A lobista Roberta Luchsinger, sócia de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, usou a influência de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete do presidente Lula (PT), para acessar a cúpula do Ministério da Saúde. Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) mostram que, após receber o contato de Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, Roberta conseguiu uma reunião com o então número 2 da pasta em apenas três dias. As informações são do jornal Valor Econômico.
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Os diálogos integram a investigação da PF sobre a atuação de Roberta e Lulinha na busca por negócios junto ao governo federal. O material mostra que Marcola não apenas forneceu o contato de Berger, como também acompanhou a articulação e informou previamente ao secretário-executivo que Roberta o procuraria.
Em 19 de setembro de 2023, Roberta enviou uma mensagem diretamente a Berger.
“Boa tarde, secretário, tudo bem? Aqui é Roberta Luchsinger, amiga do Marcola. Ele me passou seu contato. Quinta agora estarei em Brasília. Se o sr. puder, poderíamos tomar um café. Senão marcamos na melhor data para você. Obrigada, beijos”, escreveu.
Dois minutos depois, Berger respondeu:
“Boa tarde, Roberta, tudo bem? Marcola me disse que ligaria. Minha secretária Mara, cujo número compartilho com você, vai acertar a agenda ok? Abraços”.
Roberta confirmou o recebimento. Na mesma tarde, ela enviou a Marcola uma captura da conversa e informou que estava tratando da agenda com a secretária de Berger. O então chefe de gabinete de Lula respondeu: “muito bom”.
Reunião foi marcada em três dias
Em 21 de setembro, Roberta informou a Marcola que encontraria Berger às 15h30. Depois da reunião, voltou a procurá-lo para relatar o encontro.
“Oi saí agora do Berger. Falei um pouco dos sistemas. Ele foi super solícito. Mas não aprofundei. Como era um encaixe, eu não quis aprofundar, daí farei minha lição de casa e conversarei com você. Mas ele foi muito legal mesmo. Obrigada, teremos coisa ali pra fazer”, afirmou.
Marcola respondeu: “Que bom”.
Segundo a PF, as conversas ocorreram no contexto da tentativa de Roberta de abrir espaço no governo para um contrato de fornecimento de canabidiol.
A investigação aponta que a lobista atuava para viabilizar um negócio envolvendo a empresa World Cannabis, do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. O contrato não foi concretizado, mas a PF identificou pagamentos de R$ 1,5 milhão à consultoria de Roberta relacionados à tentativa de levar o negócio ao governo federal.
Roberta voltou a tratar do canabidiol com Marcola
As mensagens mostram que o assunto continuou sendo tratado entre Roberta e Marcola ao longo de 2024.
Em 15 de fevereiro, a lobista escreveu ao ex-chefe de gabinete:
“E tudo bem aí? Semana que vem to de volta rsrs. Boas notícias daqui tá”.
Marcola respondeu: “Show. Que legal! Por aqui trabalhando muito!”.
Na sequência, Roberta retomou o assunto do canabidiol e mencionou Lulinha:
“Fábio e eu fomos ver aquela situação pra organizar. Escuta, tem que marcar com Berger né. Negócio do canabidiol”.
Em 22 de março, Roberta encaminhou a Marcola um organograma do Ministério da Saúde com áreas destacadas, além de uma norma técnica da pasta. Na conversa, pediu que Berger desse atenção ao projeto.
“Então pronto né rsrs. Combinado. Pede pra ele dar um las (sic) no canabidiol”, escreveu.
Marcola respondeu: “blz”.
Roberta ainda explicou que havia identificado o caminho dentro do ministério que deveria ser seguido para avançar com a proposta.
“Ó, até anotei o caminho que tem que ser seguido pra ele entender. Pra nós é rápido, importante. Pede ele essa atenção.”
Marcola respondeu: “com certeza”.
Os dois também combinaram um almoço com Berger. Roberta escreveu:
“Então, terça nosso almoço, só nós pelo amor. Eu, você e Berge”.
Marcola respondeu:
“Blz (sic), daí a gente conversa com ele. Até lá falarei com ele sozinho também”.
PF aponta interlocução com o governo
Em relatório com mais de 300 páginas, a PF descreve as conversas como parte da atuação de Roberta e Lulinha para buscar “interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal”.
A investigação reúne mensagens que, segundo os investigadores, evidenciam o acesso da lobista a integrantes do governo e sua atuação para levar interesses empresariais a órgãos públicos.
Além das tratativas sobre o canabidiol, a PF identificou que Roberta bancou despesas pessoais de Marcola entre fevereiro e novembro de 2024. Os pagamentos, incluindo gastos de cartão de crédito e compra de joias, somaram R$ 217 mil.
Após o caso vir a público, Marcola afirmou que os valores correspondiam a um empréstimo feito pela empresária e que foram posteriormente devolvidos com juros e correção monetária, totalizando R$ 249 mil.
