Uma semana de Epstein Files: autópsia, repercussões, pânico moral e linha do tempo

Este texto complementa a compilação das principais revelações que publicamos na segunda-feira (2).

No grande lote de documentos liberado no dia 30 de janeiro pelo Departamento de Justiça americano sobre o financista e criminoso sexual Jeffrey Epstein, é possível ver imagens sem censura de seu cadáver.

O relatório de autópsia

As imagens estão em uma apresentação de 17 páginas, com título “Investigação da morte de Jeffrey Epstein”, produzida pelo escritório do FBI em Nova York.

Proeminentemente, no pescoço de Epstein, há a marca de pressão do pedaço de tecido de roupa de cama que ele teria usado para tirar a própria vida. Há trechos do relatório de autópsia do médico legista que examinou o corpo e fotos da glândula tireoide de Epstein que mostram fraturas em suas duas extremidades (cornos). O osso hioide, também localizado no pescoço, tem uma fratura em uma de suas extremidades.

“Causa da morte: enforcamento. Modo de morte: suicídio (enforcou-se)”, conclui o legista.

Confira no fim do artigo uma linha do tempo dos eventos até a morte fornecidos na apresentação, junto com a linha do tempo dos principais acontecimentos em torno dos crimes de Epstein.

Irmão de Epstein alegou que lesões são consistentes com enforcamento homicida; especialista discorda

Os detalhes técnicos da autópsia foram objeto de controvérsia em 2019, quando Mark Epstein, irmão de Jeffrey, contratou o patologista forense Michael Baden, que alegou que as fraturas na tireoide e no hioide eram “incomuns no suicídio por enforcamento e mais consistentes com o estrangulamento homicida com corda”.

A médica Judy Melinek, uma patologista forense, respondeu à hipótese com um artigo no site especializado MedPage Today. Segundo uma fonte científica citada por Melinek, as fraturas são observadas em cerca de 70% dos suicídios por enforcamento. Além disso, a chance de as fraturas ocorrerem aumenta com a idade do suicida. Epstein tinha 66 anos ao morrer.

“As alegações de Baden são amplas, sem fundamento na ciência e conspiratórias”, concluiu a especialista. Ainda assim, ela disse que ele estava certo em pedir mais transparência nas investigações.

A legista responsável pelo relatório, Barbara Sampson, respondeu na época (outubro de 2019, dois meses após a morte de Epstein) que defendia com firmeza as conclusões.

Britânico amigo de Epstein está sendo purgado da elite governamental

A situação para o ex-embaixador britânico nos Estados Unidos, Peter Mandelson, está piorando desde que ele precisou sair do Partido Trabalhista do Reino Unido no dia 1º de fevereiro, dois dias após a publicação do grande lote de documentos ligados a seu amigo Jeffrey Epstein, financista americano morto na prisão em 2019.

No dia 3, Mandelson também informou que estava se aposentando da Câmara dos Lordes, um senado vitalício britânico em que os membros ganham títulos de nobreza.

O primeiro-ministro Keir Starmer pediu perdão ao público britânico por ter acreditado nas “mentiras” de Mandelson. O mandatário referia-se a inverdades que o ex-embaixador teria dito no processo de triagem para o cargo.

Nesta sexta-feira (6), a polícia britânica cumpriu mandados de busca e apreensão em duas propriedades de Mandelson. Celulares e computadores foram apreendidos. Vêm aí os Mandelson Files. A BBC estimou que são 100 mil.

Epstein expressou interesse em modelos brasileiras; seu amigo agente de modelos morreu do mesmo jeito

“E a namorada do Eike Batista?”, perguntou Epstein por e-mail ao agente de modelos francês Jean-Luc Brunel, em 2012. “Luma de Oliveira, ele era ou é casado com ela”, respondeu Brunel. Luma já estava divorciada de Eike havia oito anos.

Brunel também se enforcou em uma cela em 2022, aos 76 anos. Ele ficou preso por um ano em Paris e era investigado por estupro e tráfico sexual de menores, especialmente modelos em sua agência MC2, fundada com participação de Epstein. Em 2020, ele tentou fugir para o Senegal.

Uma das acusadoras de Brunel é a modelo holandesa Thysia Huisman. Ela diz que foi drogada e estuprada pelo francês aos 18 anos.

Em 2016, Epstein conversou com o músico e antropólogo Ramsey Elkholy a respeito de comprar algumas agências de modelos brasileiras. A compra não aconteceu. Elkholy vendia a ideia dizendo que Epstein teria “acesso” às modelos. Ele era um intermediário no contato do financista com mulheres jovens. Em agosto do mesmo ano, ele escreveu para Epstein: “Estou me encontrando com duas garotas russas no Central Park daqui a pouco, uma é bonita, não vi a amiga dela ainda”.

Os Epstein Files são um pânico moral?

Uma semana pode parecer pouco para a análise do panorama geral dos Epstein Files. Para alguns analistas, contudo, já são suficientes os indícios de que o frenesi nas redes sociais faz parte de um pânico moral.

