Documentos enviados à CPMI do INSS indicam que uma conta do grupo J&F, dos irmãos Wesley e Joesley Batista, transferiu R$ 55,7 milhões a empresas ligadas a Danilo Trento, investigado por supostos desvios em aposentadorias por meio de descontos associativos.
Segundo análises do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), os repasses ocorreram em cinco transações entre dezembro de 2024 e abril de 2025, período de funcionamento do programa Meu INSS Vale+.
O relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar, afirma que há indícios de que Trento teria atuado para aproximar representantes do PicPay da cúpula do INSS na criação do programa.
“Chama atenção, ainda, a coincidência de datas entre os repasses e o surgimento do programa Meu INSS Vale+, aparentemente estruturado sob medida para o PicPay, com instruções normativas assinadas por Stefanutto, então presidente do INSS”, declarou.
À época, o INSS era presidido por Alessandro Stefanutto, preso em novembro de 2025 em operação da Polícia Federal que apurou descontos ilegais em aposentadorias.
Programa suspenso
O Meu INSS Vale+ permitia a antecipação de parte do benefício previdenciário. Funcionou de dezembro de 2024 a maio de 2025 e foi encerrado em agosto.
Durante o período, 341.100 pessoas aderiram ao programa, com antecipações que somaram R$ 252,5 milhões. O Portal da Transparência aponta que o INSS pagou R$ 110,5 milhões ao PicPay.
Embora três instituições tenham sido habilitadas, apenas o PicPay realizou operações. A suspensão ocorreu após denúncia da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), que questionou a base jurídica do programa e apontou cobrança de taxas não previstas na norma.
O presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, declarou à CPMI:
“Esse programa não tem previsão de desconto na lei, ele não tem nenhuma forma de sustentabilidade, até mesmo pela questão do autoendividamento. Se tirar mais R$450 dele, ele não tem dinheiro para sobreviver ao final do mês. É um programa que não tem previsibilidade”.
Ele também afirmou:
“Fomos analisar tudo, e a gente se depara com esse programa chamado Vale+. O programa Vale+ é um adiantamento que foi elaborado pelo INSS, primeiramente em novembro e depois reformado em fevereiro. A instituição começa a cobrar taxa, algumas taxas que chegavam até 10% do valor emprestado. Ou seja, essa taxa nada mais é do que juros embutido”.
Minutas e trocas de e-mails
Documentos obtidos pela comissão mostram que o PicPay procurou a presidência do INSS em agosto de 2024 oferecendo produto de “antecipação salarial”.
Em novembro, servidores do órgão elaboraram minuta alterando norma interna para permitir a antecipação. O texto citava debates com “representantes da iniciativa privada (PIC PAY e ZOOM CARD)”.
Parte dos valores repassados pela J&F — R$ 19,2 milhões — foi enviada à T5 Participações, empresa de Trento. Outros R$ 36,5 milhões foram destinados à CCT Consultoria e Gestão S/A, também ligada ao investigado.
A Controladoria-Geral da União (CGU) identificou irregularidades em entidades associativas relacionadas a descontos indevidos, incluindo a Associação de Aposentados do Brasil.
O PicPay afirmou, em nota, que o “Programa Meu INSS Vale + era uma opção de antecipação de parte do benefício dos aposentados, não realizava descontos”.
O caso também é objeto de inspeção autorizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que acompanha a devolução de valores cobrados a título de tarifas.