A Polícia Federal (PF) apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) contratos, documentos e movimentações financeiras que embasaram o pedido de busca e apreensão contra o deputado federal Mário Frias (PL-SP). A investigação apura possíveis irregularidades na aplicação de emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, produtora do filme Dark Horse.
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Entre os principais elementos estão cotações de preços com textos idênticos, fornecedores com vínculos entre si, pagamentos sem comprovação suficiente dos serviços e documentos com datas incompatíveis.
Em um dos contratos analisados, no valor de R$ 400 mil, o ICB apresentou três orçamentos, da Dinâmica Editora, HD Cultural e NTT Editora. Segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), os documentos tinham a mesma estrutura e redação, enquanto as empresas mantinham relações societárias ou comerciais entre si.
A CGU apontou ainda uma inconsistência temporal: a nota fiscal da Dinâmica foi emitida em 24 de fevereiro de 2025, mas o orçamento correspondente apresentava metadados de criação em 26 de fevereiro. O contrato só foi formalizado posteriormente, após cobrança do órgão.
Também foram apontados problemas na execução do projeto. Materiais teriam sido entregues 465 dias após a emissão da nota fiscal, fora do período de vigência do termo de fomento. Em vistoria, a CGU encontrou quantidade insuficiente de exemplares para completar os kits previstos.
Relações entre fornecedores
A investigação identificou ainda fornecedores com vínculos pessoais ou profissionais com pessoas próximas a Mário Frias.
A LF&P Consulting, contratada com recursos de emenda, pertence a Fábio Lago Meirelles, advogado que atua em processos envolvendo o deputado. Outro contratado, Rudyge Alex Scatolini Boldrini, aparece como doador da campanha de Frias e teria aberto um MEI pouco antes da contratação.
Movimentações e o filme Dark Horse
As informações financeiras obtidas pela investigação também levaram a PF a analisar transferências entre empresas ligadas ao ICB e à produtora Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse.
Segundo o relatório, a Go Up recebeu R$ 750 mil da NTT Brasil, empresa ligada ao grupo empresarial investigado nos contratos do ICB. No mesmo período, a produtora recebeu R$ 645,4 mil do próprio Mário Frias.
A PF considerou relevante o valor transferido pelo deputado diante de seus rendimentos mensais declarados, de R$ 44.008,52. A investigação também registrou que a Go Up movimentou R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período que coincide parcialmente com as gravações do filme em São Paulo.
Os investigadores levantam a hipótese de que recursos originalmente destinados a contratos executados pelo ICB tenham circulado por empresas da mesma rede antes de chegar à Go Up. O relatório, porém, trata essa conexão como hipótese investigativa ainda em apuração.
Decisão de Dino
Na decisão, o ministro do STF Flávio Dino afirmou que as “fundadas razões” para autorizar as buscas estavam demonstradas na representação policial.
A investigação aponta possíveis crimes relacionados ao desvio de recursos públicos, falsidade documental, lavagem de dinheiro e organização criminosa. As hipóteses ainda serão apuradas.
Dino autorizou buscas contra Frias, Karina Gama e outros investigados, além de medidas contra empresas e entidades relacionadas ao caso. O ministro também determinou a suspensão das atividades do ICB e da Academia Nacional de Cultura (ANC) e avocou uma investigação que tramitava em São Paulo sobre contratos do instituto para implantação de wi-fi público.
As medidas têm caráter cautelar e buscam reunir novas provas sobre a origem, a aplicação e o destino dos recursos investigados.