Apesar do volume alto de documentos, são poucos os casos revelados de conduta criminosa. O grosso dos comentários diz respeito a escolhas questionáveis e imorais, como a escolha do ex-príncipe britânico Andrew Mountbatten-Windsor e sua esposa de continuarem uma amizade com Epstein mesmo depois de seu período na prisão por solicitar prostituição de uma menor de idade. O mesmo vale para o bilionário britânico Richard Branson e o linguista Noam Chomsky, que se comunicou com Epstein até a respeito de falar com Lula na prisão.

Algumas das supostas revelações são fabricações interpretativas completas.

Circulou nas redes sociais a foto de um homem abraçado a crianças e com a mão na perna de uma menina. Todos os rostos, exceto o do homem, têm tarja preta. “Precisamos do nome dele!”, disse uma conta com 175 mil seguidores no X. O homem é Glenn Dubin, um bilionário investidor americano. As crianças são seus próprios filhos. Não há nada de errado na foto.

Glenn Dubin com sua família em foto mal interpretada por comentaristas das redes sociais. Foto: Reprodução/DoJ

Claire Lehmann, editora-chefe da revista australiana Quillette, passou 13 horas suspensa no X no dia 3 de fevereiro por ter dito que os Epstein Files eram “incrivelmente chatos”. A suspensão aconteceu por causa de denúncias espúrias em massa dos que não toleram quem não ache o caso tão escandaloso. Em um artigo refletindo sobre o episódio, Lehmann disse que ajudou a entender melhor “como pânicos morais funcionam”.

Ela comparou o caso ao pânico moral do #MeToo, do final dos anos 2010, que de fato ajudou a levar abusadores como o produtor de Hollywood, Harvey Weinstein, à Justiça, mas pelo caminho deixou vários casos de falsas acusações e caça às bruxas. E ao pânico moral sobre a brutalidade policial racialmente motivada, em 2020, após a morte de George Floyd.

“Embora as investigações policiais tenham produzido apenas duas condenações — contra o próprio Epstein e contra [sua companheira] Ghislaine Maxwell —, a história permaneceu politicamente útil como uma ferramenta para perseguir inimigos”, escreveu Lehmann. “Na direita, é usada para acusar figuras como Bill Clinton, Bill Gates e ‘os judeus’. Na esquerda, torna-se um veículo para atacar Donald Trump, os sionistas e o patriarcado”.

Em 10 de julho de 2025, o jornalista Michael Tracey, um colaborador de Glenn Greenwald, publicou um artigo provocativo, mas bem argumentado, na revista Compact. Para ele, é uma “mitologia” a história de que “o financista falecido Jeffrey Epstein orquestrou uma operação em larga escala de tráfico sexual na qual indivíduos poderosos no governo, mercado, entretenimento e academia foram sistematicamente alvos de arapucas de encontros sexuais filmados secretamente e depois chantageados ao silêncio e cumplicidade”.

Tracey disse que uma das principais acusadoras de Epstein, Virginia Giuffre, era uma “fabulista em série”. Além disso, ela recebeu ao menos cinco indenizações para encerrar processos relacionados a Epstein, além de US$ 10 milhões do ex-príncipe Andrew, outros milhões de Ghislaine Maxwell, parceira e cúmplice de Epstein, entre outras somas.

Para o jornalista, as indenizações extrajudiciais viraram uma máquina de dinheiro em que as acusadoras não precisavam se expor, mantendo-se anônimas, e ganhando até US$ 5 milhões de um fundo montado por advogados que perseguiam a controvérsia. Tracey acha injusto que acusadores possam se manter anônimos e que isso pode prejudicar o direito dos acusados a um julgamento público.

Para Epstein, 16 anos era “velha demais”

Um bom insight sobre quem era Epstein foi dado por Sam Harris, um intelectual e influenciador que é citado nos arquivos. Epstein lhe mandou e-mails tentando marcar uma conversa entre Harris e Chomsky — eles haviam brigado. Harris respondeu “só se for filmado” (o que seus detratores estão tirando de contexto).

Harris diz que, quando viu Epstein, ele apareceu com uma mulher asiática de 20 e poucos anos. Até aqui, tudo bem. Mas o financista fez questão de, em público, colocar a mulher em seu colo e balançá-la. Harris concluiu que ele era um “babaca” e não quis mais contato. O intelectual, crítico ferino de Trump, duvida que os arquivos mostrem que o presidente americano tenha interesse em meninas pré-púberes ou adolescentes, como tinha Epstein.

Uma das vítimas de Epstein é a brasileira Marina Lacerda. Ela diz ter sido atraída pelo financista e sua companheira, Ghislaine Maxwell, quando tinha apenas 14 anos e era uma imigrante recém-chegada aos Estados Unidos. “Ele me forcou a fazer sexo com ele, basicamente”, disse Lacerda à ABC News, em setembro de 2025.

Quando ela passou dos 16 anos, Epstein perdeu o interesse. “Ele disse ‘você está velha demais’”, relatou Lacerda. Ela foi contatada pelas autoridades pela primeira vez em 2008, mas disse que teve medo de falar na época. Em 2019, ela resolveu colaborar. Lacerda se emocionou ao dizer que contou a história para sua filha, e pediu a liberação dos arquivos.

