“Eles escrevem o nome dos servidores ou dos membros do grupo, ou uma letra do nome do grupo. E aí, eles pagam. No rosto, é mais caro, assim como no pescoço. Na perna ou na coxa é o mais barato”, explica o delegado federal Flávio Rolim, chefe da Urcod (Unidade de Repressão a Crimes Cibernéticos de Ódio).
“Quando começar um fluxo financeiro com isso, nós teremos pessoas produzindo e vendendo esses conteúdos. Pessoas que odeiam aquele tipo de vídeo, mas produzem e vendem pela questão financeira”, alerta o delegado.
Segundo o delegado, já foram identificadas transações via Pix e até por meio de criptomoedas.
Casos como esses têm sido alvo de outras investigações. Em São Paulo, foi criado o Noad (Núcleo de Observação e Análise Digital) pela SSP (Secretaria de Segurança Pública) do estado para investigar mais de perto grupos online que incentivam e propagam crimes. No fim do ano passado, foi deflagrada uma operação para prender e realizar busca e apreensão em investigados.
Em abril, a polícia do Rio de Janeiro deflagrou uma operação contra uma organização criminosa que usava a internet para induzir crianças e adolescentes a propagar crimes de ódio, fazer apologia ao nazismo, divulgar fotos de exploração sexual infantil e maus-tratos de animais.
O relatório das pesquisadoras mostra que comunidades têm uma hierarquia definida, sendo o criador daquela panela uma espécie de líder. O acesso é concedido, geralmente, por meio de links que não costumam ser divulgados publicamente a fim de manter apenas integrantes dentro do círculo de confiança.
Porém, pode acontecer de esses links ganharem fama e serem divulgados em outras redes.
É comum que, além de mutilações, meninas sejam vítimas de estupro virtual —sendo submetidas a sessões ao vivo em que são expostas para outra pessoas e obrigadas a mostrar partes do corpo ou introduzir objetos pontiagudos na genitália. Entre outras torturas já observadas estão o consumo de substâncias nocivas, queimaduras, arranhões, espancamento e arrancamento de cabelos.
Procurado, o Discord volta a afirmar que tem política de “tolerância zero” para atividades ilegais e que, assim que toma conhecimento desse tipo de conteúdo, age imediatamente e aplica medidas cabíveis que vão desde o banimento a derrubada de servidores.
“Reiteramos de forma veemente que esse tipo de conteúdo não tem lugar na nossa plataforma, e seguimos totalmente comprometidos em colaborar com as autoridades locais para ajudar a garantir um ambiente seguro e positivo para todos os nossos usuários no Brasil”, diz a empresa, em nota.
Para o delegado Rolim, é preciso observar que a plataforma não é a única relacionada à propagação desses crimes.
“O problema não é o Discord. O problema não é a moderação do Discord. O problema não é a legislação. O problema é tudo isso funcionando junto”, diz ele, apontando o crescimento de grupos extremistas online, a facilidade de acesso às plataformas, principalmente, o abandono de jovens no ambiente cibernético.
Folhpress