Australiano acampará na mansão de Billie Eilish para testar se ela realmente acredita que “ninguém é ilegal em terra roubada”

Drew Pavlou e Billie Eilish. Foto: Reprodução/GiveSendGo

Depois que a cantora Billie Eilish, 24 anos, sinalizou virtudes ao ganhar um Grammy dizendo que “ninguém é ilegal em terra roubada”, o ativista australiano Drew Pavlou resolveu testar a convicção da artista.

Pavlou, que diz em seu perfil no X ser um “apreciador da civilização ocidental”, “patriota” e seguidor do “pensamento liberal clássico” do líder de Singapura, Lee Kuan Yew, abriu uma vaquinha no site GoFundMe para voar até Los Angeles e acampar próximo à garagem da mansão de Eilish.

A campanha foi derrubada pelo site, então ele abriu outra no concorrente GiveSendGo. Até o momento, ele arrecadou 81% da meta de US$ 6 mil. “Vou para os Estados Unidos na próxima sexta”, anunciou Pavlou na rede social, um dia antes do plano.

O objetivo da missão, segundo a nova vaquinha, é “se mudar para a mansão de Billie Eilish em Malibu”. Pavlou explicou na justificativa da campanha que “tudo aqui é completa e totalmente legal, vou colocar uma barraca na entrada dela e vou sair quando pedirem formalmente que eu saia”.

Mansão de Eilish está em terras historicamente indígenas

Se os Estados Unidos são “terra roubada”, isso com certeza inclui o terreno em que está a mansão de Eilish em Los Angeles. Antes da conquista por europeus, eram terras da tribo Tongva.

Astutamente, o jornal The Daily Mail procurou a tribo para ouvir sua opinião. “Como o primeiro povo da grande bacia de Los Angeles, de fato entendemos que a casa dela está situada em nossa terra ancestral”, responderam porta-vozes da tribo indígena. “Eilish não entrou em contato com nossa tribo diretamente para tratar de sua propriedade”.

Os índios também disseram que apreciaram o comentário da cantora na cerimônia de premiação. Os tongvas também são conhecidos pelo nome dado a eles pelos missionários espanhóis, “gabrielinos”.

No século XVIII, o reino da Espanha afirmou soberania sobre a Alta Califórnia, que inclui a região de Los Angeles. A própria cidade, famosa por abrigar Hollywood, foi fundada com o nome de Pueblo de Los Ángeles em 1781.

Além da força, os espanhóis também usaram a construção de instituições como missões, presídios e pueblos no processo de conquista. Depois da independência em 1821, o México controlou a região. Em 1833, as terras foram transferidas dos missionários franciscanos para autoridades civis mexicanas.

Assim como a coroa portuguesa dividiu o Brasil em capitanias, o México dividiu a Alta Califórnia em ranchos distribuídos para cidadãos mexicanos de elite. Era o estabelecimento de um regime mais claro de propriedade privada.

Os Estados Unidos tomaram a Califórnia do México em uma guerra entre os dois países na primeira metade do século XIX. A transferência das terras foi oficializada no Tratado de Guadalupe Hidalgo, em 1848. A tomada teve seu verniz de legalidade, com os proprietários mexicanos lutando na Justiça por anos. Expulsões sumárias não foram comuns.

Frase besta da cantora ajuda a entender o que é esquerda e como ela erra

Como explico no meu livro “Mais iguais que os outros” (Avis Rara, 2025), com base na obra do psicólogo social Jonathan Haidt (que é de esquerda), a esquerda pode ser entendida como o grupo político que enfatiza desproporcionalmente um entre vários alicerces do pensamento moral.

É o alicerce de oferecer cuidados e evitar danos a grupos escolhidos como “oprimidos”. Dessa forma, quando a esquerda erra, a natureza do erro será previsível por essas prioridades morais.

Ignorar todas as complexidades em torno de propriedade de terras, razões para a existência de fronteiras e a distinção entre imigração legal e ilegal na declaração “ninguém é ilegal em terra roubada” é exatamente isso: paparicar um grupo visto como oprimido ao ponto de isso ser uma tolice.

