A TV Justiça, comandada pela jornalista Jaqueline Paiva, escondeu deliberadamente o ministro André Mendonça durante a sessão de ontem do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). A reportagem identificou ao menos quatro momentos de embates com outros ministros em que a câmera desviou-se de Mendonça para mirar em Edson Fachin, presidente da Corte, ou para manter o foco em seus agressores.
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A reportagem cronometrou que Mendonça, enquanto esteve com a palavra, foi vetado na tela por 18 minutos e 20 segundos. A TV Justiça sonegou ao espectador momentos importantes, como quando o relator do caso Master reage a acusações de Alexandre de Moraes, classificando suas falas como mentirosas. Da mesma forma, ele ficou fora do enquadramento da TV quando num embate com Gilmar Mendes.
A câmera chega a focar em Mendonça por 2 segundos, depois volta no decano e nele permanece, enquanto a voz do ministro evangélico é ouvida apenas em ‘off’. Ele pede respeito diante das ofensas do decano, mas sua imagem não aparece. Em outro momento, diz que Gilmar estava sendo leviano ao acusá-lo de conduzir o inquérito com objetivo político-eleitoral. De novo, ele não aparece e só ouvimos sua voz.
Mais tarde, durante novo bate-boca com Moraes, a câmera se desloca para Fachin durante a fala de Mendonça. Ao final da sessão, novamente a TV Justiça enquadra o presidente do STF durante a fala do ministro. Situação semelhante, ainda que em menor proporção, foi verificada com Luiz Fux durante embate com Gilmar Mendes. Ao reagir a acusações do decano, o ministro subiu o tom e foi logo retirado da tela.
Durante as mais de 5 horas de transmissão, são raras as vezes em que a emissora usa o tradicional enquadramento geral do plenário, que permite à audiência assistir às interações dos ministros e dos convidados.
Assista:
TV Justiça escondeu Mendonça e manipulou cortes de falas de ministros
Toda vez que tinha um embate, vocês focavam em quem estava agredindo o André Mendonça e, na hora dele responder, vocês omitiam a imagem dele”, afirmou Dantas. pic.twitter.com/3Di8ywRrbl
— Portal Claudio Dantas (@PortaldoDantas) September 16, 2026
HISTÓRICO PETISTA
A emissora oficial do STF é comandada desde o início do ano por Jaqueline Paiva, nomeada por Edson Fachin. Ela tem um longo histórico de serviços prestados ao PT. Foi secretária-adjunta de Imprensa da Presidência da República na gestão Dilma Rousseff, quando criou o podcast Café com a Presidente, no qual a petista comentava notícias e decisões de maneira informal, interagindo com o público.
Também foi coordenadora de telejornais da EBC no segundo mandato de Lula, período em que seu nome esteve envolvido em denúncia do jornalista Luiz Lobo, que alegou interferência política no telejornal Repórter Brasil. Ele pediu demissão acusando a emissora de censura e direcionamento da cobertura politica. Jaqueline negou as acusações e processou Lobo por injúria. O Conselho Curador da EBC abriu apuração sobre o caso, mas não houve divulgação do resultado.
No segundo mandato de Dilma, a jornalista assumiu a comunicação da Autoridade Pública Olímpica. Também foi chefe da assessoria de imprensa da Presidência da Câmara dos Deputados, na gestão de Aldo Rebelo, então no PCdoB.
Jaqueline estreou na Esplanada em 2004, na então Secretaria de Coordenação Política e Relações Institucionais da Presidência, comandada por José Dirceu, também chefe de seu marido, o também jornalista Nelson Breve, assessor histórico do ex-ministro condenado no mensalão e no petrolão — e que agora tenta um novo mandato de deputado.
A reportagem pediu esclarecimentos à Secretaria de Comunicação do STF, mas não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
