Vitória democrata mexe com mercados globais; Veja os resultados

A vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos deve dificultar a execução da agenda econômica do presidente Donald Trump e pode provocar reflexos nos mercados internacionais, inclusive no Brasil. Com o controle da Câmara e do Senado, a oposição ganha poder para barrar propostas sobre gastos públicos, impostos e regulação, além de ampliar a fiscalização sobre o governo.

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O novo cenário também alterou as expectativas dos investidores. Na manhã desta quarta-feira (4), os títulos do Tesouro americano registraram valorização, enquanto os rendimentos recuaram. O dólar perdeu força diante de outras moedas, e o ouro avançou. Os movimentos refletem a avaliação de que um Congresso controlado pelos democratas pode limitar novos estímulos fiscais e aumentar o impasse político em Washington.

Os democratas conquistaram 228 das 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, acima das 218 necessárias para garantir a maioria. No Senado, o partido assegurou 54 das 100 vagas. A mudança no Legislativo não altera o comando da Presidência, mas modifica o equilíbrio de forças pelos próximos dois anos.

A gestão de Trump chega à nova etapa com desaprovação de 66% dos americanos, segundo pesquisa Reuters/Ipsos. A insatisfação com o custo de vida, os preços dos combustíveis e a condução da guerra com o Irã esteve entre os fatores que marcaram a campanha.

Congresso dividido restringe agenda de Trump

Com a maioria nas duas Casas, os democratas passam a controlar a pauta legislativa e as comissões responsáveis pela fiscalização do Executivo. No Senado, também terão maior influência sobre a análise de indicações presidenciais para cargos do governo e instituições como o Federal Reserve (Fed), banco central americano, e a Suprema Corte.

A oposição poderá dificultar a aprovação de projetos relacionados a gastos públicos, impostos e outras medidas econômicas. Trump, porém, mantém o poder de veto. Para derrubar uma decisão presidencial desse tipo, os parlamentares precisam reunir dois terços dos votos em cada Casa.

A economista Andressa Durão, do ASA, avalia que a mudança no Congresso reduz a capacidade de Trump de aprovar medidas e amplia a fiscalização sobre o governo.

“Um enfraquecimento do Partido Republicano reduziria o poder do presidente para aprovar determinadas medidas e ampliaria a fiscalização sobre o governo.”

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, relaciona o resultado à insatisfação dos eleitores com os preços nos Estados Unidos. Segundo ele, a gasolina está acima de US$ 4 por galão e o diesel supera US$ 6.

Antes da votação, Sung já alertava para o risco de maior volatilidade caso os democratas conquistassem as duas Casas. “O mercado financeiro ainda não considerou plenamente a possibilidade de os democratas conquistarem o controle das duas Casas do Congresso. Se isso acontecer, o impasse entre o governo e o Legislativo e o avanço de pautas de confronto, como discussões sobre um possível impeachment, devem aumentar a volatilidade nos mercados globais”, afirmou.

Dólar e juros entram no radar dos investidores

A reação inicial dos mercados foi de valorização dos títulos do Tesouro americano e recuo dos rendimentos. A taxa dos papéis de dez anos caiu para 4,92%. O índice do dólar recuou 0,5%, para 101,32 pontos, menor nível em mais de um mês.

O ouro também avançou. Os contratos futuros subiram 2,9%, para US$ 4.055,40 por onça. Já o preço à vista registrou alta de 3%, para US$ 4.047,57.

Jim Reid, chefe global de pesquisa macroeconômica do Deutsche Bank, afirmou que a vitória democrata reduziu parte das preocupações com a trajetória fiscal americana. “um governo dividido geralmente dificulta a aprovação de estímulos fiscais”, disse.

A perspectiva de menor expansão dos gastos públicos pode aliviar a pressão sobre os juros de longo prazo nos Estados Unidos. Isso influencia a atratividade dos títulos americanos, que servem de referência para investimentos em diversos países.

