O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) aponta R$ 48,1 milhões em pagamentos da empresa de transporte coletivo Transunião ao vereador licenciado Senival Pereira de Moura (PT) e a pessoas de seu círculo. Os valores foram identificados em uma auditoria privada que analisou movimentações financeiras de 2018 e 2019. Segundo a acusação, faltava documentação suficiente para comprovar a finalidade econômica das operações.
✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp
Senival foi preso novamente nesta quarta-feira (28), durante uma nova etapa das investigações sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Outras cinco pessoas também foram presas, enquanto Leonel Moreira Martins, conhecido como “Cabeça Branca”, é procurado.
O relatório da empresa Direção Auditores Independentes foi apreendido pela Polícia Civil durante a Operação Última Parada, deflagrada em junho. O documento integra as provas reunidas pelo MP-SP, que acusa 21 pessoas de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Auditoria identificou R$ 52,9 milhões em pagamentos sem comprovação
A análise apontou R$ 52,9 milhões em pagamentos feitos pela Transunião a pessoas e empresas sem documentação considerada suficiente para demonstrar a origem ou a finalidade dos repasses. Desse total, R$ 48.135.304,85 teriam sido destinados a Senival e pessoas próximas.
O relatório afirma que a empresa “não possuía ou não respeitava procedimentos e processos administrativos, éticos, penais e legais que garantissem controles eficazes”.
Os auditores também apontaram a possibilidade de novas autuações fiscais relacionadas aos pagamentos sem causa. Os valores poderiam chegar a R$ 16,3 milhões.
MP-SP investiga uso da Transunião para lavagem de dinheiro
A denúncia do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP-SP, descreve uma estrutura que teria usado a Transunião para movimentar recursos atribuídos a crimes relacionados ao PCC e ocultar sua origem.
Segundo os promotores, o esquema funcionaria desde 2014 e envolveria integrantes do núcleo de comando, responsáveis pela administração formal da empresa, operadores financeiros e pessoas que apareceriam como titulares de empresas, bens ou recursos.
A acusação sustenta que a companhia teria recebido valores e transferido parte deles a terceiros sem vínculo operacional aparente com o transporte coletivo. Os recursos também teriam sido incorporados ao capital social da empresa ou registrados como lucros e dividendos.
O MP-SP atribui ao grupo a ocultação e a dissimulação de R$ 50,095 milhões provenientes, segundo a denúncia, do tráfico de drogas e de outros crimes relacionados ao PCC. O dinheiro teria sido usado para ampliar o capital da Transunião e atender às exigências financeiras de uma licitação do transporte público municipal.
Senival é apontado como controlador informal
Embora não integrasse formalmente a administração da Transunião, Senival é apontado pelos promotores como responsável pelo controle de fato da empresa, sobretudo na área financeira. Segundo a denúncia, ele teria influência sobre decisões empresariais e sobre a destinação dos recursos.
A ligação do vereador com o transporte coletivo remonta à atuação dos perueiros na zona leste de São Paulo. Senival participou da formação da Cooperunião, em 2006, e, conforme a acusação, manteve posição central na estrutura que passou a operar por meio da Transunião.
Os investigadores afirmam que movimentações financeiras relevantes dependiam de sua autorização e que parte dos recursos teria sido destinada ao vereador e a pessoas próximas.
Investigação cita outros integrantes do grupo
A denúncia atribui funções distintas aos demais investigados. Lourival de França Monário é apontado como integrante do núcleo de comando, com influência sobre decisões empresariais e financeiras. Jair Ramos de Freitas, conhecido como “Cachorrão”, teria assumido a diretoria da Transunião após a morte de Adauto Soares Jorge, ex-presidente da empresa, assassinado a tiros em 2020.
Devanil Sousa Nascimento, conhecido como “Sapo”, é descrito como integrante do núcleo de operacionalização financeira e patrimonial. Osiel Bernardino Pinto teria participado da estrutura administrativa e recebido pagamentos da Transunião e da Cooperunião. Fábio Fernandes de Souza, o “Fábio Jaga”, aparece em operações financeiras relacionadas a outros investigados.
Leonel Moreira Martins, o “Cabeça Branca”, é apontado como intermediário entre o PCC e o grupo ligado à empresa. Segundo o MP-SP, ele orientaria a redistribuição de receitas e pagamentos a terceiros.
Jair e Devanil também são réus por suspeita de envolvimento na execução de Adauto Soares Jorge.
Celular escondido em vaso sanitário entrou na investigação
Outro elemento citado pelo Ministério Público é um celular encontrado submerso na caixa d’água do vaso sanitário da residência de Jair Ramos durante uma operação anterior. O aparelho foi apreendido no contexto da Operação Retis e submetido à perícia.
De acordo com a denúncia, os dados do telefone, analisados junto com informações bancárias, ajudaram a identificar conexões entre investigados por crimes ligados ao tráfico internacional de drogas, integrantes do PCC e a estrutura financeira associada à Transunião.
A investigação também identificou transferências entre a empresa, pessoas físicas e companhias ligadas ao grupo. Para os promotores, a falta de documentação sobre parte das operações e a fragmentação dos recursos entre diferentes destinatários reforçam a suspeita de lavagem de dinheiro.
O MP-SP pediu que elementos da investigação sejam compartilhados com órgãos municipais para apurar possíveis responsabilidades administrativas relacionadas aos contratos da empresa.
Defesa nega envolvimento de Senival
A defesa do vereador contesta a prisão preventiva decretada nesta quarta-feira (28). Os advogados afirmam que a decisão não apresenta fundamentação concreta suficiente nem fatos novos que justifiquem a medida.
Senival nega envolvimento com organização criminosa ou participação em esquema de lavagem de dinheiro. A defesa informou que adotará medidas judiciais para contestar a prisão.
“A defesa respeita as instituições e reconhece a legitimidade da investigação criminal. Entretanto, entende que a apuração dos fatos deve ocorrer com pleno respeito à presunção de inocência, ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal”, disse.
O advogado Anderson Minichillo, que representa Jair Ramos, também contestou a prisão. Ele afirmou que a defesa recebeu a decisão com surpresa e pretende recorrer. Segundo o advogado, não houve fatos novos que justificassem a medida.
Minichillo negou ainda a existência de relação entre seu cliente e o vereador. “Jair não tem nenhum tipo de relação com o vereador Senival e nunca teve”, declarou.
Sua opinião sobre esta matéria importa.
