O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) abriu oficialmente sua candidatura à Presidência da República neste domingo (16), em ato na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, com um discurso concentrado no enfrentamento ao crime organizado. No mesmo dia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lançou a campanha à reeleição em São Bernardo do Campo (SP), em evento que reuniu militantes transportados por comboios de ônibus fretados pelo partido.
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“Vou ser o próximo presidente da República porque vou enfrentar esse sistema”, declarou Flávio perante apoiadores no Rio. O senador prometeu classificar o PCC, o Comando Vermelho e as milícias como organizações terroristas: “Vou resgatar a soberania do Brasil porque vou tratar PCC, Comando Vermelho e milícia como terroristas.”
Em Copacabana, Flávio associou o discurso sobre segurança pública à disputa por soberania nacional, tema já explorado pelo campo governista. “O atual governo briga com país em outro continente, mas não briga com ladrão de celular”, afirmou o senador, completando: “Não temos soberania sobre nosso próprio celular.”
O ato do PL reuniu ainda o candidato a vice Alfredo Gaspar, o postulante ao governo do Rio Douglas Ruas, os candidatos ao Senado Carlos Portinho e Carlos Jordy, o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, e o coordenador de campanha, senador Rogério Marinho. A ausência do ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, marcou o tom do evento: um áudio antigo do ex-presidente foi reproduzido durante o ato, e apoiadores entoaram repetidamente o coro “volta, Bolsonaro”.
Flávio se emocionou ao comentar a comparação com o pai: “É difícil comparar o Pelé com o filho do Pelé, mas estou aqui com toda humildade.” O senador também prestou homenagem à mulher, Fernanda Bolsonaro, presente no palco: “Você não é apenas a mulher que está ao lado de um grande homem. Você é a minha espinha dorsal.”
Mobilização por ônibus sustenta ato do PT
A militância que lotou o Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, chegou em grande parte por meio de caravanas organizadas pelo PT. Somente nas sete cidades do Grande ABC, a legenda previu a saída de cerca de 150 ônibus com destino ao estádio, segundo a secretária estadual de Finanças do PT-SP, Cilene Óbice. Comboios adicionais foram mobilizados do Rio de Janeiro, do Paraná e de outros estados, com apoio das siglas aliadas PCdoB, PV, PSB, PDT, PSOL e Rede.
O acesso ao evento petista, batizado “Onde Tudo Começou”, ficou restrito a convidados e credenciados por sindicatos e diretórios ligados ao partido. Ainda assim, imagens aéreas divulgadas durante o próprio ato mostraram setores vazios nas arquibancadas e trechos do gramado cobertos por bandeirões. A movimentação intensa de ônibus provocou alterações no trânsito na Avenida Pery Ronchetti, nas proximidades do estádio.
Um grande movimento de ônibus fretados foi registrado na manhã deste domingo (16) na região do Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, durante a chegada de apoiadores para o evento de abertura da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).… pic.twitter.com/SDP4vOyxgA
— Rádio Bandeirantes (@RBandeirantes) August 16, 2026
Lula e a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, chegaram ao local de helicóptero — decisão que gerou repercussão negativa nas redes sociais, com internautas ironizando o contraste entre o desembarque aéreo e o discurso de reconexão do petista com sua base sindical no ABC paulista.

No palco, coube a Janja o papel de maior destaque do lançamento petista. A primeira-dama dedicou parte de sua fala a Marisa Letícia, ex-mulher de Lula morta em 2017, atribuindo a ela e a outras mulheres um papel decisivo nos bastidores das greves do fim dos anos 1970: “Eram o alicerce para que seus maridos, sob a liderança desse homem que virou presidente, pudessem lutar por melhores salários e mais dignidade para suas famílias.”
A declaração ocorre um mês depois de Janja afirmar, em entrevista ao programa Frente a Frente, que o Brasil “nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente” antes dela.
Jingle gospel e letra que ignora condenações

Antes do discurso de Lula, Janja apresentou um videoclipe de cerca de três minutos, intitulado “Tapete Vermelho”, cantado ao lado do pastor e cantor gospel Kleber Lucas. A canção narra a trajetória do petista da infância ao retorno ao poder, mas não faz qualquer menção às condenações e aos escândalos de corrupção enfrentados por Lula ao longo da carreira. Um dos trechos diz: “Voltou das cinzas, voltou da prisão / com a mesma força, a mesma paixão / não é só um homem, é a voz que não calou / é o amor do povo que nunca se rendeu.”
Kleber Lucas concorre como segundo suplente na chapa de Benedita da Silva (PT) ao Senado. O pastor, autor de sucessos do gospel como “Deus Cuida de Mim” (1999), já havia apoiado publicamente a candidatura de Lula em 2022, quando também gravou jingle de campanha para o petista. Integrou ainda o grupo de cultura da equipe de transição do governo iniciado em 2023.
No discurso, Janja voltou a exaltar o papel das mulheres na militância e na vida doméstica: “Cada uma de nós é muita coisa, somos mães, filhas, avós, tias, estudantes, professoras, empreendedoras, doutoras, mães solo, chefe de família, base de sustenção da nossa casa, financeira e emocionalmente. Somos quem segura as pontas, somos muitas em uma, e não só mais uma porque nunca estamos sozinhas. Nossa luta, das mulheres, sempre foi coletiva, nos fortalecemos em casa, no trabalho, na comunidade. Juntas somos um horizonte infinito.”
O lançamento da campanha à reeleição ocorre em meio a inquéritos que atingem o entorno do presidente. Lulinha, filho de Lula, é investigado por suspeita de tráfico de influência em negócios privados ligados ao governo federal. O petista, que tenta o quarto mandato aos 80 anos, também administra um governo marcado por juros e inflação elevados, aumento do endividamento das famílias e alta da carga tributária — pano de fundo que a canção apresentada por Janja não menciona.