Fosse Eilish um pouco mais safa na defesa de suas crenças políticas, ela teria evitado o slogan bobo. Mas, sofrendo da febre da sinalização de virtudes, também endêmica na esquerda (mas não exclusiva dela), a jovem cantora preferiu lacrar e se expôs a críticas justas e desafios espertos para que prove coerência, abrigando em sua própria casa seres humanos que não podem ser “ilegais”.

O mito do bom selvagem

Outro componente da fala é um mito favorecido na esquerda desde os tempos de Jean-Jacques Rousseau: o mito do “bom selvagem”. A ideia fantasiosa de que são a civilização e a organização social que fazem o ser humano se comportar de forma imoral e violenta, enquanto nativos de povos organizados de formas mais básicas seriam puros de coração e não corrompidos por essas forças civilizacionais malignas.

A falsidade dessa ideia já foi demonstrada de diversas formas e por autores tão eminentes quanto o psicólogo de Harvard, Steven Pinker, em seu clássico “Tábula Rasa”.

Não precisamos sair de Malibu para ilustrar. Além do domínio histórico tongva, havia também ao norte uma parte dominada pela etnia chumash. Segundo uma reportagem de 1964 no jornal local Los Angeles Times, o missionário franciscano Gerónimo Boscana, famoso por ter produzido as melhores descrições etnográficas dos povos nativos da Califórnia no começo do século XIX, afirmou que as relações entre os chumash, os tongvas e outras etnias da região eram geralmente pacíficas, mas “quando havia uma guerra, era feroz. Não se dava quartel, e não se fazia prisioneiros, exceto os feridos”. Ou seja, não havia misericórdia na guerra entre os índios californianos.

Se alguém vai duvidar da palavra do franciscano por ser um europeu colonizador, temos mais provas arqueológicas de guerra brutal entre povos indígenas.

Um sítio arqueológico importante é o de Crow Creek, na Dakota do Sul. Por lá, o pesquisador da universidade estadual, Larry J. Zimmerman, descobriu com colegas as ossadas de um massacre que vitimizou no mínimo 486 pessoas e aconteceu no século XIV. Ou seja, dois séculos antes de os colonizadores europeus chegarem ao continente.

Há indícios de requintes de crueldade: os perdedores da guerra foram escalpelados, mutilados, com remoção de línguas, dentes quebrados, decapitação, mãos e pés decepados, entre outros louvores à dignidade humana.

Presidente do México também fez sinalização de virtudes em nome dos indígenas

Antes de Claudia Sheinbaum tomar posse como presidente do México, em outubro de 2024, ela resolveu fazer birra contra a antiga metrópole colonizadora. Ela resolveu exigir que a Espanha pedisse desculpas pela colonização e desconvidou o rei do país europeu da cerimônia de posse.

Na época, fiz uma sugestão ao rei da Espanha: que ele exigisse que Sheinbaum pedisse desculpas pelos milhares de sacrificados pela cultura Mexica, parte dos astecas, da qual o México moderno é o melhor representante.

Na capital asteca, Tenochtitlán, havia, por exemplo, uma estrutura descrita pelos primeiros europeus a chegarem lá contendo milhares de caveiras humanas, montadas em uma enorme matriz de 35 x 14 metros no Templo Mayor, ladeada por duas torres também feitas de crânios.

Por anos, militantes e acadêmicos de esquerda do México, especialmente da linha “anticolonialista”, alegaram que os colonizadores estavam mentindo. Mas escavações de 2017 confirmaram os relatos e acharam os crânios. Virou notícia na revista Science.

Outra humilhação aos militantes e acadêmicos veio em 2021, quando escavações revelaram um massacre de cubanos e espanhóis em 1520 feito pelos astecas, com marcas de consumo de sua carne nos ossos e oferta das cabeças aos deuses. Depois, Hernán Cortés retaliou com um massacre contra os indígenas.

Cortés não fica menos vilanesco por isso, mas o massacre antropofágico deveria ter servido como último prego no caixão do mito do “bom selvagem”. É uma pena que o “bom selvagem” seja também um “bom zumbi” nas universidades, pois sempre reemerge da cova para validar narrativas antiocidente dos militantes diplomados.

Então, quando a presidente mexicana vai pedir desculpas? E quando Billie Eilish vai doar sua mansão aos índios? Ou, melhor ainda: quando vamos parar com essa palhaçada de culpar os vivos pelos erros dos mortos?



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