“MAGA Barbie”: Quem é Sophie Cunningham?

Durante seis temporadas na WNBA, Sophie Cunningham era apenas mais uma boa jogadora da liga. Em poucos meses, tudo mudou. Uma falta dura para defender Caitlin Clark virou um dos vídeos mais assistidos do basquete feminino americano. Depois vieram milhões de seguidores, contratos milionários, um tênis próprio da Adidas, um apelido político — “MAGA Barbie” — e, por fim, o apoio da Casa Branca após ela defender restrições à participação de atletas trans em competições femininas. Aos 29 anos, Cunningham deixou de ser apenas uma atleta: hoje ocupa um espaço raro no esporte americano, o de protagonista da guerra cultural entre conservadores e progressistas.

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Por anos, Sophie Cunningham foi conhecida só pelos fãs mais atentos da WNBA. Respeitada pela intensidade dentro de quadra, a ala passou seis temporadas longe dos holofotes nacionais, até que uma sequência de episódios mudou sua carreira por completo.

Primeiro veio a transferência para o Indiana Fever, equipe da principal estrela do basquete feminino americano, Caitlin Clark. Depois, uma falta dura em defesa da companheira viralizou nas redes sociais, multiplicou seus seguidores e transformou Cunningham em um dos rostos mais conhecidos da liga.

Agora, um novo capítulo levou seu nome para além do esporte: depois de defender publicamente que mulheres trans não disputem competições femininas, Cunningham recebeu apoio da Casa Branca e entrou no centro da disputa política americana. Nas redes, ganhou um apelido que resume a polarização em torno de sua imagem: “MAGA Barbie”.

O termo nasceu nas redes sociais e logo foi incorporado pela cobertura esportiva americana. “MAGA” é a sigla de Make America Great Again, slogan político de Donald Trump; “Barbie” remete à aparência da jogadora — loira, alta e associada à estética glam que ela costuma exibir nas entradas para os jogos da WNBA. O apelido ganhou força à medida que Cunningham passou a defender pautas caras ao eleitorado conservador, sobretudo a oposição à participação de atletas trans em categorias femininas. Ela, porém, rejeita a classificação.

O gesto que viralizou antes da polêmica política

Antes do apelido e do apoio da Casa Branca, Sophie Cunningham já era um dos rostos mais conhecidos da WNBA por um motivo bem diferente. Em uma partida entre Indiana Fever e Phoenix Mercury, em junho deste ano, a ala passou cerca de 22 segundos com o dedo apontado, em silêncio, para a adversária DeWanna Bonner, depois de uma confusão envolvendo Caitlin Clark. A cena viralizou na hora, virou meme e se tornou um dos momentos mais compartilhados do esporte americano em 2026. Segundo a ESPN, aquele gesto marcou a virada na carreira da jogadora: de nome conhecido só pelos fãs da liga a fenômeno nacional de mídia.

O episódio veio depois de uma sequência de provocações em quadra. Caitlin Clark discutiu com DeWanna Bonner e recebeu falta técnica, enquanto Cunningham questionava a arbitragem por não aplicar a mesma punição à adversária. Bonner reagiu ao gesto e pediu que ela parasse de apontar. Cunningham fez o oposto: manteve o dedo estendido, em silêncio, e só parou de encarar a jogadora do Phoenix Mercury quando colegas do próprio Indiana Fever a afastaram. Dias depois, em seu podcast, admitiu que a atitude foi “a coisa mais idiota” que já fez — mas confessou que insistiu porque percebeu que o gesto irritava a adversária.

Mas, afinal, quem é Sophie Cunningham?

De recordista universitária à WNBA

Natural do Missouri, Sophie Cunningham nasceu em 16 de agosto de 1996 e cresceu em uma família ligada ao esporte de ponta a ponta. O pai, Jim Cunningham, jogou futebol americano universitário; a mãe, Paula, competiu no atletismo; a avó também teve passagem pelo basquete feminino. Desde criança, Sophie foi estimulada a competir — segundo reportagem especial da ESPN, a família precisava até levar a certidão de nascimento dela para alguns torneios infantis, porque adversários achavam que ela era velha demais para jogar naquela categoria.

Michael Hickey/Getty Images

Além do basquete, Cunningham praticou taekwondo desde pequena e conquistou faixa preta ainda na infância. Também atuou como kicker no time de futebol americano da escola.

Na Universidade de Missouri, virou lenda. Entre 2015 e 2019, levou a equipe ao Torneio da NCAA nos quatro anos em que esteve lá e encerrou a carreira universitária como maior pontuadora da história do programa. A ESPN destaca que o Missouri não disputava o torneio havia nove anos antes de sua chegada — e não voltou desde sua saída.

No Draft de 2019, foi escolhida pelo Phoenix Mercury. Nunca foi considerada uma superestrela da liga, mas construiu reputação sólida como especialista em arremessos de três pontos e defesa física, e figurou várias vezes entre as melhores da WNBA nesse fundamento.

A “protetora” de Caitlin Clark

A grande virada aconteceu em 2025, quando Cunningham foi negociada com o Indiana Fever e passou a dividir a quadra com Caitlin Clark, o principal fenômeno do basquete feminino americano. Ali, assumiu um papel raro: virou a jogadora encarregada de proteger fisicamente a estrela da equipe.