Linha do tempo dos crimes e morte de Jeffrey Epstein

  • Março de 2005. A polícia abre uma investigação contra Epstein na Flórida após os pais de uma menina de 14 anos dizerem que o financista deu dinheiro a ela por uma massagem. Outras alegações de abuso sexual de menores corroboram que as massagens eram uma desculpa favorita do abusador.
  • Julho de 2006. Júri da Flórida acusa Epstein formalmente por solicitar prostituição (um crime nos EUA, não no Brasil). A polícia diz, contudo, que a conduta criminosa de Epstein era bem mais ampla, passando o caso ao FBI.
  • Maio de 2007. Agentes do FBI acusam Epstein de 60 crimes.
  • Julho de 2007. Advogados de Epstein se encontram com procuradores do Distrito Sul da Flórida. Os procuradores oferecem encerrar a investigação se Epstein se declarasse culpado por dois crimes e aceitasse uma pena de prisão e o registro de seu nome como criminoso sexual. A negociação incluiu um acordo de não persecução penal, dando imunidade federal para Epstein e quatro comparsas, além de “quaisquer comparsas em potencial”. Os procuradores concordaram em manter o acordo em sigilo e não contar às vítimas.
  • Junho de 2008. Epstein se declara culpado de solicitação de prostituição de uma menor de 18 anos. A pena foi de 18 meses de prisão. Ele tinha permissão para sair do presídio 12 horas por dia.
  • Julho de 2008. Uma acusadora abre ação no Judiciário federal a respeito de não ter sido informada do acordo de não persecução. Essa ação teria sucesso em 2019.
  • Julho de 2009. Epstein é libertado depois de cumprir menos de 13 meses de cárcere.
  • Setembro de 2009. Juiz da Flórida ordena a publicação do documento que deu imunidade contra persecução penal federal a Epstein.
  • 2010. Epstein paga indenizações extrajudiciais a várias vítimas para encerrar parte dos processos.
  • Setembro de 2015. Virginia Giuffre processa Ghislaine Maxwell por chamá-la de mentirosa.
  • Maio de 2017. Maxwell paga indenização extrajudicial a Giuffre. O jornal Miami Herald, contudo, consegue tirar o sigilo dos autos do processo, lançando luz a dezenas de acusações de abuso sexual de menores.
  • Novembro de 2018. Miami Herald publica uma série de reportagens investigativas sobre Epstein e o acordo de não persecução penal, causando comoção pública.
  • Dezembro de 2018. Epstein paga mais indenizações extrajudiciais a vítimas.
  • 6 de julho de 2019. Agentes federais prendem Epstein por acusações de tráfico sexual de menores e conspiração para cometer o crime.
  • (Começa aqui a linha do tempo da apresentação do FBI sobre a investigação da morte.) 8 de julho de 2019. Epstein é detido no Centro Correcional Metropolitano (MCC) de Nova York.
  • 9 de julho de 2019. Epstein recebe como companheiro de cela o ex-policial Nicholas Tartaglione, preso por assassinato.
  • 23 de julho de 2019. Epstein faz primeira tentativa de suicídio.
  • 24 a 29 de julho de 2019. Epstein é posto em programa de vigilância antissuicídio.
  • 29 de julho de 2019. Vigilância termina.
  • 9 de agosto de 2019. Tartaglione sai da cela e Epstein fica sozinho.
  • 9 de agosto de 2019, às 19h40. Epstein é visto em vídeo pela última vez retornando à cela.
  • 10 de agosto de 2019, às 6h33. Funcionários do MCC encontram Epstein enforcado na cela. Ele teria usado a parte de cima do beliche para ancorar um pedaço de lençol. Funcionários falharam em checar a cela durante a madrugada. Das 11 câmeras nas dependências que incluem a cela, 10 não estavam funcionando. (Fim da linha do tempo na apresentação do FBI recém-liberada.)
  • 25 de maio de 2021. Os dois guardas que deveriam ter vigiado a cela durante a noite em que Epstein morreu, Tova Noel e Michael Thomas, confessaram que fraudaram registros para parecer que fizeram seu trabalho. Foram condenados a 100 horas de trabalhos comunitários.
  • Junho de 2023. O Departamento de Justiça publica relatório em que diz que não foram as câmeras que falharam, mas o sistema de gravação das imagens. Ainda existem as imagens de uma das câmeras. O feed (streaming) das 11 câmeras funcionou durante todo o período. O órgão apurou que a falha do sistema de gravação começou no dia 29 de julho de 2019. Foi um problema no HD de um dos dois bancos de imagens na unidade prisional. O log dos computadores indica “falhas catastróficas de disco” no dispositivo.



Fontes – Link Original

Classificado como 5 de 5

Compartilhe nas suas Redes Sociais

Facebook
Twitter
WhatsApp

Parceiros TV Florida

TV Florida USA – A sua TV Brasileira nos Estados Unidos

Registre-se

Registre-se para receber atualizações e conteúdo exclusivo para assinantes

MINUTO SAÚDE

Noticias Recentes

@2025 TV FLORIDA USA