O presidente Lula (PT) afirmou que questionou Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, por não ter recorrido a ele diante dos problemas financeiros que, segundo a versão do ex-chefe de gabinete, levaram ao empréstimo de R$ 249 mil feito pela lobista Roberta Luchsinger.
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“Eu disse pra ele, cara, eu sou quase que nem seu pai. Por que você não falou comigo? Por que você não falou comigo do problema que você estava tendo?”, declarou Lula em entrevista ao Jornal Nacional.
A declaração ocorreu após o presidente ser questionado sobre pagamentos de despesas pessoais, boletos, parcelas de financiamento de um carro e joias que teriam sido custeados por Roberta enquanto Marcola ocupava a chefia de gabinete da Presidência. Lula classificou a relação como inadequada e disse que o ex-assessor sabia que não deveria ter mantido esse tipo de vínculo com uma lobista interessada em negócios com o governo.
“Não é adequado. É totalmente errado”, afirmou.
Apesar da crítica, Lula disse acreditar, por enquanto, na explicação apresentada por Marcola de que os R$ 249 mil foram resultado de um empréstimo pessoal posteriormente quitado.
“Eu, por enquanto, acredito na versão dele de que foi empréstimo”, declarou.
Lula afirmou ainda que Marcola terá de responder caso a investigação conclua que houve irregularidade. Segundo o presidente, a proximidade pessoal não será utilizada para impedir a responsabilização.
“Agora, ele cometeu o erro e pagará pelo erro que cometeu. É isso que vai acontecer.”
Em outro trecho, Lula reconheceu que o caso atinge diretamente sua imagem por envolver alguém que ocupava uma posição de confiança no Palácio do Planalto.
“Leva suspeita e ele leva desconfiança para mim, porque o Marcola era meu chefe de gabinete.”
Ao mesmo tempo, o presidente defendeu a função exercida por Marcola e afirmou que cabia ao então assessor encaminhar aos ministérios demandas de pessoas que procuravam o governo.
“Qualquer pessoa que chegar na Presidência da República, conseguir audiência com ele para pedir uma audiência com alguém, o papel dele é encaminhar para o ministério.”
Questionado sobre se a relação entre Marcola e Roberta poderia caracterizar crime, Lula afirmou que o ponto decisivo seria a existência de recursos públicos envolvidos.
“Essa mulher conseguiu liberar o dinheiro que ela disse que estava atrás? Ela conseguiu liberar? Tem prova de que esse dinheiro é público? Porque aí é que está o crime.”
O presidente disse que não pretende antecipar o resultado da investigação e criticou o que classificou como conclusões baseadas em acusações ainda não julgadas.
“Eu não gosto de fazer pirotecnia com acusações sem que você termine o inquérito.”
Lula afirmou que todos os envolvidos devem passar pelo mesmo processo: investigação, seguida de eventual absolvição ou condenação.
“Todos eles, todos eles que foram citados, todos eles que participaram, o caminho é um só. É o caminho da apuração, da investigação ou da inocência ou da condenação se tiver cometido crime.”
O que a PF encontrou sobre Marcola
A Polícia Federal investiga a relação de Marcola com Roberta Luchsinger no âmbito das apurações que também atingem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Mensagens encontradas no celular da empresária mostram que ela mantinha interlocução com o então chefe de gabinete enquanto buscava avançar em negócios com órgãos do governo.
Um dos elementos analisados pela PF é uma minuta de contrato enviada por Roberta a Marcola para a venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. O documento previa uma contratação sem licitação e fazia parte de uma proposta estimada em até R$ 626 milhões. O negócio não chegou a ser concretizado.
Marcola confirmou a interlocutores que recebeu o documento, mas afirma que não o encaminhou a integrantes do governo. A defesa sustenta que ele não praticou qualquer ato para beneficiar Roberta ou seus clientes.
A empresária, por sua vez, é investigada pela PF por sua atuação na tentativa de abrir portas no governo para negócios relacionados ao empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Segundo a investigação, Roberta recebeu R$ 1,5 milhão de Antunes para atuar na intermediação de negócios.
Pagamentos e presentes
A relação financeira entre Roberta e Marcola também entrou no radar dos investigadores. Segundo a PF, a empresária teria arcado com cerca de R$ 217 mil em despesas pessoais do então chefe de gabinete, incluindo faturas de cartão, financiamento de veículo e presentes. Marcola afirma que o valor recebido foi um empréstimo pessoal e que devolveu R$ 249 mil à empresária.
Mensagens obtidas pela investigação também registram um pedido de Marcola a Roberta por um quadro avaliado em 100 mil euros. O episódio integra o conjunto de conversas analisadas pela PF para compreender a natureza da relação entre os dois.
Elo com Lulinha
A apuração sobre Marcola se conecta às investigações envolvendo Lulinha porque Roberta também mantinha contato direto com o filho do presidente. Em mensagens analisadas pela PF, ela tratava de negócios e buscava apoio para acessar integrantes do governo.
Em uma das conversas, Lulinha mencionou reuniões com Marcola e com Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, então secretário-executivo do Ministério da Saúde. A PF investiga se a proximidade de Lulinha com integrantes do governo foi utilizada para facilitar negócios privados.
Lulinha é alvo de três inquéritos relacionados a suspeitas de tráfico de influência. Uma das frentes investiga justamente tentativas de negócios envolvendo canabidiol e o Ministério da Saúde.
