O GAECO do Ministério Público de São Paulo deflagrou nesta manhã (24) a 3ª fase da Operação Carbono Oculto, que investiga lavagem de dinheiro e organização criminosa ligada ao setor de combustíveis. A operação apura a aquisição da Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda., conhecida como Terrana.
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São cumpridos 29 mandados de busca e apreensão contra 13 pessoas físicas e 24 pessoas jurídicas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo. As ordens foram autorizadas pela 2ª Vara Criminal de Catanduva.
Entre os alvos estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, executivo do Banco Genial, os irmãos André e Bruno Tupinambá e o empresário Antonio Carlos Freixo Junior, dono da Entre Investimentos. Freixo firmou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) nas investigações sobre o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
A ação também reúne a Receita Federal, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), a Secretaria Estadual da Fazenda e as polícias Civil e Militar.
Segundo o GAECO, o grupo criou uma estrutura de fundos, holdings, empresas de fachada e operações financeiras para assumir o controle da Terrana e ocultar patrimônio. Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, chamado de “Primo”, são apontados como chefes da organização. Eles não estão entre os alvos desta fase.
A investigação do MP-SP identificou os fundos Radford, Derby 44 e Los Angeles 01 e as empresas Berna Holdings Ltda. e Branson Holdings Ltda. como parte da estrutura usada na aquisição da distribuidora. As duas empresas foram criadas poucos meses antes da compra.
Mais de R$ 120 milhões teriam circulado por empresas e contas utilizadas como “contas de passagem”. Os recursos passaram por Aster Petróleo, SM Serviços Empresariais, Duvale Distribuidora e Usina Itajobi antes de chegar à estrutura responsável pela compra da Terrana.
O MP-SP sustenta que os envolvidos usaram “laranjas” para esconder os verdadeiros controladores dos ativos. Os indícios foram obtidos em relatórios do Coaf, documentos bancários, informações do Banco Genial, análises financeiras e mensagens extraídas de celulares apreendidos em fases anteriores.
O objetivo da operação, segundo o MP-SP, “é desvendar a utilização de estruturas complexas de lavagens de capitais para a aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país. Houve sobreposição de estruturas pela organização criminosa, para, inicialmente, ocultar o controle de uma empresa sucroalcooleira e, depois, a aquisição de uma distribuidora de combustíveis”.
Antes da aquisição da Terrana, a organização teria criado uma estrutura para ocultar os proprietários de uma usina sucroalcooleira no interior de São Paulo. Segundo o MP-SP, operadores financeiros usaram fundos, holdings e empresas para esconder a titularidade e movimentar recursos.
Embora a propriedade formal estivesse distribuída entre fundos e empresas aparentemente independentes, “os elementos reunidos indicam que a estrutura foi organizada para preservar o controle econômico dela sem que os reais beneficiários fossem revelados”.
Um dos negócios analisados envolve aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios da usina. Uma empresa ligada à sociedade de investimentos adquiriu os créditos por meio da transferência de cotas de um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC).
Segundo o MP-SP, “que parcela relevante dos recursos empregados na aquisição das cotas se originou de fundos de investimentos controlados pelo mesmo grupo investigado. A estrutura teria criado um fluxo financeiro circular, conferindo aparência de legitimidade à operação e dificultando a identificação dos reais beneficiários”.
O Ministério Público afirma que a estrutura criada para ocultar a usina foi posteriormente usada na compra da distribuidora.
“A ocultação da titularidade da usina sucroalcooleira, em duas etapas e por dois grupos de operadores do mercado financeiro, foi providencial não apenas para blindar a usina sucroalcooleira, mas também instrumentalizá-la para a estruturação de um novo negócio jurídico pela organização criminosa: a aquisição de uma das maiores distribuidora de combustíveis do país”, afirma o MP.
A usina recebeu R$ 100 milhões destinados à aquisição da distribuidora. Segundo o MP-SP, os recursos passaram “em poucos minutos” por contas de três empresas, ocultadas por contas bolsões em Fintechs, usadas como “contas de passagem”.
O dinheiro foi então colocado em um novo fundo de investimento criado para a operação. Depois, o fundo adquiriu um CDB perante o Banco Tradicional, que realizou uma operação “casada” com duas cédulas de crédito bancário para duas shell companies da organização.
As empresas de fachada teriam sido usadas para ocultar os beneficiários finais da compra da distribuidora.
Parte dos recursos também foi usada para adquirir integralmente as cotas de um fundo imobiliário. Os imóveis relacionados à operação haviam sido transferidos para empresas patrimoniais e, posteriormente, para fundos imobiliários, mantendo o controle econômico dos bens fora do patrimônio pessoal dos investigados.
Segundo a investigação, fintech, usina, fundos, holdings e empresas-veículo tinham funções específicas no esquema. A fintech movimentava os recursos, a usina os incorporava à atividade formal, os fundos financiavam as operações, as holdings realizavam aquisições e as empresas-veículo ocultavam a origem do dinheiro e os beneficiários dos ativos.
Os fundos imobiliários concentravam os imóveis ligados aos investigados, ampliando a separação entre os bens e seus supostos proprietários.
Para o MP-SP, a estrutura envolvia operadores do mercado financeiro que prestariam serviços de lavagem de dinheiro a diferentes grupos criminosos.
A empresa financeira usada na aquisição simulada da usina movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. Para o Ministério Público, o volume reforça os indícios de ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e lavagem de capitais.
