O Brasil apresenta a pior trajetória da dívida pública entre as 10 maiores economias emergentes, segundo análise do economista e ex-presidente do Banco dos Brics Marcos Troyjo parao Poder360. Com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o país é o único do grupo classificado por ele com uma “alta significativa” na relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB).
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Segundo Troyjo, enquanto o Brasil registra deterioração do indicador, outras grandes economias emergentes apresentam estabilidade, alta gradual ou redução da dívida. Polônia e Índia têm trajetória estável a decrescente, enquanto a Indonésia registra queda.
Para o economista, o quadro brasileiro reúne três fatores de pressão: o tamanho da dívida em relação ao PIB, o custo de financiamento dos compromissos públicos e o peso dos juros sobre as contas do governo.
“O Brasil passou a reunir a combinação mais preocupante de elevado endividamento, alto custo de financiamento e despesa com juros entre as maiores economias emergentes”, declara.
A combinação aumenta o custo para o governo financiar e refinanciar a dívida. Com mais recursos direcionados ao pagamento de juros, diminui o espaço disponível no Orçamento para investimentos e outras despesas.
Dívida voltou a subir a partir de 2023
A trajetória da dívida brasileira começou a se deteriorar novamente em 2023. Depois de alcançar 86,9% do PIB em 2020, durante a pandemia, a relação entre dívida e PIB recuou até o fim de 2022, quando ficou na casa dos 70%.
Desde então, o indicador voltou a subir. Em junho de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 81,9% do PIB, uma alta superior a 10 pontos percentuais em relação ao fim de 2022.
Segundo o levantamento apresentado por Troyjo, a relação entre dívida e PIB deve continuar avançando nos próximos anos.
O movimento é associado aos déficits nominais elevados e ao custo do serviço da dívida.
Juros aumentam pressão sobre a dívida
A comparação com outras economias emergentes ajuda a dimensionar o problema. Para Troyjo, o caso da China mostra que o tamanho da dívida, isoladamente, não determina o risco fiscal.
Embora a China tenha uma relação dívida/PIB maior, o custo de financiamento é significativamente menor que o brasileiro. Uma dívida mais elevada pode ser administrável quando o governo consegue financiá-la a juros menores.
No Brasil, a combinação de endividamento elevado e juros altos aumenta o custo de carregamento da dívida. Isso amplia a parcela dos recursos públicos destinada ao pagamento de juros.
“Poucas economias combinam simultaneamente dívida elevada, juros reais muito altos e uma das maiores despesas com juros como proporção do PIB”, afirma.
Na avaliação do economista, o custo de carregamento é um dos principais fatores que diferenciam o Brasil dos demais emergentes e ampliam os riscos fiscais.
Sinalização fiscal pode reduzir pressão
Troyjo afirma que uma mudança na trajetória da dívida depende também de uma sinalização política de compromisso com o controle das despesas e com uma reforma do Estado.
“A economia é o que ela é, mais o que as pessoas acham que ela será”, afirma.
Segundo o economista, um compromisso de longo prazo com o ajuste das contas públicas poderia permitir uma correção gradual, sem a necessidade de uma “terapia de choque”.
Sem uma sinalização nesse sentido, investidores podem exigir uma correção mais rápida das contas e cobrar um prêmio maior para financiar a dívida brasileira. O movimento elevaria a pressão sobre os juros e sobre a atividade econômica.
O cenário traçado por Troyjo coloca o Brasil em posição distinta entre as maiores economias emergentes. Enquanto parte dos países analisados apresenta estabilidade ou redução da relação dívida/PIB, o indicador brasileiro segue em trajetória de alta.
