O Instituto Veritá, responsável pelo maior número de pesquisas eleitorais nas eleições de 2022, já teve levantamentos suspensos pela Justiça Eleitoral neste ano em 13 estados e no Distrito Federal. Na quarta-feira (12), decisões dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) do Rio Grande do Norte e de Sergipe impediram a divulgação de novas sondagens do instituto para os cargos de governador e senador.
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As decisões apontaram divergências entre a composição das amostras utilizadas pelo Veritá e o perfil do eleitorado dos dois estados. Entre os problemas identificados estão a super-representação de eleitores com maior escolaridade e renda.
No Rio Grande do Norte, o levantamento incluía 34% de entrevistados com ensino superior, enquanto o cadastro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta índice de 13,73%. A pesquisa também atribuía 25% da amostra à faixa de maior renda, proporção apontada como o dobro da registrada em levantamentos de outros institutos.
A decisão do TRE-RN ainda estabeleceu multa superior a R$ 58 mil por reincidência. O instituto já havia sido impedido de divulgar pesquisas anteriores no estado por questionamentos semelhantes. Em junho, o TRE-RN também suspendeu outras pesquisas do Veritá por inconsistências metodológicas e falhas nos registros.
Em Sergipe, o Veritá atribuiu 31,1% da amostra a eleitores com ensino superior completo ou incompleto. O percentual supera os 19,2% indicados pela PNAD Contínua de 2025 e os 12,82% registrados pelo TSE para o eleitorado sergipano.
O TRE-SE proibiu a divulgação da pesquisa registrada em 7 de agosto. Mesmo assim, segundo o levantamento citado pela reportagem, um novo estudo com critérios semelhantes foi registrado na quarta-feira (12), com previsão de divulgação na semana seguinte.
Falhas na metodologia
Parte dos questionamentos judiciais envolve a forma como o instituto realiza suas entrevistas. As pesquisas do Veritá são feitas por telefone, mas decisões de tribunais eleitorais apontaram falta de informações sobre a origem, seleção e abordagem dos contatos utilizados.
Na Paraíba, por exemplo, a Justiça Eleitoral considerou insuficiente o detalhamento apresentado inicialmente sobre o método de coleta. Depois de informar que utilizaria entrevistas telefônicas, o instituto não teria especificado como selecionava os números, como evitava duplicidades ou como confirmava o domicílio eleitoral dos entrevistados.
No Tocantins, uma decisão apontou problemas na indicação da fonte pública utilizada para a composição da amostra. O tribunal classificou a falha como “vício substancial, porque obstaculiza a fiscalização externa (controle social) e ofende o dever de transparência”.
O levantamento citado ainda apresentava uma inconsistência cronológica: a coleta ocorreu entre 29 de março e 4 de abril, enquanto a divulgação havia sido prevista para 3 de abril, antes do encerramento das entrevistas.
Distribuição da amostra também é questionada
O Veritá informa ao TSE que utiliza o método probabilístico PPT, ou Probabilidade Proporcional ao Tamanho. Pela metodologia declarada, a amostra deveria refletir a distribuição do eleitorado de cada estado.
Decisões judiciais, porém, questionaram a distribuição geográfica das entrevistas.
No Espírito Santo, 42,13% das entrevistas foram concentradas em Vitória, embora a capital represente 8,89% do eleitorado estadual. Serra e Vila Velha, que estão entre os maiores colégios eleitorais capixabas, não tiveram entrevistas registradas no levantamento citado.
No voto, o jurista Hélio João Pepe de Moraes afirmou:
“a concentração de quase metade da amostra na Capital não é obra da aleatoriedade, mas decorrência de escolha no desenho da coleta”.
Questionamentos semelhantes apareceram em processos de Sergipe, Pernambuco e Paraíba. Nesses casos, a Justiça apontou que os questionários telefônicos não registravam informações como bairro, endereço ou setor censitário dos entrevistados.
Dados duplicados no Amazonas
No Amazonas, a Justiça Eleitoral suspendeu a divulgação de uma pesquisa depois que uma análise forense contratada pelo PSD apontou cerca de 380 pares consecutivos de linhas idênticas em todos os 28 campos da planilha pública apresentada pelo instituto.