Para o Brasil, a movimentação importa porque mudanças nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA podem alterar o fluxo internacional de capitais. Quando os papéis americanos oferecem retornos maiores, investidores tendem a direcionar recursos para os Estados Unidos, reduzindo a disponibilidade de capital para mercados emergentes.

Uma eventual queda dos rendimentos pode favorecer a entrada de recursos em países como o Brasil, fortalecer o real e reduzir as taxas de juros negociadas para períodos futuros. O movimento, porém, depende também da percepção de risco dos investidores e das condições fiscais e políticas brasileiras.

Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, avalia que a vitória democrata pode limitar propostas de aumento dos gastos públicos e reduzir a pressão sobre os juros americanos. Na avaliação do especialista, a oposição também terá mais poder para fiscalizar o governo e influenciar a aprovação de indicações para cargos importantes.

O efeito sobre a bolsa brasileira tende a variar conforme o setor. “Na bolsa, seria desigual: exportadoras podem se beneficiar de um dólar mais alto, mas perder se houver queda das commodities ou da demanda mundial”, diz Praça.

Guerra com o Irã e setor de defesa também reagem

A vitória democrata também abriu questionamentos sobre a continuidade da política externa americana, especialmente em relação à guerra com o Irã. Os investidores passaram a considerar a possibilidade de maior pressão do Congresso sobre os gastos militares e sobre a condução do conflito.

Na manhã desta quarta-feira, os preços do petróleo recuaram. Os contratos futuros do Brent caíram 1,4%, para US$ 102,17 por barril. Ações de empresas do setor de defesa também registraram perdas na Europa.

Ipek Ozkardeskaya, analista sênior da Swissquote, avalia que o novo Congresso poderá usar o controle sobre os gastos para contestar recursos destinados à área militar e pressionar por uma solução diplomática.

“O novo Congresso poderia usar sua influência sobre os gastos para contestar o financiamento militar adicional e aumentar a pressão por uma solução diplomática assim que assumir o cargo em janeiro”, afirma.

Uma eventual redução das tensões no Oriente Médio e a retomada de condições mais seguras para a navegação pelo Estreito de Ormuz poderiam pressionar os preços do petróleo para baixo. O cenário, entretanto, depende dos desdobramentos do conflito e das decisões do Executivo americano, que mantém ampla autoridade em política externa.

Relação entre Lula e Trump adiciona incerteza

A relação entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também permanece no radar dos investidores. A possibilidade de novos atritos comerciais e diplomáticos pode afetar a percepção de risco sobre o Brasil.

O histórico recente inclui o tarifaço imposto por Washington e a aplicação da Lei Magnitsky. A vitória democrata no Congresso pode ampliar a fiscalização sobre novas medidas comerciais do presidente americano, mas não representa o fim automático das tarifas.

Trump ainda pode recorrer a dispositivos da legislação comercial dos Estados Unidos, como as Seções 232 e 301. A primeira permite a adoção de tarifas por razões de segurança nacional. A segunda trata de práticas comerciais consideradas desleais.

Esses instrumentos têm bases legais distintas da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). Em 20 de fevereiro, a Suprema Corte americana derrubou tarifas impostas com fundamento nessa lei, mas a decisão não alcançou as medidas baseadas nas Seções 232 e 301.

O impacto das eleições americanas sobre o Brasil se soma aos fatores internos na formação do câmbio. Após as oscilações do período eleitoral brasileiro, o dólar voltou à faixa de R$ 5,40.

Gustavo Sung atribui parte da alta ao fortalecimento global da moeda americana e à mudança nas expectativas sobre os juros nos Estados Unidos. O economista também relaciona o movimento à reação dos investidores ao resultado da eleição presidencial brasileira.

“O Brasil estava na contramão após o primeiro turno das nossas eleições. Com a vitória do presidente Lula e a frustração das apostas do mercado, o dólar voltou a subir”, afirmou.

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