Um número de telefone atribuído ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em registros extraídos do celular do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, também aparece associado ao nome do magistrado em diferentes serviços digitais. O telefone foi relacionado ainda a um perfil no TikTok identificado como “Xandao”, segundo apuração da BBC News Brasil.
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A identificação consta em relatório da Polícia Federal com mais de 200 páginas, tornado público na terça-feira (1º) por determinação do ministro André Mendonça. O documento, porém, não afirma de forma expressa que o número pertence a Moraes. No aparelho de Vorcaro, o contato estava salvo com diferentes identificações, entre elas “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”.
Segundo a PF, o número chegou a Vorcaro após ser compartilhado pelo ex-ministro Fábio Faria em uma conversa pelo WhatsApp, em 26 de dezembro de 2023. A partir daí, o contato foi armazenado no celular do empresário.
O relatório descreve as conversas recuperadas como “possíveis interações” entre Vorcaro e o contato atribuído ao ministro. Entre os assuntos mencionados pelos investigadores estão a Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes envolvendo o Banco Master, e questões relacionadas à prisão preventiva do banqueiro.
Número aparece em serviços digitais
A BBC News Brasil submeteu o telefone identificado no relatório da PF a uma plataforma de investigação de fontes abertas, conhecida como OSINT. O levantamento encontrou quatro associações digitais relacionadas ao número.
No TikTok, o telefone aparece vinculado a uma conta chamada “Xandao”. O perfil foi criado em 2024 e, segundo a ferramenta consultada, não teve atividade posterior ao cadastro. A conta possui três seguidores e segue apenas um perfil, pertencente a uma filha de Moraes.
A apuração também identificou que Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, e a mesma filha seguem o perfil. A conta permanecia disponível na plataforma até a publicação da reportagem.
Outro cruzamento feito pela BBC apontou que o perfil de Viviane Barci que acompanha a conta “Xandao” também aparece associado ao número de telefone que consta no relatório da PF como sendo utilizado por ela.
O telefone atribuído a Moraes foi localizado ainda em três serviços de identificação e busca reversa de números: SimplerMe, Calling App e Truecaller. Nos três sistemas, o contato aparece relacionado ao nome “Min. Alexandre de Moraes”. Uma nova consulta em outro serviço semelhante apresentou o mesmo resultado.
Essas plataformas reúnem informações disponíveis publicamente ou fornecidas por usuários para estabelecer possíveis vínculos entre números telefônicos, nomes e contas. No caso do Truecaller, por exemplo, a associação pode ocorrer a partir de identificações feitas pelos próprios usuários.
Segundo Nathaniel Fried, CEO da plataforma, os dados utilizados são provenientes de fontes abertas e informações compartilhadas voluntariamente.
O gabinete de Moraes foi procurado para comentar as associações, mas não havia respondido até a publicação da reportagem.
PF recuperou apenas parte das conversas
A perícia realizada no celular de Vorcaro conseguiu reconstruir parte das conversas, mas não recuperou as respostas enviadas pelo outro interlocutor.
De acordo com o relatório, Vorcaro costumava escrever mensagens em um aplicativo de notas do iPhone, fazer uma captura de tela e encaminhar a imagem pelo WhatsApp usando o recurso de visualização única. Esse procedimento fazia com que a mensagem não permanecesse registrada como um texto convencional.
Os investigadores encontraram no aparelho arquivos temporários correspondentes às capturas de tela. Parte deles havia sido apagada minutos depois da criação, mas acabou recuperada durante a perícia.
A PF cruzou os horários de elaboração das mensagens, criação das imagens, geração dos arquivos temporários e envio pelo WhatsApp para reconstruir a sequência das interações.
Como apenas o celular de Vorcaro foi apreendido, não havia no material periciado os arquivos correspondentes ao aparelho da outra pessoa envolvida na conversa. Por isso, as respostas atribuídas ao interlocutor não puderam ser recuperadas da mesma forma.
Contrato de R$ 131 milhões
As mensagens também chamaram a atenção dos investigadores para o contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes.
Em fevereiro de 2024, Vorcaro cobrou do cunhado, Fabiano Zettel, o contrato assinado e perguntou quando ocorreria o primeiro pagamento.
No mesmo dia, o tesoureiro do Master, Ângelo Silva, encaminhou ao banqueiro o comprovante de uma transferência de R$ 3,42 milhões para uma conta do escritório Barci de Moraes no Banco Itaú.
Vorcaro passou então a cobrar funcionários do banco para que os pagamentos fossem realizados sem atrasos. Em uma das mensagens, afirmou que o contrato era o “mais importante” do banco e determinou que os pagamentos fossem mantidos em dia.
Em outra conversa, orientou uma funcionária a colocar os pagamentos sob controle e escreveu: “Pode pagar sempre, sem nota.” Na sequência, acrescentou: “Do jeito que for.”
A investigação também apontou, a partir dos metadados do arquivo do contrato, que o documento teria sido editado por Moraes.
Escritório diz que consultou o ministro
O escritório Barci de Moraes afirmou que seu setor de compliance consultou Alexandre de Moraes antes da contratação para verificar se havia algum impedimento legal relacionado ao vínculo familiar entre o ministro e Viviane Barci de Moraes.
Segundo a banca, a análise buscou identificar eventual atuação de Moraes em processos do Banco Master no STF ou participação em julgamentos de interesse da instituição.
O escritório afirma que não encontrou impedimento e sustenta que o ministro “jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master”.
“Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”, afirmou a banca.
O caso está inserido na crise que envolve o Banco Master e que passou a alcançar integrantes do Judiciário e da Procuradoria-Geral da República. O ministro André Mendonça é o relator das investigações no Supremo.