Segundo a decisão, os registros duplicados correspondiam a 62% da amostra declarada, de 1.220 entrevistas. As linhas repetiam as mesmas respostas para as 23 perguntas do questionário.
A relatora Maria Auxiliadora dos Santos Benigno considerou o padrão incompatível com a metodologia apresentada pelo instituto:
“A magnitude do padrão descrito – 62% da amostra declarada com registros duplicados em série – é incompatível, em qualquer juízo de verossimilhança, com o funcionamento de uma unidade automatizada de reconhecimento de voz realizando entrevistas independentes, tal como a metodologia declarada descreve”
A planilha também apresentava a coluna destinada aos números de telefone vazia. A ausência foi apontada como incompatível com o relatório do próprio Veritá, que informava ter auditado 20% das entrevistas telefônicas.
Questionários com candidatos inelegíveis
As contestações também envolvem o conteúdo dos questionários.
No Distrito Federal, a Justiça Eleitoral suspendeu uma pesquisa após considerar que perguntas anteriores sobre a Operação Dracon e o Banco Master poderiam induzir o entrevistado a uma avaliação negativa da governadora Celina Leão.
A relatora Leonor Aguena apontou que a sequência das perguntas poderia produzir “enviesamento metodológico nítido”, ao apresentar questionamentos desabonadores sobre a governadora antes da pergunta sobre sua avaliação pelos eleitores.
No Espírito Santo, o instituto incluiu os prefeitos Euclério Sampaio, de Cariacica, e Arnaldinho Borgo, de Vila Velha, em cenários para a disputa pelo governo estadual. A pesquisa foi realizada depois do prazo de desincompatibilização dos dois.
A Justiça Eleitoral considerou que a inclusão criou um cenário que não correspondia às condições jurídicas da disputa e apontou que a conduta “compromete a integridade e a transparência da pesquisa eleitoral, criando um cenário de disputa eleitoral fictício”.
No Mato Grosso do Sul, o instituto incluiu Simone Tebet como candidata ao Senado pelo MDB depois de ela ter se filiado ao PSB de São Paulo. A divulgação chegou a ser suspensa, mas a decisão foi posteriormente revertida.
Contestação em 18 estados
Segundo levantamento citado na reportagem, houve 18 estados com contestações judiciais contra pesquisas do Veritá em 2026. Em apenas Maranhão e Paraná o instituto não teria sofrido, até então, uma proibição de divulgação.
O número de decisões e processos não significa, porém, que todas as contestações tenham resultado em proibição definitiva. O próprio instituto afirma que parte das decisões foi posteriormente revertida.
O PollsterGraph, agregador de pesquisas da AtlasIntel citado pela reportagem, colocou o Veritá na 72ª posição entre os institutos com melhor desempenho nas eleições anteriores.
O que diz o Veritá
O proprietário do instituto, Adriano Silvoni, afirmou que não poderia atender à reportagem e encaminhou uma manifestação por mensagem.
“Se quiser contar que das [sic] mais de 200 registros teve mais de 50 impugnações e dessas mais de 70% revertidas. Cada juiz e cada tribunal está tendo um entendimento. Tem TREs legislando inclusive sobre pesquisa de presidente que não é competência deles. Da nossa parte, agente [sic] não espera muito menos que isso, o instituto é independente e o que mais faz pesquisas por iniciativa própria, muitas UFs agente [sic] tem pedidos de impugnação de todos os candidatos.
No final agente [sic] mostra e acerta. Como 2018 só nos acertamos, primeiro turno de 2022 mesma coisa. Segundo turno melhor eu não te contar o que vi. Sobre 2024, fomos o primeiro a mostrar que Pablo estava na briga, ele só ficou fora por conta de um laudo. Segundo turno de 2024 fomos o único a fazer as 51 cidades que teve segundo turno. E acertamos 49 de 51. Sem contar 2010/2014/2016. Estamos tranquilos porque temos metodologia sólida, testada e previsões precisas. ‘Temos história’“.
O Veritá mantém pesquisas eleitorais de 2026 disponíveis em seu próprio portal, incluindo levantamentos estaduais e nacionais.
