O Morgan Stanley traçou um cenário de forte deterioração para os ativos brasileiros caso o próximo governo mantenha uma política fiscal sem medidas consideradas suficientes para conter o avanço da dívida pública. Na hipótese mais negativa, o banco projeta dólar a R$ 6, juros de longo prazo em 18% ao ano e queda de aproximadamente 25% do Ibovespa em reais.
✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp
A instituição americana avalia que a trajetória das contas públicas a partir de 2027 será determinante para os mercados. O problema, segundo o banco, não está apenas na velocidade de redução do déficit, mas na capacidade do governo de apresentar um plano fiscal que convença investidores de que a dívida poderá ser estabilizada.
O cenário de maior risco considera crescimento econômico fraco, inflação persistente e juros elevados. A combinação poderia aumentar a percepção de risco sobre o Brasil, pressionar o câmbio e limitar a capacidade do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros.
No cenário pessimista, o Morgan Stanley estima crescimento de apenas 0,2% do PIB em 2027, Selic em 15,50%, dólar a R$ 6 e Ibovespa em 130 mil pontos. A projeção para a dívida bruta é de 87,9% do PIB no próximo ano.
A instituição também calcula que, nesse cenário, a dívida ultrapassaria 100% do PIB em 2033 e chegaria a 106% no horizonte de dez anos.
Risco fiscal
O Morgan Stanley considera que o próximo governo não precisará necessariamente promover uma correção imediata das contas públicas. O ponto central, segundo a análise, será demonstrar que existe uma estratégia capaz de interromper a trajetória de crescimento da dívida.
“Crescimento mais fraco, inflação persistente e juros restritivos deixam menos espaço para ambiguidade fiscal e poderiam disparar um ciclo não linear de prêmios de risco mais altos, enfraquecimento do real, corte limitado de juros pelo Banco Central, atividade mais fraca e deterioração da dinâmica da dívida”, afirmam os analistas.
A avaliação leva em conta a elevada rigidez do Orçamento federal. Mais de 91% das despesas são obrigatórias, o que reduz a margem para cortes de gastos. O banco também aponta o aumento da carga tributária desde 2022 e considera que o resultado primário ainda está distante do necessário para estabilizar a dívida.
Para os analistas, a reação dos mercados pode ocorrer muito mais rapidamente do que a implementação de medidas fiscais. “A entrega fiscal será gradual, mas a reprecificação dos ativos brasileiros não precisa ser”, resume o relatório.
Três cenários para 2027
O banco trabalha com três possibilidades para a economia brasileira após a eleição.
No cenário pessimista, o PIB cresce 0,2%, a Selic permanece em 15,50%, o dólar chega a R$ 6 e o Ibovespa recua para 130 mil pontos.
Na projeção-base, o dólar fica em R$ 5,25 e a Selic em 11%.
Já em um cenário considerado positivo, no qual o próximo governo apresenta um plano fiscal crível, o Morgan Stanley estima crescimento de 1,5%, dólar a R$ 4,50 e Selic em 9,75%. O Ibovespa poderia alcançar 250 mil pontos.
A diferença entre as projeções está principalmente na resposta das contas públicas. Com uma estratégia fiscal considerada consistente, o banco avalia que a redução do prêmio de risco poderia fortalecer o real e abrir espaço para uma queda maior dos juros.
Bolsa e renda fixa
No mercado de renda fixa, o cenário negativo levaria o contrato de juros futuros com vencimento em janeiro de 2029 para 16,50%. Para a NTN-F com vencimento em 2037, a projeção chega a 18%.
No cenário positivo, as taxas poderiam cair para 11% e 12%, respectivamente. O cenário-base prevê 13,75% para o contrato de 2029 e 15% para o título de 2037.
Para a Bolsa, o Morgan Stanley estabeleceu um alvo de 215 mil pontos para o Ibovespa em meados de 2027. Mesmo diante dos riscos fiscais, o banco mantém uma posição levemente favorável ao mercado brasileiro.
A estratégia prioriza empresas com receitas em dólar e companhias do setor financeiro, consideradas mais capazes de atravessar um cenário de volatilidade doméstica.
No cenário de continuidade da atual política econômica, o Morgan Stanley estima que o Ibovespa poderia perder cerca de 35% em dólares, equivalente a uma queda de 25% em reais.