Esse perfil ficou claro em junho de 2025. Clark sofreu um contato físico duro durante uma partida contra o Connecticut Sun, e Cunningham respondeu com uma falta flagrante sobre Jacy Sheldon nos segundos finais do jogo. O lance viralizou na hora: segundo a ESPN, as buscas pelo nome da atleta cresceram 800% nos dias seguintes, e seus seguidores no TikTok saltaram de 300 mil para 1,4 milhão em uma semana. Hoje ela reúne mais de 3 milhões de seguidores na plataforma. O episódio a transformou em um fenômeno de internet.

Heroína para uns, vilã para outros

A própria ESPN resume a percepção pública da atleta com uma pergunta que se repete ao longo da reportagem: “Heroína ou vilã?”

Dentro da WNBA, Cunningham construiu fama de jogadora intensa. A ex-companheira Brittney Griner define assim sua personalidade: “Jogar contra ela é um saco. Mas quando ela é sua companheira de equipe, você não quer ninguém mais.” A técnica Stephanie White também elogia sua postura: para ela, a coragem de Cunningham contagia o elenco todo e eleva o nível competitivo da equipe.

Ao mesmo tempo, adversárias e parte da torcida a veem como uma jogadora agressiva demais. Ela rejeita o rótulo: “Eu não sou o guarda-costas. Vou apenas fazer o que a equipe precisar.”

Como nasceu a “MAGA Barbie”

O apelido não saiu da campanha de Donald Trump nem foi criado pela própria jogadora — nasceu nas redes sociais e entre torcedores da WNBA, que associaram sua aparência (alta, loira, comparada à Barbie) às posições conservadoras atribuídas a ela. A percepção ganhou força porque Cunningham interagiu com conteúdos de figuras conservadoras, compartilhou publicações alinhadas à direita americana e passou a defender pautas como a restrição à participação de atletas trans em competições femininas.

Mesmo assim, ela nega o rótulo. Em entrevista à ESPN, afirmou: “Eu me considero bem neutra. Concordo com pontos de vista de ambos os lados, discordo de pontos de vista de ambos os lados. E isso é tudo o que sempre disse sobre minhas crenças políticas. Mas as pessoas adoram fazer suposições.”

O debate sobre atletas trans

O episódio que levou Cunningham ao centro da política americana veio de uma entrevista à ESPN. Questionada sobre atletas trans no esporte feminino, ela respondeu: “Recebi muitos comentários negativos sobre eu odiar pessoas trans. E eu penso: ‘Eu nunca disse isso’. Acho que estou aqui para espalhar amor. Mas também acho que, junto com o amor, vem a verdade, a honestidade. E quero proteger as meninas nos vestiários, ou as meninas no esporte, que não deveriam ter que competir contra homens biológicos.”

A declaração dominou o noticiário esportivo americano em poucas horas. Grupos conservadores passaram a defendê-la; ativistas LGBTQ+ criticaram a fala e a classificaram como excludente. O tema ganhou ainda mais repercussão por coincidir com decisões recentes da Suprema Corte dos Estados Unidos que mantiveram leis estaduais restringindo a participação de atletas trans em categorias femininas escolares e universitárias.

A Casa Branca entra na discussão

A repercussão chegou ao governo Trump. Em entrevista coletiva, a secretária de imprensa Karoline Leavitt afirmou que o presidente acompanhava o caso e saiu em defesa da atleta: “Sei que ele está acompanhando a história. Como vocês sabem, esse também é um tema sobre o qual o presidente tem uma posição muito firme (…): que homens não deveriam participar de esportes femininos. É completamente absurdo que alguém apoie isso.”

A fala colocou Cunningham de vez dentro da chamada guerra cultural americana.

A explosão comercial

Enquanto a polarização crescia, o valor comercial de Cunningham crescia junto. Depois da briga em defesa de Caitlin Clark, ela assinou novos contratos de patrocínio e ampliou muito sua presença fora das quadras. Entre os principais projetos estão o lançamento do tênis Adidas Crazy Energy PE “Unicorn”, esgotado poucas horas após o lançamento; a participação na edição de maiôs da Sports Illustrated; a presença como ring girl no UFC; e campanhas para marcas como Adidas, Arby’s, Ring, Quest Nutrition e European Wax Center.

A ESPN relata que, em poucos meses, Cunningham passou a viajar sem parar entre compromissos comerciais e eventos promocionais em cidades diferentes — uma agenda hoje comparada à de grandes estrelas do esporte. Depois da falta em Jacy Sheldon, seu nome explodiu nas buscas do Google, os seguidores se multiplicaram e as marcas passaram a disputar sua imagem. Em menos de um ano, ela estampou um outdoor em frente ao Madison Square Garden, apareceu na edição de maiôs da Sports Illustrated, lançou um tênis exclusivo pela Adidas, trabalhou como ring girl do UFC e fechou contratos com Ring, Quest Nutrition e Arby’s.

Um símbolo além do basquete

Hoje, Sophie Cunningham representa muito mais do que uma jogadora da WNBA. Para admiradores, é a atleta disposta a defender colegas de equipe e a expressar opiniões impopulares em uma liga marcada por forte ativismo político. Para críticos, é símbolo da polarização que domina parte do esporte americano.

A própria ESPN resume essa transformação: Cunningham deixou de ser apenas uma jogadora de basquete para se tornar uma personalidade conhecida nacionalmente, cuja fama já ultrapassa as quadras.



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