Mensagens atribuídas à lobista Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, apontam que ela mencionou a suposta influência do advogado Otto Medeiros em uma negociação envolvendo a venda de produtos de cannabis medicinal ao governo federal. Em uma das conversas, Roberta afirmou que Medeiros seria “sócio do Cássio”, em referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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Nunes Marques negou a existência de qualquer sociedade com o advogado. Em nota, o ministro afirmou que os dois mantêm apenas uma relação de amizade e que ele se declara impedido de atuar em processos no STF nos quais Medeiros esteja envolvido.
As conversas integram investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) sobre a atuação de Roberta e Lulinha em negócios relacionados à cannabis medicinal. Segundo a PF, a lobista buscava obter 20% do faturamento de uma empresa que pretendia fornecer produtos derivados de cannabis a órgãos da administração pública.
Em uma conversa de maio de 2024, Roberta demonstrou preocupação com a participação de Otto Medeiros na divisão dos recursos. Ela afirmou que queria definir previamente os percentuais e pediu que parte de sua remuneração fosse estabelecida por meio de outro contrato.
Na sequência, ao falar sobre o advogado, escreveu: “Mas vc trate bem esse Otto. Ele é bem influente. Sócio do Cássio sabe”.
A PF identificou que Roberta havia indicado Medeiros para atuar no projeto ao empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Em 15 de maio de 2024, Antunes encaminhou um e-mail ao escritório do advogado solicitando uma proposta de serviços jurídicos voltados à comercialização de cannabis medicinal para o governo federal.
A proposta foi enviada cinco dias depois, mas o negócio não avançou. O grupo também não conseguiu fechar contrato de fornecimento com o governo.
Relação com Lulinha
Segundo o relatório da PF, Roberta tinha proximidade com Lulinha e teria atuado com aparente autorização para tratar de negócios em nome do filho do presidente Lula (PT).
Em uma das conversas analisadas pelos investigadores, a lobista chegou a afirmar: “Eu sou o Fábio”. A PF utilizou o diálogo como um dos elementos para apontar a proximidade entre os dois.
Medeiros também já mantinha relação profissional com Lulinha. O advogado atuou em processos tributários relacionados ao filho do presidente e teria sido apresentado a Roberta por ele.
O projeto de cannabis envolvia ainda outros integrantes. A PF identificou diálogos entre Roberta, Lulinha, Antônio Camilo Antunes e o ex-assessor parlamentar Gustavo Gaspar sobre a estruturação do negócio e a divisão da remuneração.
Uma minuta de contrato previa que Roberta receberia, ao longo de 12 meses, 20% do faturamento obtido pela empresa com a venda de produtos de cannabis a órgãos públicos. Segundo a investigação, a lobista chegou a compartilhar o documento com Marco Aurélio Santana, ex-chefe de gabinete da Presidência conhecido como Marcola, na tentativa de conseguir auxílio na intermediação do negócio.
Nunes Marques nega sociedade
Procurado sobre a menção feita por Roberta, Kassio Nunes Marques negou ter qualquer participação societária com Otto Medeiros.
“O ministro Kassio Nunes Marques não é e nunca foi sócio do senhor Otto Medeiros em qualquer empreendimento. Os dois mantêm uma relação de amizade, porém o ministro se declara impedido nos processos em que o advogado atua no STF”, afirmou a assessoria do ministro.
Medeiros também foi procurado, mas não quis se manifestar. Segundo interlocutores, ele nega ter qualquer relação societária com Nunes Marques.
A irmã do ministro, Karine Nunes Marques, e o filho dele, Kevin de Carvalho Marques, mantêm atuação profissional em parceria com o escritório de Medeiros em alguns processos.
A defesa de Roberta criticou a divulgação dos diálogos e questionou a origem dos vazamentos. Em nota, afirmou que a exposição de informações de um inquérito sigiloso “não ajuda a investigação” e pediu providências ao ministro da Justiça.
