zero investigava suspeitas de fraudes em operações financeiras envolvendo o Master e o BRB. O documento da PF não esclarece como o banqueiro teria obtido as informações sobre a investigação nem aponta quem teria repassado os dados. Também não afirma que Vorcaro soubesse a data exata da operação.
Cerca de 10 dias depois, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou a soltura de Vorcaro e de outros quatro executivos do Banco Master. Segundo a PF, um dos argumentos considerados na decisão estava relacionado ao teor da reunião realizada com o Banco Central.
“Diante de todo o exposto, conclui-se pela existência de fortes elementos indicativos de condutas de DANIEL VORCARO e associados direcionadas a proteger o núcleo dirigente da organização criminosa, mediante conhecimento antecipado de atos processuais e articulações com interlocutores em órgãos de controle, ao lado de planejamento logístico para saída do país em janela próxima à deflagração de medidas, o que, somado às comunicações com autoridades e ao acompanhamento de procedimentos internos, compõe o retrato dos “tentáculos” em estruturas públicas e privadas”, diz a PF.
As informações foram posteriormente utilizadas pela PF para fundamentar um novo pedido de prisão preventiva de Vorcaro, assinado em 27 de fevereiro de 2026. Em março deste ano, o banqueiro foi preso novamente.
O sigilo dos documentos foi retirado por Mendonça após solicitação do presidente do STF, Edson Fachin. A medida, acordada entre ambos, ocorreu antes do julgamento, previsto para a próxima semana, sobre as mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Parte do material permanece sob sigilo, especialmente diligências ainda em andamento.
